O riquíssimo folclore do Brasil
O conceito de folclore se fundamenta no conjunto de crenças, lendas, festas, superstições, artes, costumes e tradições de um povo. 

De origem inglesa, o folclore é uma palavra originada pela junção das palavras folk, que significa povo; e lore, que significa sabedoria. 

O folclore do Brasil é riquíssimo, um dos mais ricos do mundo. Para sua formação, colaboraram principalmente, além do elemento nativo (o índio), o português e o africano. Estes três povos constituíram, podemos dizer, as raízes de nossa cultura.

Posteriormente, imigrantes de outros países, como Itália e Alemanha, deram sua contribuição ao nosso folclore, tornando-o mais complexo e mais rico.

A tendência dos costumes de povos diferentes é, quando estes se relacionam de modo íntimo, construir expressões híbridas, ou seja, suas culturas se misturam, resultando em novas expressões de manifestação popular.

Como os grupos humanos influenciam uns aos outros, podemos dizer que o folclore não é uma ciência estática, morta. Ao contrário, ele é dinâmico, pois além de pesquisar o passado, tem de estar atento às transformações do presente.
O riquíssimo folclore do Brasil
O Brasil, vasto qual um continente, apresenta regiões distintas, onde há diferença de intensidade das influências dos povos formadores. Por outro lado, cada região possui seu gênero de vida de acordo com o meio ambiente, o que influi, também, no folclore brasileiro.

A seguir, então, será narrada uma idéia geral dos vários desdobramentos do nosso folclore:
  • Linguagem Popular: gíria, apelidos ou alcunhas, legendas, linguagem especial ou cifrada, metáforas, frases feitas. Além da palavra há a mímica e os gestos. Assim, nós temos expressões utilizadas em todo o país (“tirar o pai da forca”, “está se virando”), compreendidos por todos, e expressões regionais, somente entendidas pelos habitantes da região (“gineteando” RS “Fute” dito na região NE).

  • Literatura Oral: poesia, história, fábulas, lendas, mitos, romances, parlendas, adivinhas, anedotas, provérbios, orações, pregões e literaturas de cordel, todos transmitidos oralmente;

  • Lúdicos: são os folguedos populares tradicionais, os jogos, os brinquedos e brincos. Exemplos: Bumba-meu-boi (NE), Caboclinhas (PB e RN), Cavalhadas (RS, AL, PR e SP), Ciranda (PE), Congada (SP, ES, BA, MG, GO, PR, RS), Cordões de Bicho (AM), Fandango, conhecido em todo o Brasil e, ainda Guerreiros, Mamulengo, Maracatu, Moçambique, Pastoril, Quilombo e Reisado.

  • Música: a música folclórica está presente em quase todas as manifestações populares. A serenata, coreto, cantigas de rixa, bendito, cantigas de cego, cantos de velório e cânticos para as almas são formas de músicas folclóricas.

  • Crendice: (Superstições) as de caráter ativo se manifestam em regiões, cultos dos santos, seitas, cultos de fetiches; e as de caráter passivo nos presságios, esconjuros, orações, tabus e totemismos. Contam com patuás, relíquias, amuletos, talismãs, bentinhos e santinhos.

  • Usos e Costumes: ritos de passagens, usanças agrícolas, pastoris, medicina rústica e trajes.

  • Artes Populares e Técnicas Tradicionais: culinárias, rendas e bordados, cerâmicas e trabalhos artesanais.

A comemoração do Dia do Folclore é a 22 de agosto, data em que a palavra folclore foi empregada pela primeira vez.
A Lenda do Guaraná
Conta a Lenda que em uma aldeia dos índios Maués havia um casal, com um único filho, muito bom, alegre e saudável.

Ele era muito querido por todos de sua aldeia, o que levava a crer que no futuro seria um grande chefe guerreiro. Isto fez com que Jurupari, o Deus do mal, sentisse muita inveja do menino. Por isso resolveu matá-lo. Então, Jurupari transformou-se em uma enorme serpente e, enquanto o indiozinho estava distraído, colhendo frutinhas na floresta, ela atacou e matou a pobre criança.

Seus pais, que de nada desconfiavam, esperaram em vão pela volta do indiozinho, até que o sol foi embora.

Veio a noite e a lua começou a brilhar no céu,  iluminando toda a floresta. Seus pais já estavam desesperados com a demora do menino. Então toda a tribo se reuniu e saíram para procurá-lo. Quando o encontraram morto na floresta, uma grande tristeza tomou conta da tribo.

Ninguém conseguia conter as lágrimas. Neste exato momento uma grande tempestade caiu sobre a floresta e um raio veio atingir bem perto do corpo do menino.

Todos ficaram muito assustados. A índia-mãe disse: "...É Tupã que se compadece de nós. Quer que enterremos os olhos de meu filho, para que nasça uma fruteira, que será nossa felicidade". E assim foi feito.

Os índios plantaram os olhos do indiozinho imediatamente, conforme o desejo de Tupã, o rei do trovão.

Alguns dias se passaram e no local nasceu uma plantinha que os índios ainda não conheciam. Era o Guaranazeiro.

É por isso que os frutos do guaraná são sementes negras rodeadas por uma película branca, muito semelhante a um olho humano.

A Lenda do Guaraná
E o fruto trouxe progresso da tribo. Ajudou os velhos e deu mais força aos guerreiros.

Curiosidades sobre o guaraná:

A palavra guaraná é de origem indígena, pois deriva da palavra tupi wara’ná. É o termo dado pelos índios tupis para esta planta.

Numa outra versão da lenda, quando o bom índio nasceu, pararam as guerras que existiam entre as tribos indígenas rivais da região. Veio então um período de paz e fartura.

Guaraná (Paulinia cupana) – do tupi wara’ná. Arbusto trepador que tem propriedades excitantes, pelo conteúdo de cafeína e teobromina.

As sementes maduras do guaraná, depois de torradas e moídas, formam uma massa plásticas macia e homogênea de cor cinzenta, que, depois da defumação para secagem, muda para vermelho-escura, às vezes quase roxa, escurecendo com o tempo, devido à oxidação. É na fase de massa moldável que se preparam os “pães”, de formas cilíndricas, elípticas ou ovais, que, depois de adquirirem consistência extremamente dura e inalterável, são oferecidos no comercio.

O “pão” de guaraná é constituído por massa duríssima e, para ser consumido, precisa ser desbastado com lima de aço ou, como o fazem as populações rurais da Amazônia, limado com o osso hióide (erradamente chamado de língua) do Pirarucu.

Como refrigerante, o nome guaraná é reservado à bebida não alcoólica, gasosa, que contenha no mínimo 1% de extrato de guaraná (produto resultante do esmagamento da semente de guaraná torrada), mais açúcar, acidulantes (como o ácido cítrico) e substâncias aromáticas. Muito difundido no Brasil, o guaraná é também exportado; tem ação refrigerante e tônica, sendo rico em cafeína.

No folclore, Guaraná de figuras, são enfeites fabricados com sementes de guaraná descartadas como inaproveitáveis para a alimentação, com as quais se faz a massa plástica e que se defuma para endurecer.

Verdadeiros artistas modelam objetos (bandejas, cálices, canetas), frutas (biribás, ananás, mungubas) e animais (antas, quatis, jacarés, macacos, tatus), que são comercializados como curiosidades ou lembranças de viagem pela Amazônia.

Os índios Maués preparam uma massa comestível com as sementes desse arbusto.
Parlendas do Folclore Brasileiro
Parlendas são versinhos infantis ritmados e repetitivos, normalmente são breves e com rimas. São versos bem simples, muito divertidos e fáceis de memorização. São criações anônimas que fazem parte do folclore brasileiro e que passam de geração para geração, transmitindo a cultura oral popular.

As parlendas contribuem para o desenvolvimento da memorização, da comunicação, da socialização e do raciocínio lógico. São usadas em acontecimentos cotidianos, em brincadeiras de roda, em jogos, em decisões, em histórias ou apenas por diversão.

De origem latina a palavra "parlenda" é do verbo Parlare que significa falar, conversar.

Parlendas do Folclore Brasileiro

Em Portugal, as parlendas são conhecidas como "cantilenas ou lengalengas".

Veja alguns exemplos de parlendas do folclore brasileiro

No morro chato

No morro chato
Tem uma moça chata
Com um tacho chato na cabeça.
Moça chata, esse tacho chato é seu?

Sol e Chuva,

Sol e Chuva,
Casamento de viúva.
Chuva e sol,
Casamento de espanhol.

Um sapo dentro do saco.

Um sapo dentro do saco.
O saco com o sapo dentro.
O sapo batendo o papo,
E o papo cheio de vento.

Pedrinha rolou

Pedrinha rolou
Pisquei
Pro mocinho
Mocinho gostou
Contei pra mamãe
Mamãe nem ligou
Contei pro papai
Chinelo cantou

Hoje é Domingo,

Hoje é Domingo,
Pede cachimbo
O cachimbo é de ouro,
Bate no touro,
O touro é valente,
Bate na gente,
A gente é fraco,
Cai no buraco,
O buraco é fundo,
Acabou-se o mundo.

Amanhã é que é Domingo,

Amanhã é que é Domingo,
Pé de cachimbo.
Galo monteiro
Pisou na areia.
Areia é fina,
Que dá no sino.
O sino é de ouro,
Que dá no besouro.
O besouro é de prata,
Que da na barata.
A barata é valente,
Que dá no tenente.
O tenente é mofino,
Que dá no menino.
O menino é danado,
Que dá no soldado.
O soldado é valente, que dá na gente…

Um, dois, feijão com arroz

Um, dois, feijão com arroz
Três, quatro, feijão no prato
Cinco, seis, falar inglês
Sete, oito, comer biscoito
Nove, dez, comer pastéis

Uni duni tê

Uni duni tê
Salamê min guê
Sorvete colorido
O escolhido foi
VOCÊ

Mindinho

Mindinho
Seu vizinho
Pai de todos
Fura bolo
Mata piolho

Lá em cima do piano tem um copo de veneno

Lá em cima do piano tem um copo de veneno
Quem bebeu morreu
O culpado não fui
EU

Eu sou pequena,

Eu sou pequena,
Da perna grossa,
Vestido curto,
Papai não gosta
Homem com homem
Mulher com mulher
Faca sem ponta
Galinha sem pé
(Escondendo dedo por dedo)
Uma, duas argolinhas
Finca o pé na pampolinha
O rapaz que joga faz
Faz o jogo do capão
Lá detrás do morondão
Recolhe o seu dedinho
Que lá vai um beliscão.

Um elefante amola muita gente…

Um elefante amola muita gente…
Dois elefantes… amolam, amolam muita gente…
Três elefantes… amolam, amolam, amolam muita gente…
Quatro elefantes amolam, amolam, amolam, amolam muito mais…
(continua…)

Jacaré foi ao mercado

Jacaré foi ao mercado
Não sabia o que comprar
Comprou uma cadeirinha pra comadre se sentar
A comadre se sentou
A cadeira esborrachou
Jacaré chorou, chorou
O dinheiro que gastou

Nuvem sol

Nuvem sol
Sol nuvem
Céu chuva
Chuva céu
Ai meu deus
Perdi o anel

Comi carne moída

Comi carne moída
E meu interior ficou moído
Meu filho moeu paçoca
E meu cabelo ficou uma maçaroca.

Onça pintada com pintas pretas

Onça pintada com pintas pretas
Me deu tanto medo que fiquei até pintada
Meu namorado ficou pintadinho de cores legais
E eu aqui pintada com pintas pretas
Que na verdade era uma doença que peguei da onça preta

Rola bola, bola rola

Rola bola, bola rola
Rola pedra, pedra rola
Fala logo e não enrola
Que você nasceu na Angola.

Tem peixe na pia fria,

Tem peixe na pia fria,
Pula gato, gato mia,
Lá vem a tia Maria,
E não vem de mão vazia
Pula gato, gato mia
Caiu o chinelo qu’ela trazia

Fui passear na pinguelinha,

Fui passear na pinguelinha,
Chinelo caiu do pé.
Os peixinhos reclamaram:
Que cheirinho de chulé!

Num ninho de mafagafos

Num ninho de mafagafos
Quatro mafagafinhos há
Quem os desmafagafizar
Bom desmafagafizador será

Por detrás daquele morro,

Por detrás daquele morro,
Passa boi, passa boiada,
Também passa moreninha,
De cabelo cacheado.
Quem cochicha,
O rabo espicha,
Come pão,
Com lagartixa.

Piuí, abacaxi

Piuí, abacaxi
Olha o chão pra não cair
Se cair
Vai machucar
E a mamãe não vai gostar
Fui à feira comprar uva.
Encontrei uma coruja,
Pisei no rabo dela.
Ela me chamou de cara suja.

Chuva e sol, casamento

Chuva e sol, casamento
De espanhol.
Sol e chuva, casamento
De viúva.

Cabra cega de onde veio?

Cabra cega de onde veio?
Vim do Pandó
Que trouxeste para mim?
Pão de Ló
Me dê um pedacinho?
Não dá pra mim
Quanto mais pra tua avó.
Luar, Luar
Pega esse menino
E ajuda a criar.

Quem foi a Cotia

Quem foi a Cotia
Perdeu a tia
Quem foi pra Pirapora
Perdeu a hora
Quem foi pra Portugal
Perdeu o lugar
Quem foi à roça
Perdeu a carroça
Rico trigo

Por que o sapo não lava o pé?

Por que o sapo não lava o pé?
Hum… Que cheiro de chulé !
Deve ser porque não quer.
Ele mora lá na lagoa.
Mas ele não lava o pé é mesmo porque não quer ?
Ele até que quer, mas canta muito e se encanta,
Acaba se esquecendo do seu chulé. Que chulé !
E Dona Sapa, mulher do sapo, não se incomoda ?
Já virou moda, chulé do sapo que ela quer.
Que chulé essa Dona Sapa, não larga do
Pé do sapo.
Que saco ! Que estresse, por isso mesmo é que o sapo
Se esquece do seu chulé, de lavar seu pé.

Eu fui por um caminho…

Eu fui por um caminho…
Eu também
Encontrei um passarinho…
Eu também
Encontrei um dedo mindinho…
Eu também
Seu-vizinho,
Eu também
Pai de todos,
Eu também
Fura-bolos,
Eu também
Cata-piolhos.
Eu também…

Batatinha quando nasce

Batatinha quando nasce
Espalha a rama pelo chão.
Menininha quando dorme…
Põe a mão no coração.

Um dia, o doce perguntou ao doce

Um dia, o doce perguntou ao doce
Qual era o doce mais doce.
E o doce respondeu ao doce
Que o doce mais doce
É o doce de batata-doce.

Entrou por uma porta,

Entrou por uma porta,
Saiu pela outra.
Quem quiser
Que conte outra.
A mulher que queria se tornar imortal
A mulher que queria se tornar imortal
Em certa cidade havia, há muitos e muitos anos, uma velha e rica senhora que, atacada de estranha loucura, queria se tornar imortal. Quanto mais envelhecia, mais se apossava dela o medo da morte.

Rezava todos os dias e todas as noites, pacientemente, e tanto pediu a Deus que lhe concedesse a graça de não morrer que acabou conseguindo mais ou menos o que queria.

Conseguiu-o para seu mal, como se viu mais tarde.

O caso foi que um dia sonhou que um anjo de asas cintilantes descia do céu. Ela se encolheu assustada, e, ao mesmo tempo, esperançosa. Seu quarto havia se enchido de uma radiante claridade, como se de repente se tivesse transformado numa opala gigantesca brilhando ao sol. E quando o anjo falou, todas as coisas que faziam algum rumor, dentro da noite, os grilos, as aves noturnas, os carros, as pessoas que passavam falando alto ou assobiando, tudo se calou, tomado de espanto, tudo ficou escutando a mensagem do céu.

E o anjo falou:

– O senhor Deus ouviu teus rogos. Ele manda te dizer que faças construir uma igreja. Durarás tanto quanto durar essa igreja.

Disse e desapareceu.

A velha senhora acordou sobressaltada, e nem pôde mais dormir o resto da noite, de tanta impaciência. Mal o sol espiou o quarto, pelas frestas da janela, a velha se levantou e saiu. Todos a viram muito ativa o dia todo, dando ordens, arranjando empregados, indo daqui para ali, à procura de arquitetos. À tarde, soube-se que ela havia mandado construir uma igreja de pedra.

– Para que uma igreja de pedra? – perguntavam, estranhando, pois as igrejas da cidade eram de tijolo e cal, e duravam bastante, apesar disso.

E ninguém sabia dar resposta.

O espanto da gente que habitava a cidade cresceu, quando se soube que aquela velhota maluca, em vez de ficar em casa, calmamente, recostada em gostosa cadeira de balanço, contando histórias ao netinhos, ia todos os dias fiscalizar a construção da igreja, incitando os pedreiros, aos gritos:

– Andem depressa com isso. Quero ver a igreja pronta, senão morro.

Os pedreiros abriam a boca, pasmados, sem entender patavina daquele mistério.

No dia em que a igreja ficou terminada, a velha senhora deu uma festa e viram-na brincar e rir, como se fosse uma menina. E desde então ela ria muito, seguidamente, e passava com um orgulhoso ar de posse, diante da igreja de pedra, magnífica e quase eterna: a sua vida de pedra.

Os anos foram se passando, morreram todos os velhos do lugar, e só ela permanecia firme. Quando lhe vinham contar a morte de alguém, ela casquinava um risinho assim: “Oh! Oh! Eh! Eh! Eh!”, como se dissesse para si mesma: “Comigo isso não acontecerá”.

Com o tempo, sua família foi se extinguindo. Morreram-lhe os filhos, os netos, os bisnetos e os netos de seus bisnetos. Ela foi ficando sozinha no enorme palácio vazio, velha, velha, enrugada, estranha, irreconhecível. Não tinha mais com quem falar, pois morreram todos os seus conhecidos. E os moços, cujo espanto não tinha limites diante daquela velhinha infinita, não queriam saber de prosa com ela e tinham até medo de vê-la.

A mulher já não contava os anos um por um. Contava por séculos. Fez trezentos, quatrocentos anos e depois passou a ter cinco, seis, sete séculos. Então começou a desejar e a pedir a morte, espantada com sua medonha solidão.

Porém a sentença de Deus estava dada: “Duraria quanto durasse a igreja de pedra”.

Logo se espalhou pela cidade que a velha senhora tinha arranjado outra mania. Sentava-se à porta do seu belo palácio, e perguntava aos que passavam:

– A igreja de pedra caiu?

– Não, minha senhora – respondiam eles, admirados. – Não cairá tão cedo.

E ela suspirava:

– Ah! Meu Deus!

Passavam-se os anos, e ela perguntava cada vez mais ansiosa:

– Quando cairá a igreja de pedra?

– Oh, minha senhora, quem pode saber quanto tempo durarão as pedras uma sobre as outras?

E todos tinham muita raiva e muito medo dela, pois fazia tais perguntas, além de cometer o desaforo de não morrer.

A velha senhora foi, por fim, à casa do padre, contou-lhe tudo e pediu que a deixasse ficar num caixão, dentro da igreja, esperando a morte.

Dizem que está ali até agora, e reza sem parar, todos os minutos de todos os dias, pedindo a Deus que a igreja caia.

Fonte: ifolclore.vilabol.uol.com.br
A lenda do furto do fogo
A lenda do furto do fogo
Segundo os índios tembés, nos tempos míticos o fogo tinha um único dono: o urubu-rei. Como o urubu era muito avaro da sua preciosidade, os índios não podiam fazer uso de chama alguma, e quando queriam comer carne só lhes restava o expediente de expô-la longamente ao sol.

Isso foi até o dia em que um índio mais destemido resolveu dar um fim àquilo.

– Vamos atrair o urubu-rei e a sua tropa inteira – disse ele, matando uma anta enorme.

Depois de sangrarem bem o bicho, eles deixaram o cadáver exposto ao sol, para atrair os urubus.
Não demorou muito e o urubu-rei, atraído pelo fedor da carniça, desceu sobre a anta.

– Viva, temos hoje banquete farto! Vamos lá, companheiros, há carniça para todos! – disse ele, dando um grasnido.

Logo o céu anoiteceu com a chegada de uma verdadeira nuvem de urubus. A bicharada caiu sobre a anta, mas alguém teve a ideia de acender um fogo e preparar a carne na grelha, ou no moquém, como se diz entre os índios.

– Carne moqueada também tem lá suas delícias! – disse o urubu-rei, retirando de debaixo da asa negra um tição muito bem escondido para acender a grelha.

Os urubus, naquele tempo, tinham o dom de se transformar em gente e, assim, antes de se lançarem à comilança, despiram as asas e ficaram com a aparência de homens (daí, talvez, o gosto que tinham em assar a carne, ao invés de comerem-na crua, como hoje normalmente fazem).

– Ufa! Que calorão! – disse o urubu-rei, despindo o manto de penas. Nus feito gente, os urubus atiraram-se finalmente à carne, e justo neste instante, irrompendo de dentro da mata, surgiram os índios, de olho aceso no fogo que ardia na grelha.

– Depressa! Apanhem um tição! – gritou o velho pajé, organizador do assalto.

Um grito de alerta do urubu que vigiava avisou, entretanto, os demais, e logo todos vestiram seus mantos negros de penas e levantaram voo estabanadamente. Antes de partir, o urubu-rei tomou a última fagulha que ar- dia na grelha e, depois de ocultá-la debaixo da asa, juntou-se às demais aves no céu.

O pajé correu alucinadamente até a grelha, remexeu no borralho e encontrou um último caquinho de carvão, com uma listrinha laranja correndo pra lá e pra cá.

– Aqui! Aqui! – gritou ele aos demais. – Vamos, assoprem, não deixem apagar!

Quinze bocas cercaram o carvãozinho e começaram a assoprá-lo agoniadamente, mas o fizeram com tanta força que a listrinha laranja acabou por se finar, e o carvão nunca mais se acendeu.

– Idiotas! – exclamou o pajé, irado.

Quando se acalmou um pouco, porém, viu que a anta ainda estava quase inteira.

– Eles voltarão logo – disse ele, animando-se outra vez. – Desta vez, vou ficar bem próximo da grelha, e vocês desapareçam e só surjam quando eu ordenar o ataque!

Os tembés fizeram como o pajé ordenara, enquanto ele tratava de cavar um buraco bem ao lado da carniça a fim de se enfiar ali dentro. O mau cheiro da anta decomposta era insuportável, mas quem disse que furtar fogo era coisa fácil e prazenteira?

Dali a pouco, os urubus voltaram, loucos de fome. Após despirem seus casacos pretos, que fediam mais do que a carniça, reacenderam o fogo e re- começaram a banquetear-se.

Enquanto comiam, o pajé aproveitou para irromper da sua toca, ágil como uma marmota, e meteu a mão dentro da grelha para apanhar um tição.

Assustados, os urubus apanharam suas vestes e levantaram voo outra vez. O urubu-rei ainda tentou resgatar o tição, ou pelo menos extingui-lo na mão do pajé, fazendo uma ventania danada com as asas, mas o velho índio cerrara os dedos com tanta força que nem um furacão teria como apagá-lo.

No fim de tudo, os urubus sumiram nos céus, e o pajé viu-se dono do tição, que ainda ardia em sua mão. Que Anhangá o carregasse se aquilo não ardia como cem mil espetadas!

Como um Prometeu enlouquecido, o pajé tratou de atear fogo em to- das as árvores de lenho incandescente que encontrava, a fim de preservar a chama, e teria colocado fogo na mata inteira se os demais índios não tivessem corrido para apagar aquelas labaredas todas.
A lenda de Konewó e as onças
A lenda de Konewó e as onças
E já que se falou  de onças, nada melhor do que referir algumas disputas de Konewó contra as onças, pois os taulipangs, especialmente as crianças, parecem adorá-las com seu ritmo ágil de desenho animado.

Konewó é um índio que parecia ter nascido para disputar com as bichanas. Certo dia, ele estava sentado, encostado a uma árvore, quando uma onça chegou e perguntou:

– Por que está aí sentado, a escorar esta árvore?
– Para que ela não caia – respondeu Konewó, secamente. – Todas as árvores estão por cair. Por que não faz o mesmo que eu com aquela outra árvore ali?

A onça viu uma árvore que parecia prestes a ruir e achou que seria uma boa distração ficar escorando-a, pois não tinha nada melhor para fazer.

Depois de encostar-se ao tronco, a onça fechou os olhos, sentindo-se vagamente virtuosa.
“De vez em quando é bom ser útil”, pensou, vaidosa da sua virtude.

Mas a virtude logo transformou-se em sono, e, quando a onça começou a roncar, Konewó ergueu-se e, ligeirinho, amarrou-a ao tronco com cordas trançadas de cipó.

Konewó desapareceu, a reprimir o riso, e a onça só acordou algumas horas depois, completamente imobilizada.

Os dias se passaram e ela já estava quase morta de fome quando um macaco surgiu.

– O que faz aí, toda amarrada à árvore?
– Fui amarrada, não está vendo? – rugiu a fera. – Vamos, solte-me já!
– Ah, isso eu não faço, não! Se soltá-la, você me come!
– Não comerei, dou-lhe minha palavra!

O macaco não foi muito atrás da onça, e ela precisou insistir várias vezes para que ele finalmente se decidisse a arriscar o pelo. Com toda a cautela, ele desamarrou a onça, e só por isso escapou vivo. Atento, assim que viu a pata peluda eriçar as unhas na sua direção, deu um pulo para longe.

O macaco desapareceu dentro da mata, enquanto a onça ficou maquin- ando a sua vingança contra o índio que a aprisionara. Depois de andar muito, farejando o rastro de Konewó, ela finalmente encontrou o seu de- safeto, desta vez escorado numa rocha.

– Ah! Aí está você! – disse ela, pulando à frente do índio. – Desta vez você me paga!
Konewó olhou serenamente para a onça.
– O que quer? – disse ele, friamente.
– Vingança!

Ao observar, porém, a calma do índio, a onça não pôde deixar de perguntar-lhe:

– Ei! O que faz escorado aí nesse pedregulho?
– Estou impedindo que ele caia. Todos os rochedos estão por cair. Konewó, então, olhou para o lado e apontou outro rochedo dez vezes maior.
– Se você fosse uma onça realmente útil, faria como eu, impedindo que aquele rochedo caia.
Uma espécie de nuvem estúpida desceu sobre a mente da onça, obrigando-a a ir tomar o seu lugar, mas assim que ela o fez, o índio ergueu- se.
– Espere aí, sabichão, onde pensa que vai? – gritou ela.
– Tive uma excelente ideia para poupar-me trabalho. Vou procurar um tronco para fazer uma escora e assim livrar-me de ficar o resto da vida escor- ando a minha pedra.

A onça sentiu o pedregulho chacoalhar às suas costas e deu um grito:

–Traga uma escora para mim também!

Konewó sumiu e nunca mais apareceu com escora alguma. Quanto à onça, das duas uma: ou está lá até hoje, escorando o pedregulho, ou termin- ou sepultada viva pelo desabamento.

Konewó também gostava de passar a conversa nos homens brancos, pois era crença de muitos índios que as onças haviam sido gente antes de virarem o que são hoje.

Certo dia Konewó achou um gambá e introduziu debaixo do seu rabo um punhado de moedas de prata. Depois, andando por ali, cruzou com um homem branco carregando uma rede novinha em folha.

– Bela rede! – disse Konewó. – Quer trocá-la por um gambá que bota moedas de prata?
– Está me achando com cara de bobo, é?

Então, Konewó apertou a barriga do gambá, e as moedas saltaram por debaixo do rabo.
O homem branco ficou pasmo.

– E esse fedorento faz isso muitas vezes por dia? – perguntou ele.
– Quantas vezes lhe apertarem o ventre – respondeu o índio, apertando outra vez o bucho do gambá.

As moedas saltaram outra vez, e o homem branco fez o negócio na hora.
Assim que o índio afastou-se, o homem branco ergueu o rabo do gambá e quase enfiou o olho lá dentro.

– Vamos ver isto! – disse ele, apertando com toda a força a barriga do coitado.

Só que, desta vez, a única coisa que espirrou foi um jato fedorento de fezes.

Mais adiante, Konewó aplicou um golpe parecido em outro civilizado. Depois de pendurar algumas moedas em alguns galhos de uma árvore, chamou o primeiro que enxergou.

– Veja, homem branco, esta árvore dá dinheiro! – disse ele.

O homem embasbacou-se. Ele estava cheio de mercadorias que at- raíram a cobiça do índio.

– Se você me der todas as suas mercadorias, entrego a você esta árvore mágica.

O homem branco olhou para o seu farnel e depois para a árvore, ainda em dúvida.
– Quantas vezes por ano ela dá moedas assim? Estou vendo poucas ali.
– É que estou no fim da colheita – disse o índio. – Mas não se pre- ocupe, pois esta árvore dá moedas o ano todo. Esta já é a décima colheita!

Fechado o negócio, o índio tratou de pegar o dinheiro e dar o fora, en- quanto o homem branco olhava para a meia dúzia de moedas penduradas nos galhos altos. Impaciente, ele começou a chacoalhar o tronco, e duas moedinhas caíram junto com uma porção de folhas.

Ainda mais impaciente, ele continuou a chacoalhar até que um galho despencou e quase rachou a sua cabeça, e isto foi tudo que ele viu cair, de- pois do primeiro chacoalhão, da árvore amaldiçoada.

Mas os golpes prediletos de Konewó eram aplicados mesmo às onças. Certo dia, ele estava sentado à beira de um rio de águas profundas quando uma onça surgiu por detrás.

– Que faz aí, bobão? – disse a onça, mais curiosa do que esfomeada.
– Estou pensando em mergulhar no rio para apanhar aquele bolo de tapioca que está lá no fundo.
Konewó apontou para o reflexo da lua sobre a água.

– Então vá – disse a onça, desconfiada. – Quero ver se consegue apanhá-lo!
Konewó tinha escondido debaixo da tanga um pedaço de bolo e mergulhou para logo em seguida retornar.
– Ah, aqui está! – disse ele, dando uma dentada no bolo.

A onça lambeu os beiços, mas o índio enfiou ligeiro o resto na boca.

– Por que não trouxe o bolo inteiro? – disse a onça, frustrada.
– Acontece que sou muito leve – respondeu o índio. – Por que você, que é mais pesada, não desce e traz o restante do bolo?

A onça estava tão ávida por provar aquela delícia que aceitou na hora o desafio.

– Amarre esta pedra ao pescoço – disse o índio. – Ela a ajudará a descer mais rápido, pois há muita correnteza nestas águas.

A onça aceitou, e depois de ter o pedregulho bem amarrado ao pescoço, mergulhou. Quando chegou ao fundo do rio, porém, constatou que não havia bolo algum por ali. Olhou para cima e viu que o bolo – ou a lua – agora estava boiando na superfície.
E essa foi a última coisa que a desgraçada viu antes de morrer afogada.

Mais uma com onça…

Konewó ia andando na mata quando viu uma trilha de antas. No mesmo instante, uma onça surgiu.
– O que espia aí? – perguntou a bichana.
– Não está vendo? – respondeu o índio. – É o rastro de uma anta gorda.
A onça lambeu-se três vezes antes de voltar a falar.
– Acha que está longe?
– Que nada! Veja, o rastro ainda está fresco!
– Então deixe comigo! – disse a onça, preparando-se para uma boa corrida.
– Não, espere, tenho um plano melhor – disse Konewó. – Está vendo aquele morro elevado e coberto de vegetação? Foi por lá que ela se escondeu. Eu vou atrás dela, e você fica aqui embaixo. Vou assustá-la e encaminhá-la bem na direção da sua boca.

A onça adorou a ideia e foi colocar-se na base do morro, enquanto o índio o escalava. Ao chegar ao topo, Konewó encontrou um pedregulho enorme e rolou-o até o começo da descida.
– Aí vai a anta! – gritou o índio.

Ao escutar o ruído de algo pesado descendo, a onça firmou-se nas pernas.

– Que anta enorme deve ser! – disse ela, lambendo os bigodes.

De repente, porém, surgiu do matagal inclinado o pedregulho enorme, a rolar furiosamente, e passou por cima da onça, deixando-a esmigalhada e fininha como um tapete.

E esse foi o fim de mais uma onça.

Uma última…

Konewó estava sentado em um galho elevado de uma enorme árvore. Ele havia encontrado uma colmeia e estava se deliciando com o mel quando uma onça chegou e perguntou:
– Que faz aí?
– Estou saboreando esta delícia – disse Konewó, lambendo os dedos dourados de mel.
– Também quero! – disse a onça, apaixonada por mel.
– Então, façamos o seguinte: eu desço e corto a árvore. Quando ela cair, você apara a colmeia nos braços e fica o resto do dia se deliciando.

A onça topou e ficou aguardando enquanto o índio metia o machado na árvore.

Quando a árvore finalmente começou a inclinar-se, a onça fez menção de sair correndo.

– Idiota, fique no lugar! – berrou Konewó. – Apare a colmeia, senão ela vai se estraçalhar.

A onça se encheu de coragem e esticou os braços na direção da col- meia. Só que atrás dela vinha a árvore inteira, e foi assim que a pobre felina viu-se esmagada e coberta de picadas de abelhas.
Konewó, segundo a lenda, teve um fim grotesco, mas que o amor ao saber obriga a contar.

Certo dia, ele estava se aliviando, no alto de uma árvore, quando um besouro vira-bosta aproximou-se, lá embaixo. Konewó olhou para o serzinho e disse, apiedado:

– Gostou? Aqui dentro tem muito mais! – disse ele, apontando para o traseiro.

O vira-bosta subiu, entrou-lhe traseiro adentro e comeu o resto da porcaria, e junto com ela as tripas e tudo mais, dando um fim miserável ao maior tapeador de onças já surgido nas matas brasileiras.