A mulher que queria se tornar imortal
A mulher que queria se tornar imortal
Em certa cidade havia, há muitos e muitos anos, uma velha e rica senhora que, atacada de estranha loucura, queria se tornar imortal. Quanto mais envelhecia, mais se apossava dela o medo da morte.

Rezava todos os dias e todas as noites, pacientemente, e tanto pediu a Deus que lhe concedesse a graça de não morrer que acabou conseguindo mais ou menos o que queria.

Conseguiu-o para seu mal, como se viu mais tarde.

O caso foi que um dia sonhou que um anjo de asas cintilantes descia do céu. Ela se encolheu assustada, e, ao mesmo tempo, esperançosa. Seu quarto havia se enchido de uma radiante claridade, como se de repente se tivesse transformado numa opala gigantesca brilhando ao sol. E quando o anjo falou, todas as coisas que faziam algum rumor, dentro da noite, os grilos, as aves noturnas, os carros, as pessoas que passavam falando alto ou assobiando, tudo se calou, tomado de espanto, tudo ficou escutando a mensagem do céu.

E o anjo falou:

– O senhor Deus ouviu teus rogos. Ele manda te dizer que faças construir uma igreja. Durarás tanto quanto durar essa igreja.

Disse e desapareceu.

A velha senhora acordou sobressaltada, e nem pôde mais dormir o resto da noite, de tanta impaciência. Mal o sol espiou o quarto, pelas frestas da janela, a velha se levantou e saiu. Todos a viram muito ativa o dia todo, dando ordens, arranjando empregados, indo daqui para ali, à procura de arquitetos. À tarde, soube-se que ela havia mandado construir uma igreja de pedra.

– Para que uma igreja de pedra? – perguntavam, estranhando, pois as igrejas da cidade eram de tijolo e cal, e duravam bastante, apesar disso.

E ninguém sabia dar resposta.

O espanto da gente que habitava a cidade cresceu, quando se soube que aquela velhota maluca, em vez de ficar em casa, calmamente, recostada em gostosa cadeira de balanço, contando histórias ao netinhos, ia todos os dias fiscalizar a construção da igreja, incitando os pedreiros, aos gritos:

– Andem depressa com isso. Quero ver a igreja pronta, senão morro.

Os pedreiros abriam a boca, pasmados, sem entender patavina daquele mistério.

No dia em que a igreja ficou terminada, a velha senhora deu uma festa e viram-na brincar e rir, como se fosse uma menina. E desde então ela ria muito, seguidamente, e passava com um orgulhoso ar de posse, diante da igreja de pedra, magnífica e quase eterna: a sua vida de pedra.

Os anos foram se passando, morreram todos os velhos do lugar, e só ela permanecia firme. Quando lhe vinham contar a morte de alguém, ela casquinava um risinho assim: “Oh! Oh! Eh! Eh! Eh!”, como se dissesse para si mesma: “Comigo isso não acontecerá”.

Com o tempo, sua família foi se extinguindo. Morreram-lhe os filhos, os netos, os bisnetos e os netos de seus bisnetos. Ela foi ficando sozinha no enorme palácio vazio, velha, velha, enrugada, estranha, irreconhecível. Não tinha mais com quem falar, pois morreram todos os seus conhecidos. E os moços, cujo espanto não tinha limites diante daquela velhinha infinita, não queriam saber de prosa com ela e tinham até medo de vê-la.

A mulher já não contava os anos um por um. Contava por séculos. Fez trezentos, quatrocentos anos e depois passou a ter cinco, seis, sete séculos. Então começou a desejar e a pedir a morte, espantada com sua medonha solidão.

Porém a sentença de Deus estava dada: “Duraria quanto durasse a igreja de pedra”.

Logo se espalhou pela cidade que a velha senhora tinha arranjado outra mania. Sentava-se à porta do seu belo palácio, e perguntava aos que passavam:

– A igreja de pedra caiu?

– Não, minha senhora – respondiam eles, admirados. – Não cairá tão cedo.

E ela suspirava:

– Ah! Meu Deus!

Passavam-se os anos, e ela perguntava cada vez mais ansiosa:

– Quando cairá a igreja de pedra?

– Oh, minha senhora, quem pode saber quanto tempo durarão as pedras uma sobre as outras?

E todos tinham muita raiva e muito medo dela, pois fazia tais perguntas, além de cometer o desaforo de não morrer.

A velha senhora foi, por fim, à casa do padre, contou-lhe tudo e pediu que a deixasse ficar num caixão, dentro da igreja, esperando a morte.

Dizem que está ali até agora, e reza sem parar, todos os minutos de todos os dias, pedindo a Deus que a igreja caia.

Fonte: ifolclore.vilabol.uol.com.br
A Missa dos Mortos
A Missa dos Mortos
A missa dos mortos é uma das lendas mais tradicionais do Brasil. Existe um registro muito popular de fatos dessa natureza que aconteceram na Cidade de Ouro Preto, em Minas Gerais, no começo do século XX, por volta de 1900. O caso todo ocorreu numa pequena Igreja que ficava ao lado de um cemitério, e esta era a Igreja de Nossa Senhora das Mercês de Cima.

De todas as coisas,  porém,  capazes  de arrepiar cabelo, e que ouvi em minha infância ouro- pretana,  nenhuma  tão  tremenda  como  a  Missa  dos Mortos, na Igreja das Mercês de Cima.

Quem m'a contou é pessoa conhecida em toda a cidade  de  Ouro  Preto,  e  exercia  funções incompatíveis  com  o  uso  da  falsidade  em  suas informações.

Foi  João  Leite,  o  saudoso  João  Leite,  pardo, miudinho,  anguloso,  sempre  montado  em  seu cavalinho  branco,  minúscula  montaria  de  hábitos austeros,  que  se  contentava  de  viver  da  escassa relva do adro da Igreja.

Seria  possível  que  uma  pessoa  estimável  e honesta como João Leite, sacristão de confiança de uma  irmandade,  zelador  de  um  templo,  tivesse coragem  de  depois  de  pregar  uma  mentira envolvendo  mortos  respeitáveis,  fosse tranquilamente  dormir  na  sacristia,  tendo  ao  lado um cemitério?

Tenho  dúvidas.  João  Leite  era  ele  próprio  uma figura  mista,  metade  deste  mundo,  metade  do outro.

Suas  origens  eram  misteriosas.  Foi  enjeitado, com  horas  de  nascido,  à  porta  da  Santa  Casa,  em época que não se sabe. Não se sabe, ainda, quando começou a funcionar como sacristão das Mercês. As mais  velhas  pessoas  da  cidade  já  o  conheciam desde  criança,  nesse  mister,  com  a  mesma  cara, sempre com o mesmo cavalinho branco.

Quando  alguém  indagava  de  João  Leite  suas origens  ou  o  tempo  que  servia  Nossa  Senhora  das Mercês,  em  sua  Igreja,  João  Leite  sorria  e  não respondia  nada  Um  belo  dia,  há  alguns  anos,  foi encontrado  morto  diante  do  altar-mor,  deitado  no chão,  com  as  mãos  sobre  o  peito,  arrumadinho como se estivesse dentro de um caixão. O cavalinho branco  sumiu  sem  que  dele  ninguém  desse notícias.

Pois João Leite, segundo narrativa que lhe ouvi, já lá vão mais de trinta anos, assistiu a uma Missa dos Mortos.

Morando  na  sacristia  do  templo  cuja  conserva lhe  era  confiada,  achava-se  recolhido  altas  horas da noite, quando ouviu bulha na capela.

A  noite  era  fria  e  João  Leite  estava  com  a cabeça  coberta  para  esquentar-se  melhor. Descobriu-a e abrindo os olhos viu claridade.

Seriam  ladrões?  Mas  a  Igreja  era  pobre  e qualquer  ladrão,  por  mais  estúpido  que  fosse, saberia que a Igreja das Mercês, sendo paupérrima, não  dispunha  de  prataria,  de  qualquer  outra  coisa de  valor  mercantil.  Enfim,  podia  ser,  raciocinou João Leite.

Estava  nessa  dúvida  quando  ouviu  sussurrado por  vozes  cavas  em  coro,  o  "Deus  vos  salve"  do começo da ladainha.

Ergueu-se e foi resolutamente pelo corredor até a  porta  que  dá  para  a  nave.  A  Igreja  estava  toda iluminada,  altares,  lustres;  e  completamente  cheia de fiéis.

No  altar-mor,  um  sacerdote  paramentado celebrava missa.

João  Leite  estranhou  a  nuca  do  padre,  muito branca,  não  se  lembrando  de  calvície  tão  completa no clero de Ouro Preto.

Os fiéis que enchiam a nave trajavam todos de preto,  e  entre  eles  alguns  de  cogulas,  e  algumas senhoras  com  o  hábito  das  Mercês;  todos  de cabeças baixas.

Quando o Padre celebrante se voltou para dizer o  Dominus  Vobiscum,  João  Leite  verificou  que  era uma  simples  caveira  que  ele  tinha  em  lugar  da cabeça.

Assustou-se,  e  nesse  momento  reparando  nos assistentes,  agora  de  pé,  viu  que  também  eles  não eram mais do que esqueletos vestidos.

Procurou  logo  afastar-se  dali,  e,  caminhando, deu  com  a  porta  que  deitava  para  o  cemitério completamente escancarada.

O  melhor  que  tinha  a  fazer,  fez.  Recolheu-se  à cama,  cobriu  a  cabeça,  transido  de  medo,  e  ficou quietinho  ouvindo  o  sussurro  das  vozes  orando,  o tinir  da  campainha  na  "Consagração"  e  no  Domine nom  sum  dignus,  até  que  voltou  de  novo  o  pesado silêncio das frias noites de Vila Rica.

Informações Complementares sobre a Missa dos Mortos

Nomes comuns: Missa das Almas, Missa das Almas Penadas.

Origem Provável: É sem dúvida originária da Europa. Em Portugal e Espanha, por volta da idade média, já se conheciam lendas com estas. Os romanos antigos acreditavam que os fantasmas dos parentes mortos se reuniam de tempos em tempos. Assim, eles, como também os Mouros espanhóis, celebravam a Festa dos Mortos. O objetivo era espantar os fantasmas errantes dos antepassados. Em Portugal é conhecida como "A Missa das Almas", e na Espanha como "La Misa de las Animas".

No caso brasileiro, é uma lenda muito comum em todo interior do país, embora seja citada como primeiramente relatada em Ouro Preto, Minas Gerais, na Igreja de Nossa Senhora das Mercês de Cima.

Também em Minas Gerais, na cidade de São João Del Rei, na Matriz de N. S. do Pilar, existe um relato semelhante. Nesse caso, aconteceu com uma viúva, moradora do lugar. Ela teria assistido a uma dessas missas e perdeu a noção do tempo. Quando o sino bateu doze vezes, à meia-noite, tudo desapareceu ficando ela sozinha completamente desorientada, e imaginando se tudo aquilo não passara de um sonho, daqueles que parecem a mais pura realidade.

De acordo com a crença de alguns, a pessoa que presencia uma dessas missas, está perto de morrer ou seria um aviso de que vai morrer alguém conhecido dela. Já outros afirmam que é um sinal de longevidade.