A história de Gelert
Muitos anos atrás, em um castelo no fundo das montanhas acidentadas de Eryri, no município de Gwynedd, vivia um valente e respeitado príncipe chamado Llewelyn.

Este príncipe adorava caçar e seu cão de caça favorito era um cão feroz e sem medo chamado Gelert. Gelert acompanhava Llewelyn em todos os lugares e sempre era encontrado à frente da matilha. Nada era muito grande, muito forte ou muito feroz para Gelert, cuja bravura não conhecia limites.

Este príncipe tinha um filho amado, um bebê cuja mãe havia morrido no parto. Llewelyn amava muito sua esposa e ficou destroçado por sua morte. Seu único consolo era seu filho. Em seu leito de morte, Llewelyn havia prometido a sua esposa que ele cuidaria bem do menino e isso ele fez.

Ele aguardava o dia em que os dois pudessem andar juntos, caçando os lobos e os outros animais selvagens encontrados nas antigas colinas e nas florestas escuras de Gwynedd naqueles dias distantes.

Um dia, Llewelyn e seus homens estavam se preparando para sair à caça. O bebê estava dormindo profundamente em seu berço, com sua baba próxima. O dia estava frio e úmido, mas uma enorme lareira ardida no quarto e o berço estava coberto de peles quentes.

O bebê estava seguro e confortável. No entanto, Llewelyn decidiu deixar seu cão, Gelert, para proteger a propriedade. Ao sair, ele acariciou suavemente a cabeça enorme e abatida do cachorro.

"Guarda-os bem, Gelert", disse ele. "Até eu voltar".

A cauda de Gelert bateu o chão lentamente e seus olhos permaneceram no rosto de seu mestre até Llewelyn fechar suavemente a porta atrás dele.

Era tarde quando o príncipe voltou para casa. Ele estava cansado, mas vitorioso. Uma festa suntuosa estava sendo preparada e ele atravessou o grande salão em direção ao quarto, ansioso para ver seu filho e relaxar em frente ao grande fogo.

Mas, ao entrar na sala, viu uma visão terrível. Os móveis estavam revirados, as tapeçarias tinham sido arrancadas de suas cortinas e o berço do bebê estava vazio no chão. As peles luxuosas que cobriam o berço estavam espalhadas nas proximidades, rasgadas em pedaços e manchadas de sangue.

Enquanto Llewelyn estava paralisado no local, ele sentiu um nariz macio, quente e aveludado, acariciando a palma de sua mão. Ele olhou para baixo para ver os olhos confiantes de Gelert olhando para ele. O cachorro parecia exausto, mas movia debilmente sua cauda. Sua cabeça e suas patas estavam manchadas de sangue.

"Você criatura perversa!" Gritou o príncipe. "Este cão matou meu filho!" E, sem mais delongas, ele puxou a adaga e a enfiou profundamente no lado de Gelert. Quando o cão caiu no chão, o príncipe ouviu um suave gemido por trás do berço virado para cima.

Enquanto o cão morria lentamente, Llewelyn pegou suavemente o filho.

Demasiado tarde, ele se virou para ver o corpo meio coberto de um enorme lobo morto no chão.

Graças a Gelert, o bebê permaneceu ileso. Cheio de remorso, Llelwelyn se ajoelhou e acariciou suavemente o amigo fiel e a cauda de Gelert bateu o chão lentamente pela última vez.

O corpo de Gelert foi enterrado fora das paredes do castelo, perto do rio. A enorme laje de pedra, inscrita com o nome de Gelert, ainda marca o túmulo e a aldeia próxima ainda carrega o nome de "Beddgelert" - a sepultura de Gelert.
A lenda da cobra preta que mama
Tio João, açoriano por parte de pai e mãe, louro, de olhos azuis, parecia um alemão. Mas não era.

Português puro. Das Ilhas. Casou com uma ruivinha de origem alemã, dona Olga, trabalhadeira e buenacha como só ela. Depois de um ano de casados, nasceu o primeiro filho — o Joãozinho, lindo e gorducho que até parecia um anjo do céu de tão mimoso! E vivo como quê.

Pois essa criança quase que se foi, junto com a mãe, semanas depois de nascido, por causa da tal cobra.

Tio João morava numa casa de santa fé, legítima casa de gaúcho, paredes de torrão, quando nasceu o piá, e isto porque estava esperando que lhe aprontassem a casa que mandara construir pelo “dr.” Pedreira, velhote curioso que enriquecera levantando casas pros moradores em terrenos da companhia das Minas de carvão…
A lenda da cobra preta que mama
Cinco dias depois de nascido, o guri acordou, de madrugada, chorando que dava pena. A mãe, que acordara sem leite, não sabia porque a criança chorava daquele modo.

Chamaram o doutor. Veio, examinou e nada encontrou na criança. Tudo bem. Durante o dia mamava, dormia e ficava sossegada. Mas de noite, era aquele berbezum. Acordava de madrugada chorando que era um desespero.

E o tempo foi passando, sempre no mesmo. Fizeram tudo, até benzedura. Nada adiantou. E a criança ia emagrecendo dia a dia, e a mãe também.

No fim de seis semanas a criança estava que era pele e osso e dona Olga parecia cair de magra. Um horror! E olhe que ela era uma mulher e tanto.

Remédio e mais remédio. Benzedura e mais benzedura. Simpatias e outras coisas. Tudo em vão.

O desespero invadiu a casa e todo o vizindário estava alarmado com o causo.

O verão chegara e o calor era intenso. Uma noite, como não aguentasse mais dentro do rancho, tio João, lá pelas tantas, acordou e resolveu chegar à janela.

A lua brilhava com intensidade. A noite, de tão clara parecia dia. Tio João pensou em dar uma volta pelo terreiro. E ao voltar-se um raio lindo da lua batia em cheio na cama do casal, onde dona Olga, fraca e esgotada dormia ao lado do pequeno.

Olhou o quadro e duas lágrimas lhe rolaram, dos olhos muitos azuis, cor daquele céu que a lua prateava. Ia sair do quarto quando uma coisa qualquer, escura, se mexeu de mansinho em cima do alvo lençol.

Assustado, inclinou-se sobre o leito e viu, estarrecido enorme cobra que se afastava serenamente! gorda e lustrosa! Tinha, ainda, na boca da criança, a ponta do rabo. E viu, também, que Joãozinho chupava-o para valer!

Devagarinho, pra não acordar a dona e assustá-la, tio João, que então compreendeu a causa daquela definhação toda, afastou-se um pouco para dar tempo a que a cobra descesse e seguisse seu caminho.

Desceu pelo pé do leito e, rastejado preguiçosamente, desapareceu por um buraco da parede junto ao chão de terra batida. Chegando à janela, viu-a no terreiro. De mansinho por ali mesmo e, armando-se de uma acha de lenha, esmagou-a com fúria.

Mas como dizem que quando se mata uma cobra a companheira aparece alguns dias depois, à procura do matador, tio João nada disse à esposa, nem a ninguém. Ficou esperando a companheira.

Na noite seguinte ela apareceu, que de certo eram sócias no leite de dona Olga, as malvadas! — e sem cerimônia atravessou o terreiro e rumou direitinho pro buraco! E foi logo entrando. Então tio João agarrou-a pelo rabo e — zás! — deu com ela no terreiro como se fosse açoiteira de velho, espatifando-a. Fechou o buraco com todo o cuidado e foi dormir.

E dormiu como um justo.

No outro dia contou tudo.

E o mistério se explicou.

Daí por diante a coisa endireitou de novo. Dona Olga recuperou a saúde e a disposição e o piasote engordou outra vez que era um gosto. Tornou-se o mais lindo e robusto guri da zona. E teve mais quatro irmãos, dois homens e duas mulheres. Lindos todos!

Por isso tomem cuidado! Mulher que amamenta, mesmo nas cidades, deve dormir em quarto bem fechado. Não vá alguma “cobra que mama” entrar e fazer as suas…

Cobra, seu moço, é o diabo. E isto desde que o mundo é mundo…
A mulher que queria se tornar imortal
A mulher que queria se tornar imortal
Em certa cidade havia, há muitos e muitos anos, uma velha e rica senhora que, atacada de estranha loucura, queria se tornar imortal. Quanto mais envelhecia, mais se apossava dela o medo da morte.

Rezava todos os dias e todas as noites, pacientemente, e tanto pediu a Deus que lhe concedesse a graça de não morrer que acabou conseguindo mais ou menos o que queria.

Conseguiu-o para seu mal, como se viu mais tarde.

O caso foi que um dia sonhou que um anjo de asas cintilantes descia do céu. Ela se encolheu assustada, e, ao mesmo tempo, esperançosa. Seu quarto havia se enchido de uma radiante claridade, como se de repente se tivesse transformado numa opala gigantesca brilhando ao sol. E quando o anjo falou, todas as coisas que faziam algum rumor, dentro da noite, os grilos, as aves noturnas, os carros, as pessoas que passavam falando alto ou assobiando, tudo se calou, tomado de espanto, tudo ficou escutando a mensagem do céu.

E o anjo falou:

– O senhor Deus ouviu teus rogos. Ele manda te dizer que faças construir uma igreja. Durarás tanto quanto durar essa igreja.

Disse e desapareceu.

A velha senhora acordou sobressaltada, e nem pôde mais dormir o resto da noite, de tanta impaciência. Mal o sol espiou o quarto, pelas frestas da janela, a velha se levantou e saiu. Todos a viram muito ativa o dia todo, dando ordens, arranjando empregados, indo daqui para ali, à procura de arquitetos. À tarde, soube-se que ela havia mandado construir uma igreja de pedra.

– Para que uma igreja de pedra? – perguntavam, estranhando, pois as igrejas da cidade eram de tijolo e cal, e duravam bastante, apesar disso.

E ninguém sabia dar resposta.

O espanto da gente que habitava a cidade cresceu, quando se soube que aquela velhota maluca, em vez de ficar em casa, calmamente, recostada em gostosa cadeira de balanço, contando histórias ao netinhos, ia todos os dias fiscalizar a construção da igreja, incitando os pedreiros, aos gritos:

– Andem depressa com isso. Quero ver a igreja pronta, senão morro.

Os pedreiros abriam a boca, pasmados, sem entender patavina daquele mistério.

No dia em que a igreja ficou terminada, a velha senhora deu uma festa e viram-na brincar e rir, como se fosse uma menina. E desde então ela ria muito, seguidamente, e passava com um orgulhoso ar de posse, diante da igreja de pedra, magnífica e quase eterna: a sua vida de pedra.

Os anos foram se passando, morreram todos os velhos do lugar, e só ela permanecia firme. Quando lhe vinham contar a morte de alguém, ela casquinava um risinho assim: “Oh! Oh! Eh! Eh! Eh!”, como se dissesse para si mesma: “Comigo isso não acontecerá”.

Com o tempo, sua família foi se extinguindo. Morreram-lhe os filhos, os netos, os bisnetos e os netos de seus bisnetos. Ela foi ficando sozinha no enorme palácio vazio, velha, velha, enrugada, estranha, irreconhecível. Não tinha mais com quem falar, pois morreram todos os seus conhecidos. E os moços, cujo espanto não tinha limites diante daquela velhinha infinita, não queriam saber de prosa com ela e tinham até medo de vê-la.

A mulher já não contava os anos um por um. Contava por séculos. Fez trezentos, quatrocentos anos e depois passou a ter cinco, seis, sete séculos. Então começou a desejar e a pedir a morte, espantada com sua medonha solidão.

Porém a sentença de Deus estava dada: “Duraria quanto durasse a igreja de pedra”.

Logo se espalhou pela cidade que a velha senhora tinha arranjado outra mania. Sentava-se à porta do seu belo palácio, e perguntava aos que passavam:

– A igreja de pedra caiu?

– Não, minha senhora – respondiam eles, admirados. – Não cairá tão cedo.

E ela suspirava:

– Ah! Meu Deus!

Passavam-se os anos, e ela perguntava cada vez mais ansiosa:

– Quando cairá a igreja de pedra?

– Oh, minha senhora, quem pode saber quanto tempo durarão as pedras uma sobre as outras?

E todos tinham muita raiva e muito medo dela, pois fazia tais perguntas, além de cometer o desaforo de não morrer.

A velha senhora foi, por fim, à casa do padre, contou-lhe tudo e pediu que a deixasse ficar num caixão, dentro da igreja, esperando a morte.

Dizem que está ali até agora, e reza sem parar, todos os minutos de todos os dias, pedindo a Deus que a igreja caia.

Fonte: ifolclore.vilabol.uol.com.br
A lenda do furto do fogo
A lenda do furto do fogo
Segundo os índios tembés, nos tempos míticos o fogo tinha um único dono: o urubu-rei. Como o urubu era muito avaro da sua preciosidade, os índios não podiam fazer uso de chama alguma, e quando queriam comer carne só lhes restava o expediente de expô-la longamente ao sol.

Isso foi até o dia em que um índio mais destemido resolveu dar um fim àquilo.

– Vamos atrair o urubu-rei e a sua tropa inteira – disse ele, matando uma anta enorme.

Depois de sangrarem bem o bicho, eles deixaram o cadáver exposto ao sol, para atrair os urubus.
Não demorou muito e o urubu-rei, atraído pelo fedor da carniça, desceu sobre a anta.

– Viva, temos hoje banquete farto! Vamos lá, companheiros, há carniça para todos! – disse ele, dando um grasnido.

Logo o céu anoiteceu com a chegada de uma verdadeira nuvem de urubus. A bicharada caiu sobre a anta, mas alguém teve a ideia de acender um fogo e preparar a carne na grelha, ou no moquém, como se diz entre os índios.

– Carne moqueada também tem lá suas delícias! – disse o urubu-rei, retirando de debaixo da asa negra um tição muito bem escondido para acender a grelha.

Os urubus, naquele tempo, tinham o dom de se transformar em gente e, assim, antes de se lançarem à comilança, despiram as asas e ficaram com a aparência de homens (daí, talvez, o gosto que tinham em assar a carne, ao invés de comerem-na crua, como hoje normalmente fazem).

– Ufa! Que calorão! – disse o urubu-rei, despindo o manto de penas. Nus feito gente, os urubus atiraram-se finalmente à carne, e justo neste instante, irrompendo de dentro da mata, surgiram os índios, de olho aceso no fogo que ardia na grelha.

– Depressa! Apanhem um tição! – gritou o velho pajé, organizador do assalto.

Um grito de alerta do urubu que vigiava avisou, entretanto, os demais, e logo todos vestiram seus mantos negros de penas e levantaram voo estabanadamente. Antes de partir, o urubu-rei tomou a última fagulha que ar- dia na grelha e, depois de ocultá-la debaixo da asa, juntou-se às demais aves no céu.

O pajé correu alucinadamente até a grelha, remexeu no borralho e encontrou um último caquinho de carvão, com uma listrinha laranja correndo pra lá e pra cá.

– Aqui! Aqui! – gritou ele aos demais. – Vamos, assoprem, não deixem apagar!

Quinze bocas cercaram o carvãozinho e começaram a assoprá-lo agoniadamente, mas o fizeram com tanta força que a listrinha laranja acabou por se finar, e o carvão nunca mais se acendeu.

– Idiotas! – exclamou o pajé, irado.

Quando se acalmou um pouco, porém, viu que a anta ainda estava quase inteira.

– Eles voltarão logo – disse ele, animando-se outra vez. – Desta vez, vou ficar bem próximo da grelha, e vocês desapareçam e só surjam quando eu ordenar o ataque!

Os tembés fizeram como o pajé ordenara, enquanto ele tratava de cavar um buraco bem ao lado da carniça a fim de se enfiar ali dentro. O mau cheiro da anta decomposta era insuportável, mas quem disse que furtar fogo era coisa fácil e prazenteira?

Dali a pouco, os urubus voltaram, loucos de fome. Após despirem seus casacos pretos, que fediam mais do que a carniça, reacenderam o fogo e re- começaram a banquetear-se.

Enquanto comiam, o pajé aproveitou para irromper da sua toca, ágil como uma marmota, e meteu a mão dentro da grelha para apanhar um tição.

Assustados, os urubus apanharam suas vestes e levantaram voo outra vez. O urubu-rei ainda tentou resgatar o tição, ou pelo menos extingui-lo na mão do pajé, fazendo uma ventania danada com as asas, mas o velho índio cerrara os dedos com tanta força que nem um furacão teria como apagá-lo.

No fim de tudo, os urubus sumiram nos céus, e o pajé viu-se dono do tição, que ainda ardia em sua mão. Que Anhangá o carregasse se aquilo não ardia como cem mil espetadas!

Como um Prometeu enlouquecido, o pajé tratou de atear fogo em to- das as árvores de lenho incandescente que encontrava, a fim de preservar a chama, e teria colocado fogo na mata inteira se os demais índios não tivessem corrido para apagar aquelas labaredas todas.
Maire-Monan e os três dilúvios

Maire-monan e os três dilúviosOs tupinambás creem que houve, nos primórdios do tempo, um ser chamado Monan. Segundo alguns etnógrafos, ele podia não ser exatamente um deus, mas aquilo que se convencionou chamar de um “herói civilizador”.

Deus ou não, o fato é que Monan criou os céus e a Terra, e também os animais. Ele viveu entre os homens, num clima de cordialidade e harmonia, até o dia em que eles deixaram de ser justos e bons. Então, Monan investiu- se de um furor divino e mandou um dilúvio de fogo sobre a Terra.

Até ali a Terra tinha sido um lugar plano. Depois do fogo, a superfície do planeta tornou-se enrugada como um papel queimado, cheia de saliências e sulcos que os homens, mais adiante, chamariam de montanhas e abismos.

Desse apocalipse indígena sobreviveu um único homem, Irin-magé, que foi morar no céu. Ali, em vez de conformar-se com o papel de favorito dos céus, ele preferiu converter-se em defensor obstinado da humanidade, conseguindo, após muitas súplicas, amolecer o coração de Monan.

Segundo Irin-magé, a terra não poderia ficar do jeito que estava, ar- rasada e sem habitantes.

– Está bem, repovoarei aquele lugar amaldiçoado! – disse Monan, afinal.

A história, como vemos, é tão velha quanto o mundo: um ser superior cria uma raça e logo depois a extermina, tomando, porém, o cuidado de poupar um ou mais exemplares dela, a fim de recomeçar tudo outra vez.

E foi exatamente o que aconteceu: Monan mandou um dilúvio à Terra para apagar o fogo (aqui o dilúvio é reparador) e a tornou novamente habitável, autorizando o seu repovoamento.

Irin-magé foi encarregado de repovoar a Terra com o auxílio de uma mulher criada especialmente para isto, e desta união surgiu outro personagem mítico fundamental da mitologia tupinambá: Maire-monan.

Esse Maire-monan tinha poderes semelhantes aos do primeiro Monan, e foi graças a isto que pôde criar uma série de outros seres – os animais –, espalhando-os depois sobre a Terra.

Apesar de ser uma espécie de monge e gostar de viver longe das pessoas, ele estava sempre cercado por uma corte de admiradores e de pedintes.

Ele também tinha o dom de se metamorfosear em criança. Quando o tempo estava muito seco e as colheitas tornavam-se escassas, bastava dar umas palmadas na criança-mágica e a chuva voltava a descer copiosamente dos céus. Além disso, Maire-monan fez muitas outras coisas úteis para a humanidade, ensinando-lhe o plantio da mandioca e de outros alimentos, além de autorizar o uso do fogo, que até então estava oculto nas espáduas da preguiça.

Um dia, porém, a humanidade começou a murmurar.

– Este Maire-monan é um feiticeiro! – dizia o cochicho intenso das ocas. – Assim como criou vegetais e animais, esse bruxo há de criar monstros e Tupã sabe o que mais!

Então, certo dia, os homens decidiram aprontar uma armadilha para esse novo semideus. Maire-monan foi convidado para uma festa, na qual lhe foram feitos três desafios.

– Bela maneira de um anfitrião receber um convidado! – disse Maire- monan, desconfiado.

– É simples, na verdade – disse o chefe dos conspiradores. – Você só terá de transpor, sem queimar-se, estas três fogueiras. Para um ser como você, isso deve ser muito fácil!

Instigado pelos desafiantes, e talvez um pouco por sua própria vaidade, Maire-monan acabou aceitando o desafio.

– Muito bem, vamos a isso! – disse ele, querendo pôr logo um fim à comédia.

Maire-monan passou incólume pela primeira fogueira, mas na segunda a coisa foi diferente: tão logo pisou nela, grandes labaredas o envolveram. Diante dos olhos de todos os índios, Maire-monan foi consumido pelas chamas, e sua cabeça explodiu. Os estilhaços do seu cérebro subiram aos céus, dando origem aos raios e aos trovões que são o principal atributo de Tupã, o deus tonante dos tupinambás que os jesuítas, ao chegarem ao Brasil, converteram por conta própria no Deus das sagradas escrituras.

Desses raios e trovões originou-se um segundo dilúvio, desta vez arrasador.

No fim de tudo, porém, as nuvens se desfizeram e por detrás delas surgiu, brilhando, uma estrela resplandecente, que era tudo quanto restara do corpo de Maire-monan, ascendido aos céus.

Depois que o mundo se recompôs de mais um cataclismo, o tempo passou e vieram à Terra dois descendentes de Maire-monan: eles eram filhos de um certo Sommay, e se chamavam Tamendonare e Ariconte.

Como normalmente acontece nas lendas e na vida real, a rivalidade cedo se estabeleceu entre os dois irmãos, e não tardou para que a fogueira da discórdia acirrasse os ânimos na tribo onde viviam.

Tamendonare era bonzinho e pacífico, pai de família exemplar, enquanto Ariconte era amante da guerra e tinha o coração cheio de inveja. Seu sonho era reduzir todos os índios, inclusive seu irmão, à condição de escravos.

Depois de diversos incidentes, aconteceu um dia de Ariconte invadir a choça de seu irmão e lançar sobre o chão um troféu de guerra.

Tamendonare podia ser bom, mas sua bondade não ia ao extremo de suportar uma desfeita dessas. Erguendo-se, o irmão afrontado golpeou o chão com o pé e logo começou a brotar da rachadura um fino veio de água.

Ao ver aquela risquinha inofensiva de água brotar do solo, Ariconte pôs-se a rir debochadamente.

Acontece que a risquinha rapidamente converteu-se num jorro d’água, e num instante o chão sob os pés dos dois, bem como os de toda a tribo, rachou-se como a casca de um ovo, deixando subir à tona um verdadeiro mar impetuoso.

Aterrorizado, o irmão perverso correu com sua esposa até um jenipapeiro, e ambos começaram a escalá-lo como dois macacos. Tamendonare fez o mesmo e, depois de tomar a esposa pela mão, subiu com ela numa pindoba (uma espécie de coqueiro).

E assim permaneceram os dois casais, cada qual trepado no topo da sua árvore, enquanto as águas cobriam pela terceira vez o mundo – ou, pelo menos, a aldeia deles.

Quando as águas baixaram, os dois casais desceram à Terra e repovoaram outra vez o mundo. De Tamendonare se originou a tribo dos tupinambás, e de Ariconte brotaram os Temininó.

Conto da Cobra-Norato

Conto da Cobra-NoratoCerta vez, uma mulher ficou grávida do Boto, o mais famoso sedutor das águas paraenses. Um casal de gêmeos nasceu. Era um lindo casal, só que um casal de cobras d’água.

A mãe não quis saber deles e foi pedir instruções a um pajé.

– Eles são cria da Cobra-Grande! – disse ela, assustada.

O pajé, depois de consultar seus manes, disse que ela deveria abandoná-los às margens do Tocantins, e assim foi feito.

O tempo passou, e as cobrinhas gêmeas viraram duas cobras gigantes. Uma delas se chamava Honorato, ou simplesmente Norato, e era uma cobra macho boa e cordata. Sua irmã, porém, tornou-se má e vingativa, e graças ao seu gênio ruim foi chamada Maria Caninana (mal chamada, já que caninana, na língua tupi, quer dizer “cobra não venenosa”).

Durante muito tempo, Cobra-Norato tentou demover a irmã da prática de maldades, mas ela não sabia fazer outra coisa senão afogar banhistas e afundar embarcações.

– Minha irmã, desta vez você passou dos limites! – disse-lhe Norato, certa feita, depois que ela fora bulir com uma cobra encantada que morava debaixo do altar de uma igreja em Óbidos.

Ela sabia que se a cobra saísse dali a igreja inteira ruiria. Mesmo assim, mexeu com ela e a cobra remexeu-se. Para felicidade das velhas beatas, a igreja não ruiu, mas ganhou uma rachadura de alto a baixo.

– Toma tento, encrenqueira! – disse Norato.

– Que tento, nem vento! Quem pensa que é? – silvou a Caninana.

Então Norato atracou-se com a irmã e, depois de uma luta titânica nas águas, matou-a.

Desde então, passou a haver apenas uma cobra sobrenatural no Tocantins, que era Cobra-Norato. Após estraçalhar a irmã, ele recuperou a alegria de viver, tendo adquirido até o hábito de fazer algumas visitinhas às aldeias próximas do rio, especialmente à noite, tal como seu pai Boto costumava fazer.

Cobra-Norato adorava dançar e, sempre que havia um baile, saía das águas para seduzir alguma moça ribeirinha. Ele tinha o dom de se transportar magicamente de um lugar para o outro, e era assim que podia ser visto, numa mesma noite, em quatro ou cinco lugares muito distantes.

Quando ele abandonava o rio para fazer suas incursões terrestres, costumava deixar nas margens a sua pele de cobra. De dentro dela surgia um rapaz belo e charmoso, irresistível às mocinhas.

Norato gostava tanto das suas surtidas noturnas que desejou tornar-se um ser humano como os outros. Havia, porém, um sortilégio que o impedia de abandonar as águas.

Certo dia, num baile, ele pediu a uma moça que quebrasse a maldição.

– É simples – disse ele. – Basta que você despeje algumas gotas de leite sobre a minha cabeça e depois dê um golpe sobre ela, o suficiente para tirar algumas gotas de sangue.

– jamais poderia feri-lo! – disse ela, em prantos.

Norato, porém, arrastou-a até as margens do rio e teimou para que ela o livrasse do mal. Antes, porém, ele devia assumir sua forma original de cobra, e foi aí que tudo deu pra trás. Ao ver a cobra monstruosa, a pobre menina saiu correndo de volta para a cidade.

Norato, desconsolado, pediu a todo mundo que o livrasse da maldição, mas era sempre a mesma coisa. Nem mesmo a sua mãe tivera coragem o bastante para encarar o monstro e livrá-lo da maldição.

Certa feita, porém, durante uma das festas às quais ele compareceu, um soldado valente se prontificou a colocar um fim ao sortilégio do amigo.

O soldado acompanhou Norato até as margens do rio, levando consigo uma garrafa de leite e a sua inseparável espada.

– Pode vestir a pele! – disse ele, ao chegarem ao rio.

Norato entrou para dentro da pele e se transformou, outra vez, na temível cobra. O soldado ficou pálido como a lua, mas não recuou. Depois de abrir a garrafa, despejou algumas gotas de leite na cabeça da cobra e, em seguida, aplicou-lhe uma valente cutilada na cabeça. Algumas gotas minaram da ferida, misturando-se ao leite, e, como por mágica, Norato tornou-se definitivamente homem.

Desde então, o fabuloso Cobra-Norato deixou de ser cobra. O que foi feito dele depois, ninguém sabe. Há quem diga que virou soldado e foi servir no mesmo batalhão do amigo que o desencantou, mas isto deve ser patranha de algum caboclo malicioso.

O casamento da mãe d’água

O casamento da mãe d’águaHavia, pois, um pescador que de pescador, ultimamente, só tinha o nome, pois não conseguia levar para casa peixe algum. Então, certo dia, obstinando-se em derrotar a maré de azar, ele decidiu permanecer pescando noite adentro, até arrancar qualquer coisa que fosse das águas.

– Daqui só saio com um peixão de encher os olhos! – anunciou ele, lançando o anzol.

O sol se foi, a noite chegou, e nada de peixe, até que, de repente, lá pelas tantas da madrugada, um clarão se fez no mar e uma cantoria de mulher subiu harmoniosa das águas.

Aquilo tinha todo jeito de visagem, e o pescador se encolheu todo, dando quase para se esconder atrás do samburá vazio. Mas a cantoria não cessava, até que uma criatura esplendorosamente bela emergiu das águas e foi acomodar-se numa das pedras, um pouco depois da rebentação.

Bem, se o pescador queria algo de encher os olhos, realmente conseguiu o que queria, pois a criatura era realmente deslumbrante. Da cabeça à cintura ela era mulher, e da cintura para baixo era peixe.

O pescador, que não tinha mulher nem peixe, sentiu-se duplamente recompensado.

– Deus é mesmo maravilhoso! – disse ele, depois de blasfemar a noite toda.

De repente, a mulher-peixe mergulhou e o pescador entrou em pânico.

– Espere, volte...! – gritou ele.

Fez-se o silêncio, até que a cantoria recomeçou, desta vez bem próxima,

a ponto de o pescador ficar meio hipnotizado. Ele entrou no mar, ficando com a água pela cintura, até que a mulher-peixe apareceu bem na sua frente. Com os cabelos molhados e o torso completamente nu, era uma visão de sonho ou de pesadelo deleitoso, o que acharem melhor.

– Quem é você? – balbuciou ele.

– Sou a Mãe-d’Água, e vou ensiná-lo a pescar – disse a sereia tupiniquim.

O pescador apanhou tanto peixe naquela noite que o samburá vergou de peso.

A partir daí, começou um romance entre o pescador e a Mãe-d’Água, que culminou num pedido de casamento.

– Sim, eu quero! – disse ela, donzela ingênua e sedenta dos prazeres do matrimônio.

– Você irá viver comigo? – perguntou o pescador.

– Está bem, vou viver em terra com você – disse ela, cedendo. – Mas imponho uma condição.

O pescador franziu a testa, pois era um tipo truculento.

– Só viverei com você enquanto não desfizer da minha gente do mar. O pescador suspirou aliviado!

– É claro, jamais falarei mal da sua gente! – disse ele, esquecendo-se logo do que prometera.

A partir desse dia, os dois foram viver na cabana do pescador. Quando a Mãe-d’Água chegou ao “ninho de amor”, entretanto, teve de fazer um esforço enorme para esconder a sua decepção.

“Que pobreza!”, pensou ela, ao adentrar o casebre de duas peças.

Um mormaço sufocante pairava ali dentro. Não havia cama nem rede para deitar, só uma esteira atirada no chão batido. A mesa, por sua vez, nada mais era do que uma tábua comprida deitada sobre duas pilhas de tijolos. Dois latões vazios de óleo de cozinha, postos de cada lado da mesa, completavam a mobília.

Mas o que realmente a incomodara fora a mudança no caráter do esposo. Desde a chegada, ela percebera que os modos do galante pescador haviam se alterado radicalmente.

– Deite-se aí! Tem a esteira inteirinha dando sopa ali.

iara aproximou-se cautelosamente da esteira toda desfiada. Quando estava a um passo dela, porém, retrocedeu instintivamente: uma lufada de urina seca explodira nas suas narinas rosadas como uma bofetada.

– Água e sabão têm por aí, peixinha. Trate de limpar a casa.

A Mãe-d’Água virou-se para o esposo, mas ele já saíra. E foi assim que começou o seu martírio terrestre.

O tempo passou, e o marido da sereia foi ficando cada vez mais grosseiro. já no segundo dia, o tratamento afetuoso mudou. O dia inteiro era um tal de “faça isso!” ou “faça aquilo!” que dava engulhos na pobre moça.

Dia após dia, a Mãe-d’Água, obrigada a viver naquela maloca junto com um homem tão grosseiro, foi perdendo todo o encanto pelo casamento.

– Então, é isto viver em terra? – dizia de si para si.

– O que está reclamando, agora? – perguntou o marido.

Ela desvencilhou-se, enojada, mas ele agarrou-a brutalmente.

– Escute aqui! Comigo não tem choradeira – disse ele.

“Onde está aquele pescador ingênuo e adorável?”, pensou ela.

Então, ela decidiu que, quem sabe tornando o marido rico, pudesse torná-lo novamente gentil. Graças aos seus dons mágicos, as bênçãos começaram a chover sobre o casal, e logo eles estavam morando num palácio à beira- mar. Pena que ela tivesse de limpar sozinha todos os trezentos aposentos.

– Não vou pagar criada alguma tendo uma mulher em casa! – disse o pescador, com modos ainda piores do que os do tempo da penúria.

Então ela desesperou-se de tudo e, a partir daí, não fez mais outra coisa na vida senão postar-se, dia e noite, no janelão do palácio que dava para o mar e entoar seus cânticos aquáticos de saudade.

infelizmente, as suas árias delicadas e pungentes só conseguiam irritar ainda mais o marido.

Um dia, finalmente, ela decidiu voltar para casa, custasse o que custasse.

A Mãe-d’Água sofreu muito nas mãos do marido ao comunicar o seu desejo, mas, perdendo todo o medo, resolveu enfrentá-lo.

– Não suporto mais esta vida em terra! Quero voltar para junto dos meus!

– O que quer junto dos peixes malditos?

Neste instante, um alívio abençoado desceu sobre a Mãe-d’Água. Ela estava finalmente liberta, pois o miserável acabara de maldizer os seus parentes do mar!

De repente, o céu ficou negro e uma onda medonha começou a formar-se na linha do horizonte. O pescador arregalou os olhos ao ver a massa d’água avançar na direção do palácio e, abandonando a esposa, correu como um alucinado para o morro mais alto.

As águas invadiram tudo, cobrindo o palácio dourado até o topo, e quando refluíram para dentro do mar arrastaram consigo a jovem sereia e o palácio inteiro, até a sua última pedra.

E foi assim que a Mãe-d’Água voltou a morar nos seus adorados domínios, enquanto o pescador voltou a ser um pobre-diabo azarado e solitário. Nunca mais conseguiu tirar coisa alguma do mar, nem mesmo as tatuíras da areia, que lhe escorriam ágeis pelos dedos, sem jamais deixarem-se agarrar.

Os quatro ladrões
Os quatro ladrõesSegundo Câmara Cascudo, o conto que vamos ler agora é tão antigo “que fazia rir aos cruzados”. “Os quatro ladrões”, de fato, é um dos contos mais disseminados pelo mundo – sua primeira aparição se fez na Índia, na mais remota Antiguidade, até encontrar no Brasil a sua moderna versão tropical.
Diz-se, pois, que quatro ladrões estavam descansando certo dia debaixo de uma árvore quando viram passar um sujeito gordo levando consigo um boi enorme e rechonchudo.

– Vejam, amigos! – disse o Ladrão Um. – Ali temos carne para o ano todo!

– Psiu! Vamos passar logo a perna no bobo – disse o Ladrão Três.

O Ladrão Quatro, que não era de muita conversa, simplesmente seguiu os demais.

já estavam quase chegando quando o Ladrão Um teve uma ideia melhor.

– Mesmo estando em quatro, este gorducho ainda pode nos criar problemas. Vamos nos separar e fazer o seguinte.

Ele explicou direitinho o plano, e logo os quatro estavam espalhados pela mata.

O proprietário continuou seu caminho com o boi até o Ladrão Um lhe aparecer pela frente.

– Bom dia, senhor cachorreiro! – disse ele, sorridente.

O gorducho apertou os olhos para ver quem era o autor da bobagem.

– Cachorreiro, disse você? Onde há cachorro por aqui? O Ladrão Um fez um ar de pasmo e retrucou:

– Ora, e este cãozinho felpudo aqui, o que é? – e passava a mão no cachaço do touro, enquanto assoviava.

O gordo, meio assustado, deu as costas e saiu ligeiro, puxando o boi pela corda.

– Só dá louco por aqui!

Andou mais alguns passos e se deparou com o Ladrão Dois.

– Linda manhã para passear com o fila! – disse este.
– Está maluco? Que fila? – exclamou o gorducho.
– O cão fila, aí. Meus parabéns, deve ser caçador, e dos bons!
– Se ele é um fila, você é um vira-lata! – exclamou o gorducho, levando o boi.

Andou mais um pouco até topar com o Ladrão Três.
– Ora, viva – disse este. – já vai cedo pra caça?
– Ah, meu Deus! Que caça? Não vê, então, que levo um boi? O Ladrão Três caiu na gargalhada.
– Ah, ah! Boa, esta! Mas que é cão, é! E cão dos bons!

O Ladrão Três começou a alisar as fuças chatas do boi.
– Este focinho pontudo aqui não engana! Deve farejar uma cutia a quilômetros de distância!
– Adeus! – disse o gorducho, levando o boi de arrasto. No seu íntimo, porém, crescia cada vez mais a dúvida.
– Será boi mesmo? – disse ele, parando, a certa altura, para conferir.

Ele havia comprado o bicho na feira, mas agora começava a desconfiar de algum logro muito bem engendrado.

Neste ponto o boi mugiu alto, para desfazer a dúvida, e o proprietário acalmou-se.
– Graças a Deus! É boi, mesmo! E que mugido!

Seguiu adiante, certo de que uma epidemia de loucura grassava por perto.

De repente, porém, surgiu-lhe pela frente o Ladrão Quatro.

– Ah, aí está! – disse ele, a sorrir. – Pelo latido bem vi que era um senhor perdigueiro!
– Que loucura! – exclamou o gordo. – Onde há cachorro algum por aqui? Não vê, então, que é um boi, estrupício?

O boi abanou a cauda, nervoso, e o Ladrão Quatro arreganhou ainda mais os dentes.

– Ah, ah! Abana o rabo que nem cachorro mateiro! E vem me dizer que é boi!

A esta altura o boi, apavorado, pressentindo que ia virar um assado antes do tempo, começou a deitar pela boca uma espuma branca.

– Oh, mas que pena! – disse o Ladrão Quatro. – Parece que o seu cão está hidrófobo!

Depois desta, o gorducho não quis saber de mais nada: atirou a corda pra cima e saiu correndo mata afora antes que o buldogue raivoso o estraçalhasse.

Assim que o gorducho sumiu, os quatro ladrões se reuniram e passaram a faca no boi.

Ao que consta, estão carneando o bicho até hoje.
A menina dos brincos de ouro
A menina dos brincos de ouroAinda hoje circula por aí este conto saboroso, que começa assim.

Havia uma menina que gostava de ir buscar água na fonte, sempre com seus brincos de ouro. Toda a delícia da sua vida era ver-se refletida na água com aqueles dois pingentes dourados, um em cada orelha.

Certo dia, ela resolveu tirá-los um pouco, para banhar-se na água, pois tinha muito medo de perdê-los na correnteza. Ao sair, porém, esqueceu-se de recolocá-los, e eles ficaram lá na margem.

Ao chegar em casa e ver que esquecera os brincos amados, ela voltou cor- rendo à fonte. Ao retornar lá, porém, deparou-se com um velho asqueroso.
– O que quer, fedelha? – rosnou o velho.
– O senhor não viu por aí uns brincos dourados?
– Não, mas estou vendo uma bela menina de cabelos dourados!

Apesar de velho, ele ainda tinha força o bastante para fazer ruindade e, com uma rapidez espantosa, tomou a menina e enfiou-a num saco.

– Agora, você vai ficar quietinha aí dentro do surrão até eu mandar você cantar! – disse o velho, levando-a nas costas, ao mesmo tempo em que lhe ensinava uma cantiga que ela deveria repetir sempre que o velho fosse fazer seus peditórios.

Ele dizia: “Canta, canta, meu surrão, senão te meto o porretão!”, enquanto ela tinha de responder: “Metida no surrão de couro, nele hei de sofrer, por causa de uns brincos de ouro, que na fonte achei de perder!”.

Os dois andaram pra cima e pra baixo o dia inteiro, e a cada novo pedido do velho uma bordoada no saco fazia a pobre menina repetir a sua ladainha:

– Metida no surrão de couro, nele hei de sofrer, por causa de uns brincos de ouro, que na fonte achei de perder!

Certo dia, as andanças do velho levaram-no à casa da mãe da menina dos brincos de ouro. Ao reconhecer a voz da filha, a mãe, aflitíssima, convidou o velho para passar a noite na casa.

– O senhor está muito cansado. Coma, beba e depois ponha-se a des- cansar!

O velho encantou-se com tanta caridade, especialmente com aquele negócio de beber. Depois de entornar quase uma pipa de vinho, ele se atirou numa esteira e começou a roncar feito um bugio.

Então a mãe, expedita, tratou de abrir logo o surrão e retirar a filha, quase morta, do seu interior.

– Filhinha amada! – disse a mãe, enternecida, ao ver a menina ainda com os brincos de ouro que ela lhe dera no seu aniversário.

Enquanto o velho dormia, a mãe encheu o surrão de excrementos dos porcos e galinhas da casa, e deixou-o partir no dia seguinte como se levasse ainda no surrão a pobre menina.

– Adeus, mas voltarei, pois aqui passei muito bem! – disse o velho. Depois de andar um quarto de hora, a fome voltou a roer as tripas do velho.

– Prepare-se, menina, pois é hora de cantar!

Ao chegar a outra casa, bateu palmas e uma senhora apareceu. Como sempre ele disse ao surrão:
– Canta, canta, meu surrão, senão te meto o porretão! Só que desta vez o surrão ficou mudo.
– Quer apanhar, fedelha? – disse ele, repetindo o refrão: – Canta, canta, meu surrão, senão te meto o porretão!

Nada outra vez.

Então, tomando o porrete, o velho aplicou uma paulada com tal força no surrão que ele explodiu, enchendo-o de titica de porco e de galinha, dos pés à cabeça.

O velho, depois disso, foi preso e enforcado, para aprender a nunca mais andar por aí raptando meninas com ou sem brincos de ouro.