O Dia do Saci-Pererê
Você sabia que o Dia do Saci-Pererê foi criado pelo governo do Brasil em 2005 com o objetivo de resgatar figuras do folclore brasileiro, em contraposição ao "Dia das Bruxas", ou “Halloween”, da cultura americana.

Apesar do Dia do Saci ainda não ser muito comemorado pelos brasileiros, em cidades como a Presidente Prudente, em São Paulo, o dia já virou tradição e os moradores e turistas se divertem.

Na cidade histórica de São Luiz do Paraitinga , no interior de São Paulo, o  Dia do Saci-Pererê toma as ruas da cidade e outros personagens nacionais como a Mula-sem-cabeça, o Boitatá e Cuca também aparecem através das manifestações artísticas populares.

Mas, você sabe quem é o Saci-Pererê?
O Dia do Saci-Pererê
O Saci-Pererê é uma lenda do folclore brasileiro que originou-se entre as tribos indígenas do sul do Brasil. Ele possui apenas uma perna, usa um gorro vermelho e sempre está com um cachimbo na boca.

Inicialmente, o Saci-Pererê era retratado como um curumim endiabrado, com duas pernas, cor morena, além de possuir um rabo típico. Com a influência da mitologia africana, o saci se transformou em um negrinho que perdeu a perna lutando capoeira, além disso, herdou o pito, uma espécie de cachimbo e ganhou da mitologia europeia, um gorrinho vermelho. A principal característica do Saci-Pererê é a travessura.

Muito brincalhão, ele se diverte com os animais e com as pessoas, muito moleque ele acaba causando transtornos como: fazer o feijão queimar, esconder objetos, jogar os dedais das costureiras em buracos e outras.

Segundo a lenda, o Saci-Pererê está nos redemoinhos de vento e pode ser capturado jogando uma peneira sobre eles. Após a captura, deve-se retirar o capuz da criatura para garantir sua obediência e prendê-lo em uma garrafa.

Diz também a lenda, que os Sacis nascem em brotos de bambus, onde vivem sete anos e após esse tempo, vivem mais setenta e sete para atentar a vida dos humanos e animais, depois morrem e viram um cogumelo venenoso ou uma orelha de pau.

Em algumas versões da lenda, o Saci-Pererê aparece com as mãos furadas.

De acordo com a lenda, a noite todos os sacis do mundo se encontram para planejarem as travessuras que irão fazer.

O Saci-Pererê é o mascote do time de futebol Sport Club Internacional de Porto Alegre.
A Lenda da Gralha Azul

Introdução

A lenda da Gralha Azul é típica da região sul do Brasil, principalmente do estado do Paraná. A gralha azul é a ave replantadora da árvore símbolo do estado do Paraná: a araucária (tipo de pinheiro).

De acordo com a lenda, a ave tem a missão divina de ajudar na disseminação desta árvore. Durante o outono, os bandos de gralhas azuis pegam os pinhões (frutos das araucárias) e os estocam no solo ou em pedaços de árvores apodrecidos no chão. Neste processo, favorecem o nascimento de novas árvores.

A lenda da gralha azul

A Lenda da Gralha Azul
De acordo com a lenda, há muito tempo, a gralha azul era apenas uma gralha parda, semelhante as outras de sua espécie. Mas um dia a gralha azul resolveu pedir para Deus lhe dar uma missão que lhe faria muito útil e importante. Deus lhe deu um pinhão, que a gralha pegou com seu bico com toda força e cuidado. Abriu o fruto e comeu a parte mais fina. A outra parte mais grodinha resolveu guardar para depois, enterrando a no solo. Porém, alguns dias depois ela havia esquecido o local onde havia enterrado o restante do pinhão.

A gralha procurou muito, mas não encontrou aquela outra parte do fruto. Porém, ela percebeu que havia nascido na área onde havia enterrado uma pequena araucária. Então, toda feliz, a gralha azul cuidou daquela árvore com todo amor e carinho. 

Quando o pinheiro cresceu e começou a dar frutos, ela começou a comer uma parte dos pinhões e enterrar a parte mais gordinha (semente), dando origem a novas araucárias. Em pouco tempo, conseguiu cobrir grande parte do Estado do Paraná com milhares de pinheiros, dando origem a floresta de Araucária. 

Quando Deus viu o trabalho da gralha azul, resolveu dar um prêmio a ela: pintou suas penas da cor do céu, para que as pessoas pudessem reconhecer aquele pássaro, seu esforço e dedicação. Assim, a gralha que era parda, tornou-se azul.

Fidêncio Silva e a gralha azul

Pois foi à fazenda dos Pinheirinhos que veio ter um dia o Fidêncio Silva, homem de grandes negócios, com casa matriz em Curitiba e filial em Ponta Grossa. Havia muito já que não experimentava descanso daquela agitação comercial em que vivia, e a necessidade de um repouso prolongado tornara-se-lhe cada vez mais patente.

Ora, Fidêncio Silva era parente afastado da esposa de José Fernandes. Assim, logo que pensou em descanso, lembrou-se dos Pinheirinhos, longe daquele bulício de transações e onde o clima não podia ser mais saudável.

E não tardou que estivesse a respirar, com evidente contentamento, o ar puro e varrido da campanha guarapuavana.

José Fernandes recebeu-o fidalgamente, como costumava fazer para todos que traziam uma certa importância de responsabilidades. Pôs os Pinheirinhos à disposição do seu hóspede pelo tempo que desejasse: um, dois, três meses e mais se lhe aprouvesse.

Ali teria plena liberdade; quando não quisesse sair nas ocasiões de rodeio, poderia ficar em casa, a uma sombra do pomar, folheando qualquer livro da sua biblioteca quase totalmente agrária, mas que possuía, também, alguma literatura. E passeios igualmente não faltariam: um dia voltearia um rincão; outro iria às terras de planta, levando espingarda para espantar algum porco-do-mato; hoje faria uma caçada de anta mais para o sertão ou sairia a passarinhar pelos capões; amanhã correria a vizinhança, ouvindo prosa de caboclo; e até pescaria, se quisesse, poderia fazer no Picuiry, três léguas ser-tão adentro.

Dessa maneira não havia como não corressem agradabilíssimos os trinta dias que Fidêncio Silva pretendia passar nos Pinheirinhos.

E assim foi.

Um domingo depois do almoço, saiu à caça com o fazendeiro.

Bem municiados, espingardas suspensas pelas bandoleiras ao ombro, entranharam-se os dois por extenso e tapado capão, "querência certa de muito veado, cutia e quati" - afirmava o José Fernandes.

Mas a sua asserção foi logo posta em cheque pela evidência dos fatos: os caçadores não viam um só animalzinho que merecesse chumbo grosso, embora já tivessem andado muito. Passaram então a sondar a ramagem, na esperança de divisar algum pássaro de saborosa carnadura.

Em certo momento Fidêncio Silva parou e fez um sinal de silêncio ao companheiro. Depois, engatilhou, apressado, a arma, e firmou pontaria, visando a fronde de retorcida guabirobeira.

O fazendeiro procurou a caça, erguendo o olhar para a direção indicada pelo cano da espingarda. Súbito, um tremor sacudiu-lhe o corpo e, de um pincho, esteve ele ao lado de Fidêncio Silva. Mas já era tarde: o rebôo do tiro perdia-se molemente pelas quebradas da mata, soturno, a evocar tristeza naquela quietude frouxa de um mormaço estonteante.

A expressão condoída da fisionomia do José Fernandes durou pouco e de todo desapareceu ao ruflar das asas ligeiras esgueirando- se assustadiças por entre as tramadas franças. O atirador errara o alvo e, boquiaberto, todo interrogação, estacava os olhos no fazendeiro, que, ainda com a mão no cano da arma, que pretendera desviar antes do tiro partir, desafogava um longo suspiro de satisfação.

- Meus parabéns!, foram as primeiras palavras de José Fernandes, entre irônicas e zombeteiras.

- Parabéns!?, exclamou, ainda mais intrigado, o Fidêncio Silva.

- Então nào merece cumprimentos o caçador que erra tiro em gralha azul? Renovo-os: toque nestes ossos!

E estendeu-lhe a destra.

- Quero compreender as suas palavras, mas creia, não posso atinar com o porquê do seu arrebatamento de há pouco. Não matar com carga de chumbo um pássaro do tamanho dessa gralha, concordo que seja de péssimo atirador; porém...

- Não. Não o censurei por errar. Muito pelo contrário: apresentei-lhe os meus sinceros parabéns.

Confundido, meio envergonhado, o Fidêncio Silva confessou:

- O amigo tem, então, duas coisas para explicar-me.

- Uma só, uma só.

- Emendou logo o fazendeiro.

- Há coerência entre as minhas palavras e a anterior atitude. Eu lhe conto tudo. Sente-se aí nesse tronco caído e escute-me.

O negociante obedeceu maquinalmente. Depois tirou de um lenço e pôs-se a enxugar o suor que lhe escorria pelo rosto, enquanto, largando o corpo preguiçosamente sobre a trançada grama, José Fernandes foi falando assim:

- Era no inverno, quinze anos atrás. Havia muita seca e o gado caía de magro. Certa tarde montei a cavalo e saí a costear banhados e a percorrer sangas, na esperança de salvar alguma criação que porventura se atolasse ao saciar a sede.

Levava comigo uma velha espingarda de ouvido, que sempre me acompanhava, porque naquele tempo não poupava graxaim que encontrasse pelo campo, a negociar leitões e carneirinhos. Pois bem, regressava para casa, vagaroso, o pensamento nos grandes prejuízos que a seca estava ocasionando, quando vi um bando de gralhas azuis descer à beira de um capão, entre numeroso grupo de pinheirinhos.

Para afugentar, ainda por pouco, a minha tristeza, acrescida pelo fato de ter naquela volteada encontrado mais duas reses estraçalhadas pelos corvos, resolvi dar caça àqueles animaizinhos. Aproximei-me cauteloso, apeando a respeitosa distância. Não muito longe, detive-me à sombra de um pinheirinho e contemplei, por instantes, o bando.

- Eram poucas as gralhas, e notei que revolviam o solo com o bico. Fazer pontaria e puxar gatilho foi obra de um momento. Mas, ai! que horrível o segundo que se lhe seguiu: a espoleta estraçalhou-se e vários estilhaços, de mistura com os resíduos da pólvora, vieram dar em cheio em meu rosto. Tonteei, bambearam-se-me as pernas e caí sobre a macega.

- Quanto tempo estive desacordado, não lhe sei dizer. Antes, porém, de recuperar os sentidos, quando o Sol já se encobria por trás da mata, um pesadelo fabuloso, qual uma história de fadas, gravou-se-me na memória. Revi-me de arma em punho, pronto para fazer fogo.

Quando o fiz, iluminou-se o alvo e, abertas as asas brilhantes, o peito a sangrar, veio ele de manso, se achegando a mim. Os pés franzinos evitavam os sapés esparsos pelo chão e o andar esbelto tinha qualquer coisa de divino. Dardejante o seu olhar, estremeci ante aquela figurinha de ave e deixei cair a arma. Estático já, estarreci ao ouvir os sonoros e compreensíveis sons que aquele delicado bico soltava naturalmente. Dizia a gralha:

"És um assassino! Tuas leis não te proíbem matar um homem? E quem faz mais do que um homem não vale pelo menos tanto quanto ele? Eu, como humilde avezinha, entoando a minha tagarelice selvagem como o marinheiro entoa o seu canto de animação na véspera de praticar seus feitos, faço elevar-se toda essa floresta de pinheiros; bordo a beira das matas com o verdor dessas viçosas árvores; multiplico, à medida de minhas forças, a madeira que te serve de teto, que te dá o verde das invernadas, que te engorda o porco, que te aquece o corpo, que te locomove dando o nó de pinho para substituir o carvão-de-pedra nas vias férreas. E ignoras como eu opero!... Vem. Acompanha-me ao local onde me interrompeste o trabalho, para aprenderes o meu doce mister. Vês? Ali está a cova que eu fazia e, além, o pinhão já sem cabeça, que eu devia nela depositar com a extremidade mais fina para cima. Tiro-lhe a cabeça porque ela apodrece ao contato da terra e assim apodrece o fruto todo, e planto-o de bico para cima a fim de favorecer o broto. Vai. Não sejas mais assassino. Esforça-te, antes, por compartilhar comigo nesta suave labuta".

A gralha desapareceu e eu voltei à razão. Levantei-me a custo e fui ao local escavado pelas aves, uma das quais jazia com o peito manchado de sangue, ao lado de um pinhão já sem cabeça. Admirado, verifiquei a certeza da visão: mais adiante cavouquei com as mãos a terra revolvida de fresco e descobri um pinhão com a ponta para cima e sem cabeça.

O José Fernandes fez uma pausa e depois concluiu, mal encobrindo a sua alegria:

- Aí está, caro Fidêncio, como vim a ser um plantador de pinheiros. Quero valer mais que um homem: quero valer uma gralha azul.
A lenda do Frade e a Freira
Quando a região se povoava no trabalho da terra, vieram também os semeadores da Fé, pregando e sofrendo ao lado dos homens pecadores.

Um frade ali missionou, ensinando orações e espalhando exemplos de esperança.

Era moço, forte, soldado da milícia que vencia o mundo, batalhando por Jesus Cristo.

Na aldeia, não mais acampamento indígena e ainda não Vila del Rei, freiras divulgavam a ciência do esforço e do sacrifício, silenciosa e contínua como o correr de um rio na solidão.

Aqueles que se deram a Deus, só a Ele pertencerão eternamente. O amor divino é absoluto e completo. Nada restará para a esmola a outros amores.

Frade e Freira, servo e esposa de Cristo, amaram-se, tendo os sinais visíveis do juramento a um outro amor, inviolável e severo.
A lenda do Frade e a Freira
Foram amando e padecendo, abafando no coração a chama alta do desejo fremente, invasora, sonora de paixão.

As razões iam desaparecendo na marcha alucinante de um amor tão vivo e maravilhoso como a terra virgem que o acolhia.

De furto, orando, chorando, penando, encontravam-se para um olhar mais demorado e uma recordação mais cruel e deliciosa.

Nas margens do Itapemirim andavam as duas sombras negras, juntas, numa procissão de martírio, resistindo às tentações da floresta, do silêncio e da vontade envolvedora.

Se foram ou não um do outro, num milagre humano de esquecimento, não recorda a memória popular.

Apenas, uma vez, não voltaram às suas casas. Faltou um frade nas matinas e houve um lugar vago entre as freiras.

Às margens do Itapemirim, claro e rápido, sobre fundamentos de granito, ergueu-se o casal, num diálogo que atravessa os séculos, ouvido pelas tempestades e compreendido pelos passarinhos.

É o grupo do Frade e a Freira...

Transformou-os Deus em duas estátuas de pedra-, reconhecíveis, identificáveis, perfeitas.

Não os separou nem os uniu num abraço perpétuo à face dos homens.

Deixou-os próximos e distanciados, nas atitudes de meditação e de reza, de sonho e de resignação, frente a frente, imagem da imóvel fidelidade, da obstinação amorosa, esperando o infinito.

E assim, eternamente, ficarão...
A Lenda da Fonte dos Amores
Onde se estende o Passeio Público, do Rio de Janeiro, refletiam-se ao sol as águas estagnadas da lagoa do Boqueirão, terrenos do Campo da Ajuda, com orla de lama e orquestra de sapos.

Para o alto, na direção do morro de Santa Teresa, erguia-se uma casinha romântica, ao lado de uma palmeira ornamental. Morava aí a linda Suzana, a moça mais bonita e mais pobre dos arredores, com sua velha avó.

Suzana era noiva de Vicente Peres, auxiliar de botânica de Frei Conceição Veloso, apaixonado e ciumento.

Dom Luís de Vasconcelos e Souza, décimo segundo Vice-Rei do Brasil, governava.

Vez por outra, passeando, o futuro Conde de Figueiró encontrava Suzana, parando para admirá-la. E acabou desejando por sua a menina carioca, descuidada e simples, moradora na solidão da lagoa sinistra.

Cheio de planos de reforma, Dom Luís fazia-se acompanhar pelo seu executor fiel nas constrições e sonhos, Valentim da Fonseca e Silva, Mestre Valentim, mestiço, fusco e genial, cujos modelados orgulham a torêutica brasileira.
Lenda a Fonte dos Amores
O Vice-Rei e Mestre Valentim, ocultos numa touceira de bambus, espreitavam Suzana, surpreendendo-a em idílio com o enamorado Vicente Peres.

O noivo soubera dos encontros com Dom Luís, e lamentava a traição ingrata da futura esposa. A menina defendia-se, defendendo o Vice-Rei, tão longe e tão próximo.

- Não deve acusar nem desconfiar de mim. Dom Luís é um coração de ouro, pai dos pobres, justiceiro e valente. Nunca oprimiu nem perseguiu ninguém. Deus o protege porque ele é forte e generoso. Em vez de você pensar que ele está contra a nossa felicidade, deve, bem antes, procurá-lo e pedir-lhe a proteção. Estou convencida de que tudo ficará melhor para nós. Tenha confiança nele como eu tenho...

Dom Luís, bem contra a sua vontade, enterneceu-se. Jurou, mentalmente, que faria melhor serviço a Deus, protegendo um casalzinho jovem, que conquistando uma mocinha pobre. Sem fazer rumor, sempre com Mestre Valentim, recuou, ganhou o piso sinuoso da estrada, montou a cavalo e voltou para o Paço, sonhando as compensações que Vicente Peres merecia.

No outro dia mandou-o chamar. Nomeou-o secretário de Frei Veloso, que estava classificando o material brasileiro da "Flora Fluminense", e mais um cargo na Alfândega, quando terminasse a tarefa.

E, meses depois, acompanhou Suzana e Vicente ao altar, na manhã do casamento, como padrinho e protetor.

A lagoa do Boqueirão foi vencida pelos trabalhos que Mestre Valentim chefiava, sob a palavra animadora do Vice-Rei. Sobre o terreno consolidado plantou-se um horto, e dezenas de árvores cobriram de sombras agasalhadoras o que dantes era lodo e cisco. Nascera, por mais de cem anos, o mais popular e querido dos logradouros do Rio de Janeiro.

Mestre Valentim, sob comando, concebeu e realizou uma fonte-monumento, a Fonte dos Amores, nome de mistério que a lembrança de Suzana presidia e explicava.

Acostada ao muro do lado do mar, via-se uma cascata. No cimo, alta e esguia, subia uma palmeira de bronze, representando aquela que cobrira a choupana desaparecida. Entre as pedras, irregulares e artísticas, pisavam três garças de bronze, leves, airosas, ignorantes do perigo oculto, materializado em dois grandes jacarés, de caudas entrelaçadas, goelas abertas, de onde caía, em continuidade sonora, as águas límpidas.

As garças eram Suzana, Vicente e a avozinha. Os dois jacarés personalizavam o próprio Vice-Rei e seu companheiro, o modelador do fontenário, inaugurado em 1783.

O tempo derrubou a palmeira de bronze, lembrança da tranquilidade primitiva e bucólica. As três garças, memórias das vidas doces e confiadas, desapareceram.

Quem for visitar o Passeio Público, e olhar a Fonte dos Amores, verá que somente os dois jacarés, símbolo da cobiça astuciosa, resistiram e estão vivendo, mandíbulas abertas, através dos séculos...
A Lenda do Guaraná
Conta a Lenda que em uma aldeia dos índios Maués havia um casal, com um único filho, muito bom, alegre e saudável.

Ele era muito querido por todos de sua aldeia, o que levava a crer que no futuro seria um grande chefe guerreiro. Isto fez com que Jurupari, o Deus do mal, sentisse muita inveja do menino. Por isso resolveu matá-lo. Então, Jurupari transformou-se em uma enorme serpente e, enquanto o indiozinho estava distraído, colhendo frutinhas na floresta, ela atacou e matou a pobre criança.

Seus pais, que de nada desconfiavam, esperaram em vão pela volta do indiozinho, até que o sol foi embora.

Veio a noite e a lua começou a brilhar no céu,  iluminando toda a floresta. Seus pais já estavam desesperados com a demora do menino. Então toda a tribo se reuniu e saíram para procurá-lo. Quando o encontraram morto na floresta, uma grande tristeza tomou conta da tribo.

Ninguém conseguia conter as lágrimas. Neste exato momento uma grande tempestade caiu sobre a floresta e um raio veio atingir bem perto do corpo do menino.

Todos ficaram muito assustados. A índia-mãe disse: "...É Tupã que se compadece de nós. Quer que enterremos os olhos de meu filho, para que nasça uma fruteira, que será nossa felicidade". E assim foi feito.

Os índios plantaram os olhos do indiozinho imediatamente, conforme o desejo de Tupã, o rei do trovão.

Alguns dias se passaram e no local nasceu uma plantinha que os índios ainda não conheciam. Era o Guaranazeiro.

É por isso que os frutos do guaraná são sementes negras rodeadas por uma película branca, muito semelhante a um olho humano.

A Lenda do Guaraná
E o fruto trouxe progresso da tribo. Ajudou os velhos e deu mais força aos guerreiros.

Curiosidades sobre o guaraná:

A palavra guaraná é de origem indígena, pois deriva da palavra tupi wara’ná. É o termo dado pelos índios tupis para esta planta.

Numa outra versão da lenda, quando o bom índio nasceu, pararam as guerras que existiam entre as tribos indígenas rivais da região. Veio então um período de paz e fartura.

Guaraná (Paulinia cupana) – do tupi wara’ná. Arbusto trepador que tem propriedades excitantes, pelo conteúdo de cafeína e teobromina.

As sementes maduras do guaraná, depois de torradas e moídas, formam uma massa plásticas macia e homogênea de cor cinzenta, que, depois da defumação para secagem, muda para vermelho-escura, às vezes quase roxa, escurecendo com o tempo, devido à oxidação. É na fase de massa moldável que se preparam os “pães”, de formas cilíndricas, elípticas ou ovais, que, depois de adquirirem consistência extremamente dura e inalterável, são oferecidos no comercio.

O “pão” de guaraná é constituído por massa duríssima e, para ser consumido, precisa ser desbastado com lima de aço ou, como o fazem as populações rurais da Amazônia, limado com o osso hióide (erradamente chamado de língua) do Pirarucu.

Como refrigerante, o nome guaraná é reservado à bebida não alcoólica, gasosa, que contenha no mínimo 1% de extrato de guaraná (produto resultante do esmagamento da semente de guaraná torrada), mais açúcar, acidulantes (como o ácido cítrico) e substâncias aromáticas. Muito difundido no Brasil, o guaraná é também exportado; tem ação refrigerante e tônica, sendo rico em cafeína.

No folclore, Guaraná de figuras, são enfeites fabricados com sementes de guaraná descartadas como inaproveitáveis para a alimentação, com as quais se faz a massa plástica e que se defuma para endurecer.

Verdadeiros artistas modelam objetos (bandejas, cálices, canetas), frutas (biribás, ananás, mungubas) e animais (antas, quatis, jacarés, macacos, tatus), que são comercializados como curiosidades ou lembranças de viagem pela Amazônia.

Os índios Maués preparam uma massa comestível com as sementes desse arbusto.
Diferenças Entre Mitos e lendas
Não raro, os termos mito e lenda são empregados erroneamente como sinônimos. Embora os dois tenham uma relação e possuam elementos comuns, fazendo parte da tradição oral dos povos, são manifestações diferentes.

Tanto o mito como a lenda são narrações que contam ou explicam determinados episódios históricos ou religiosos de uma determinada comunidade, porém, existem diferenças entre os dois.

Os mitos

Diferenças Entre Mitos e lendas
O mito é uma narração de caráter fantástico, normalmente protagonizada por personagens sobrenaturais e heroicos, sendo usado para explicar fatos da realidade e fenômenos naturais que não eram compreendidos pelos povos antigos.

Este tipo de narração procura explicar a origem do mundo, os fenômenos da natureza ou determinados aspectos religiosos vinculados a uma comunidade ou civilização, com a utilização de simbologia, personagens sobrenaturais, deuses e heróis, misturados a fatos reais, características humanas e pessoas que existiram de fato.

Confira a seguir as características dos mitos:
  • Possui caráter explicativo ou simbólico;
  • Busca explicar as origens do mundo e do homem por meio personagens como deuses ou semi-deuses;
  • Explica a realidade por meio de suas histórias sagradas, que não possuem embasamento para serem aceitas como verdades.
A mitologia agrupa todos os mitos de uma determinada comunidade ou civilização. Dentre os mitos mais populares estão a caixa de Pandora, os mitos dos deuses que deram nome aos planetas do Sistema Solar e o mito de Excalibur.

As lendas

As lendas são relatos folclóricos transmitidos oralmente, com o objetivo de explicar acontecimentos misteriosos ou sobrenaturais. As histórias são fantásticas e são criados com elementos de ficção que podem ser baseadas em algum acontecimento histórico.

As lendas são contadas ao longo do tempo e podem ser modificados pela imaginação das pessoas e, por este motivo, uma mesma lenda pode ser diferente entre uma população e outra, adaptando-se às circunstâncias de cada comunidade.

Este tipo de narração costuma servir para explicar algum acontecimento histórico ou de uma determinada comunidade. Também possuem um caráter literário e existem livros com este tipo de histórias.

Confira a seguir as características das lendas:
  • Ocorre a mescla da realidade dos fatos com fantasia ou ficção;
  • Faz parte da tradição oral;
  • Os fatos reais e históricos servem como suporte às histórias;
  • Por serem repassadas oralmente, sofrem mudanças ao longo do tempo.
A lenda do cavalo de Tróia é um exemplo universal deste tipo de narração. No Brasil, podemos destacar as lendas da Cuca, Saci Pererê, Curupira ou Caipora, Mula-sem-cabeça, Boitatá e Pisadeira.

Autor: Débora Silva
Graduada em Letras (Licenciatura em Língua Portuguesa e suas Literaturas)
A lenda do arranca-línguas
A lenda do arranca-línguas
Segundo a lenda o arranca-línguas se parece muito com um gorila, mas não é um gorila. Parece um homem, só que também não é um homem.

O arranca-línguas habita as matas da região do Araguaia, e que já o viu afirma que é bem maior do que um ser humano e adora comer línguas – de cabras, cavalos, bois, e até mesmo de gente.

Quem já viu o arranca-línguas contou pra quem não viu que o bicho cabeludo, de voz fanhosa e cara chata, ataca a boiada durante a noite, e delas só retira a língua, para comer.

Já em relação aos humanos, conta a lenda que o monstro só arranca a língua dos homens que são ladrões de gado.

Dizem que ele se parece mais com o King Kong do que com um gorila africano, que perambula desde a cabeceira do Xingu até as cercanias de Goiânia.

Explicam os historiadores que a região do Araguaia ficou despovoada por muito tempo pelo medo que as pessoas passaram a ter desse monstro que foi apelidado de King Kong goiano.

Dizem os goianos, que as únicas pessoas que viram o arranca-línguas já não enxergam mais.

Na verdade, nunca enxergaram, visto que nasceram cegas. Mas conseguem descrevê-lo muito bem, já que pelo cheiro que ele exalava, dava pra saber a altura, peso, cor dos cabelos e dos olhos, além de sua ultima refeição. Assim, o puderam descrever perfeitamente, ou não.
A lenda da Matinta Perera
A Matinta-Perera, também conhecida como Mati-Taperê, é uma personagem do folclore da região norte do Brasil.

É representada por uma mulher idosa e assustadora que veste uma roupa escura e velha. De acordo com a lenda, a Matinta passa as noites e madrugadas pelas ruas assoviando de forma estridente, amedrontando as pessoas.

Segundo a lenda, na noite que um assobio agudo perturba o sono das pessoas e assusta as crianças, é a ocasião em que o dono da casa deve prometer tabaco ou fumo Matinta Perera.

A lenda da Matinta Perera
Ao ouvir durante a noite, nas imediações da casa, um estridente assobio, o morador diz:

- Matinta, pode passar amanhã aqui para pegar seu tabaco.

No dia seguinte uma velha aparece na residência onde a promessa foi feita, a fim de apanhar o fumo.

A velha é uma pessoa do lugar que carregaria a maldição de "virar" Matinta Perera, ou seja, à noite transformar-se neste ser indescritível que assombra as pessoas. Acredita-se que ela possua poderes sobrenaturais e que seus feitiços possam causar dores ou doenças nas pessoas.

A Matinta Perera pode ser de dois tipos: com asa e sem asa.

A que tem asa pode transformar-se em pássaro e voar nas cercanias do lugar onde mora. A que não tem, anda sempre com um pássaro, considerado agourento, e identificado como sendo "rasga-mortalha".

Dizem que a Matinta, quando está para morrer, pergunta:

"Quem quer? Quem quer?"

Se alguém responder "eu quero", pensando em se tratar de alguma herança de dinheiro ou joias, recebe na verdade a sina de "virar" Matinta Perera.

De acordo com a lenda, a única forma de aprisionar a Matinta Perera é executando alguns rituais como: enterrar no chão (local onde passa a Matinta), à meia-noite, uma tesoura aberta com um terço e uma chave. Quando a Matinta passar por cima ficará presa.

A Matinta Pereira, também chamada de Mati-Taperê, é mais uma lenda do rico e interessante folclore da região amazônica brasileira. Foi possivelmente criado há muitos anos atrás e é passado de geração para geração até os dias de hoje.
A lenda da cobra preta que mama
Tio João, açoriano por parte de pai e mãe, louro, de olhos azuis, parecia um alemão. Mas não era.

Português puro. Das Ilhas. Casou com uma ruivinha de origem alemã, dona Olga, trabalhadeira e buenacha como só ela. Depois de um ano de casados, nasceu o primeiro filho — o Joãozinho, lindo e gorducho que até parecia um anjo do céu de tão mimoso! E vivo como quê.

Pois essa criança quase que se foi, junto com a mãe, semanas depois de nascido, por causa da tal cobra.

Tio João morava numa casa de santa fé, legítima casa de gaúcho, paredes de torrão, quando nasceu o piá, e isto porque estava esperando que lhe aprontassem a casa que mandara construir pelo “dr.” Pedreira, velhote curioso que enriquecera levantando casas pros moradores em terrenos da companhia das Minas de carvão…
A lenda da cobra preta que mama
Cinco dias depois de nascido, o guri acordou, de madrugada, chorando que dava pena. A mãe, que acordara sem leite, não sabia porque a criança chorava daquele modo.

Chamaram o doutor. Veio, examinou e nada encontrou na criança. Tudo bem. Durante o dia mamava, dormia e ficava sossegada. Mas de noite, era aquele berbezum. Acordava de madrugada chorando que era um desespero.

E o tempo foi passando, sempre no mesmo. Fizeram tudo, até benzedura. Nada adiantou. E a criança ia emagrecendo dia a dia, e a mãe também.

No fim de seis semanas a criança estava que era pele e osso e dona Olga parecia cair de magra. Um horror! E olhe que ela era uma mulher e tanto.

Remédio e mais remédio. Benzedura e mais benzedura. Simpatias e outras coisas. Tudo em vão.

O desespero invadiu a casa e todo o vizindário estava alarmado com o causo.

O verão chegara e o calor era intenso. Uma noite, como não aguentasse mais dentro do rancho, tio João, lá pelas tantas, acordou e resolveu chegar à janela.

A lua brilhava com intensidade. A noite, de tão clara parecia dia. Tio João pensou em dar uma volta pelo terreiro. E ao voltar-se um raio lindo da lua batia em cheio na cama do casal, onde dona Olga, fraca e esgotada dormia ao lado do pequeno.

Olhou o quadro e duas lágrimas lhe rolaram, dos olhos muitos azuis, cor daquele céu que a lua prateava. Ia sair do quarto quando uma coisa qualquer, escura, se mexeu de mansinho em cima do alvo lençol.

Assustado, inclinou-se sobre o leito e viu, estarrecido enorme cobra que se afastava serenamente! gorda e lustrosa! Tinha, ainda, na boca da criança, a ponta do rabo. E viu, também, que Joãozinho chupava-o para valer!

Devagarinho, pra não acordar a dona e assustá-la, tio João, que então compreendeu a causa daquela definhação toda, afastou-se um pouco para dar tempo a que a cobra descesse e seguisse seu caminho.

Desceu pelo pé do leito e, rastejado preguiçosamente, desapareceu por um buraco da parede junto ao chão de terra batida. Chegando à janela, viu-a no terreiro. De mansinho por ali mesmo e, armando-se de uma acha de lenha, esmagou-a com fúria.

Mas como dizem que quando se mata uma cobra a companheira aparece alguns dias depois, à procura do matador, tio João nada disse à esposa, nem a ninguém. Ficou esperando a companheira.

Na noite seguinte ela apareceu, que de certo eram sócias no leite de dona Olga, as malvadas! — e sem cerimônia atravessou o terreiro e rumou direitinho pro buraco! E foi logo entrando. Então tio João agarrou-a pelo rabo e — zás! — deu com ela no terreiro como se fosse açoiteira de velho, espatifando-a. Fechou o buraco com todo o cuidado e foi dormir.

E dormiu como um justo.

No outro dia contou tudo.

E o mistério se explicou.

Daí por diante a coisa endireitou de novo. Dona Olga recuperou a saúde e a disposição e o piasote engordou outra vez que era um gosto. Tornou-se o mais lindo e robusto guri da zona. E teve mais quatro irmãos, dois homens e duas mulheres. Lindos todos!

Por isso tomem cuidado! Mulher que amamenta, mesmo nas cidades, deve dormir em quarto bem fechado. Não vá alguma “cobra que mama” entrar e fazer as suas…

Cobra, seu moço, é o diabo. E isto desde que o mundo é mundo…
Chico Rei: A Lenda
Um rei africano foi derrotado em combate e feito prisioneiro. O vencedor destruiu aldeias, plantações e celeiros do vencido. Reuniu a Rainha e os príncipes-meninos, sacudiu-os na estrada, como um rebanho sem nome, vendendo-os a todos como escravos, para o Brasil.

Na travessia do Atlântico, o Rei negro perdeu um filho e viu morrerem seus melhores generais e soldados fiéis, de fome, de frio, de maus-tratos.

Impassível na humilhação, majestoso na derrocada, o soberano, riscado de chicotadas, faminto e doente, pisou as areias do Novo Mundo, como o último dos homens.

Foi, dias e dias, exposto no mercado dos escravos, marcado com tinta branca, comendo uma vez por dia.

Um proprietário de minas de ouro, vindo ao Rio de Janeiro para adquirir reforço vivo para o trabalho esgotante das lavras, escolheu o Rei, como quem simpatiza como um forte animal que o cansaço definhou.
Chico Rei: A Lenda
Palpou-lhe os braços, os ombros, fê-lo abrir a boca, mastigar, tossir e andar, e comprou-o, num lote compreendendo mulheres e homens.

Marcharam a pé para as Minas Gerais, ao sol, à chuva, num tropel inominado e melancólico de condenados sem crime.

O Rei, de calças de algodão, busto nu, abria a marcha, como se dirigisse suas tropas, ao alcance das cubatas, cercado de honrarias.

Ficaram todos em Vila Rica.

O Rei negro fora batizado com o nome de Francisco. Os negros escravos, em voz baixa, juntavam os dois títulos supremos do ex- soba valoroso. Diziam-lhe o nome cristão e o predicamento real.

O escravo era Chico Rei.

Silencioso, tenaz, obstinado, o negro revolvia terra e balançava a bateia com a regularidade de uma máquina sem repouso e sem pausa.

Feitor e amo distinguiam-no pela sua sobriedade, esforço invulgar e natural compostura de modos e de ações.

Derredor de sua figura agrupavam-se os escravos que tinham sido guerreiros valentes, curvados, teimosos, insensíveis ao tempo, multiplicando o trabalho.

Um dia, Chico Rei apareceu ao amo com o preço de sua mulher em pepitas de ouro. O fazendeiro aceitou o prêmio e assinou a carta de alforria da negra, que fora uma rainha.

Mais algum tempo, Chico Rei era livre.

Ele e a mulher, ajudados pela fidelidade de uma Corte que a desgraça não apagara em valor, economizavam, noite e dia, o preço da liberdade dos filhos e dos vassalos.

Ano a ano Chico Rei retirava da massa cativa homens e mulheres, restituindo ao trabalho livre seus velhos companheiros de armas e de caçadas.

Uma a um, reconstruía-se o reino perdido, agora nas terras americanas.

Comprou ele uma lata de terra na Encardideira. A terra era uma mina de ouro.

Chico Rei ficou rico, e o ouro ampliou os limites do seu domínio que era a reunião de homens livres, presos por um liame de veneração e de esperança.

Rei de manto e coroa, aclamado nas festas de Nossa Senhora do Rosário, Chico Rei era realmente um Soberano, com o poder de um direito que fora conquistado com lágrimas, sofrimentos e martírios.

Nenhuma autoridade era superior à sua voz, voz de Rei no mando, sem esquecer os anos igualitários no eito da escravidão.

Negros e negras viviam com conforto e tinham alegrias trovejantes nos bailes populares, nos batuques que se estiravam pelas noites, no círculo sem-fim das danças-ginásticas e coletivas.

No dia 6 de janeiro, da Encardideira, vinha aquele Reino da África, vistoso, empenachado, rutilante de pedrarias, bailando pelas calçadas de Vila Rica, a Outro Preto, aristocrática, povoada de igrejas e de palácios, em louvor da Padroeira dos Escravos.

A Rainha, suas filhas e damas de honor traziam a carapinha empoada de ouro.

Depois da Missa, da Procissão, dos bailados públicos, antes que voltassem ao Reino que se erguia, disciplinado e tranquilo, na Encardideira, Rainha e vassalas banhavam a cabeça na pia de pedra que há no Alto da Cruz.

No fundo da taça, brilhando na água trêmula, ficava todo o ouro que enfeitara os penteados. Novos escravos iam sair do cativeiro, resgatados por aquela dádiva singular.

Por isso ninguém esquece, nas terras livres das Minas Gerais, a fisionomia de Chico Rei, o negro soberano, vencedor do destino, fundador de tronos, pela persistência, serenidade e confiança nos recursos eternos do trabalho.
A Lenda de Itararé
Em tempos idos a nação indígena que vivia às margens do Paranapanema resolveu abandonar a região, escapando assim às atrocidades praticadas pelos brancos invasores.

Uma noite, porém, já em viagem, quando despertaram, estavam os índios completamente cercados e só à força de tacape conseguiram abrir caminho por entre os adversários; mas, na fuga, uma das mulheres mais formosas da aldeia – Jaíra - caiu sob o poder do chefe do bando contrário, homem forte e valoroso.

Reuniram-se as nações indígenas convocadas, e durante uma lua inteira se prepararam para a guerra. Efetuaram a festa do preparo do curare, também chamado uirari.

Era a mulher mais velha da aldeia quem tinha a honra de preparar o veneno; vestia-se com penas vermelhas, escutava o canto dos pajés e partia para o mato, de onde voltava carregada de ervas. 

Quando o curare ficava pronto, os vapores da panela subiam; ela os aspirava e caía morta. Assim se fez.
A Lenda de Itararé
Depois de esfriado o curare, começou a dança em torno à panela, ervando todos os guerreiros as suas flechas. Antes de se iniciar a batalha, chegou um velho de muito longe e entrou a aconselhar, secretamente, os   pajés:   na   guerra   contra   os brancos, que usavam armas de fogo, só deviam esperar a morte; eles eram muitos e sabiam defender-se; o que deviam fazer era o seguinte:

- Um dos nossos ocultará, perto do acampamento inimigo, filtros de amor que conhecemos, a fim de o chefe ficar apaixonado por Jaíra, e após deverá apresentar-se aos brancos como desertor da aldeia, para trabalhar com eles. 

Assim terá oportunidade de falar com ela e entregar-lhe drogas preparadas. E um dia, quando todos estiverem adormecidos pelo ariru, servido no banquete, os guerreiros indígenas, em massa, atacarão subitamente os inimigos, de tacape em punho. Não escapará nenhum dos brancos, cujos cadáveres serão lançados aos corvos.

Tal plano foi aceito pelos pajés.

No dia seguinte partiu o guerreiro, levando os filtros de amor, mas os índios em vão esperaram (como estava combinado) pelo canto da saracuara, três vezes em noite de lua nova.

É que o chefe se apaixonara pela linda bugra, e Jaíra também se apaixonara pelo moço, de modo que o guerreiro enviado regressou sem nada haver conseguido.

O tenente Antônio de Sá (assim se chamava o chefe) era casado e residia em Santos, e quando sua esposa soube do amor que o ligava a Jaíra, fez que seu pai a conduzisse ao acampamento dos brancos, onde ela chegou, uma tarde, com muitos pajens e comitiva luzida.

Houve disputa entre os esposos, e, no dia seguinte, Jaíra, muito desgostosa, resolveu partir, dizendo ao tenente que ia esperá-lo à beira do rio Itararé, a fim de fugirem, à noite, pela floresta. E rematou:

- Quando a lua for descendo pelos morros azuis eu cantarei três vezes como a araponga branca, e, se você não comparecer ao lugar da espera, ligarei os pés com um cipó e me atirarei ao rio.

E pôs-se a caminho, deixando, em lágrimas, o moço.  À noite, ouviu-se três vezes o canto da araponga branca, mas o chefe dos brancos não foi procurar Jaíra.

Medonha e súbita tempestade revolucionou, então, aquela região, caindo raios numerosos que vitimaram muitos bois, reduzindo bastante os animais do tenente Antônio de Sá.

Ao amanhecer, o chefe foi a cavalo, acompanhado por um pajem, à pedra indicada por Jaíra, mas só achou ali a roupa da infeliz criatura, com uma coroa de flores de maracujá do mato, em cima. O tenente soltou um grito de desespero, e ficou tão alucinado, que se lançou à corrente e não veio mais a terra.

A senhora branca soube do ocorrido, dirigiu-se a cavalo ao rio, onde só viu a roupa de Jaíra e o lugar em que sucumbira o esposo, e em pranto, a vociferar, amaldiçoou o rio em que cuspiu três vezes. 

Então as águas cavaram o solo e se esconderam no fundo da terra, os peixes ficaram cegos, a mata fanou-se e morreu!...

Contam que quem descia, de noite, à gruta de Itararé veria Jaíra, vestida de branco, com a grinalda de flores de maracujá, tendo ao colo o corpo do moço que morrera por ela. Às vezes, a sua sombra vinha à beira da estrada, matava os viajantes, tirava-lhes o sangue e com ele ia ver se reanimava o seu morto querido.

Dizem, em   época   mais   recente, que   a penitência já se acabou; e um dia, quando menos se esperar, as águas do rio hão de abrir de novo as suas margens e hão de espalhar-se pela terra, para refletir, à noite, o fulgor de todas as estrelas.
A Missa dos Mortos
A Missa dos Mortos
A missa dos mortos é uma das lendas mais tradicionais do Brasil. Existe um registro muito popular de fatos dessa natureza que aconteceram na Cidade de Ouro Preto, em Minas Gerais, no começo do século XX, por volta de 1900. O caso todo ocorreu numa pequena Igreja que ficava ao lado de um cemitério, e esta era a Igreja de Nossa Senhora das Mercês de Cima.

De todas as coisas,  porém,  capazes  de arrepiar cabelo, e que ouvi em minha infância ouro- pretana,  nenhuma  tão  tremenda  como  a  Missa  dos Mortos, na Igreja das Mercês de Cima.

Quem m'a contou é pessoa conhecida em toda a cidade  de  Ouro  Preto,  e  exercia  funções incompatíveis  com  o  uso  da  falsidade  em  suas informações.

Foi  João  Leite,  o  saudoso  João  Leite,  pardo, miudinho,  anguloso,  sempre  montado  em  seu cavalinho  branco,  minúscula  montaria  de  hábitos austeros,  que  se  contentava  de  viver  da  escassa relva do adro da Igreja.

Seria  possível  que  uma  pessoa  estimável  e honesta como João Leite, sacristão de confiança de uma  irmandade,  zelador  de  um  templo,  tivesse coragem  de  depois  de  pregar  uma  mentira envolvendo  mortos  respeitáveis,  fosse tranquilamente  dormir  na  sacristia,  tendo  ao  lado um cemitério?

Tenho  dúvidas.  João  Leite  era  ele  próprio  uma figura  mista,  metade  deste  mundo,  metade  do outro.

Suas  origens  eram  misteriosas.  Foi  enjeitado, com  horas  de  nascido,  à  porta  da  Santa  Casa,  em época que não se sabe. Não se sabe, ainda, quando começou a funcionar como sacristão das Mercês. As mais  velhas  pessoas  da  cidade  já  o  conheciam desde  criança,  nesse  mister,  com  a  mesma  cara, sempre com o mesmo cavalinho branco.

Quando  alguém  indagava  de  João  Leite  suas origens  ou  o  tempo  que  servia  Nossa  Senhora  das Mercês,  em  sua  Igreja,  João  Leite  sorria  e  não respondia  nada  Um  belo  dia,  há  alguns  anos,  foi encontrado  morto  diante  do  altar-mor,  deitado  no chão,  com  as  mãos  sobre  o  peito,  arrumadinho como se estivesse dentro de um caixão. O cavalinho branco  sumiu  sem  que  dele  ninguém  desse notícias.

Pois João Leite, segundo narrativa que lhe ouvi, já lá vão mais de trinta anos, assistiu a uma Missa dos Mortos.

Morando  na  sacristia  do  templo  cuja  conserva lhe  era  confiada,  achava-se  recolhido  altas  horas da noite, quando ouviu bulha na capela.

A  noite  era  fria  e  João  Leite  estava  com  a cabeça  coberta  para  esquentar-se  melhor. Descobriu-a e abrindo os olhos viu claridade.

Seriam  ladrões?  Mas  a  Igreja  era  pobre  e qualquer  ladrão,  por  mais  estúpido  que  fosse, saberia que a Igreja das Mercês, sendo paupérrima, não  dispunha  de  prataria,  de  qualquer  outra  coisa de  valor  mercantil.  Enfim,  podia  ser,  raciocinou João Leite.

Estava  nessa  dúvida  quando  ouviu  sussurrado por  vozes  cavas  em  coro,  o  "Deus  vos  salve"  do começo da ladainha.

Ergueu-se e foi resolutamente pelo corredor até a  porta  que  dá  para  a  nave.  A  Igreja  estava  toda iluminada,  altares,  lustres;  e  completamente  cheia de fiéis.

No  altar-mor,  um  sacerdote  paramentado celebrava missa.

João  Leite  estranhou  a  nuca  do  padre,  muito branca,  não  se  lembrando  de  calvície  tão  completa no clero de Ouro Preto.

Os fiéis que enchiam a nave trajavam todos de preto,  e  entre  eles  alguns  de  cogulas,  e  algumas senhoras  com  o  hábito  das  Mercês;  todos  de cabeças baixas.

Quando o Padre celebrante se voltou para dizer o  Dominus  Vobiscum,  João  Leite  verificou  que  era uma  simples  caveira  que  ele  tinha  em  lugar  da cabeça.

Assustou-se,  e  nesse  momento  reparando  nos assistentes,  agora  de  pé,  viu  que  também  eles  não eram mais do que esqueletos vestidos.

Procurou  logo  afastar-se  dali,  e,  caminhando, deu  com  a  porta  que  deitava  para  o  cemitério completamente escancarada.

O  melhor  que  tinha  a  fazer,  fez.  Recolheu-se  à cama,  cobriu  a  cabeça,  transido  de  medo,  e  ficou quietinho  ouvindo  o  sussurro  das  vozes  orando,  o tinir  da  campainha  na  "Consagração"  e  no  Domine nom  sum  dignus,  até  que  voltou  de  novo  o  pesado silêncio das frias noites de Vila Rica.

Informações Complementares sobre a Missa dos Mortos

Nomes comuns: Missa das Almas, Missa das Almas Penadas.

Origem Provável: É sem dúvida originária da Europa. Em Portugal e Espanha, por volta da idade média, já se conheciam lendas com estas. Os romanos antigos acreditavam que os fantasmas dos parentes mortos se reuniam de tempos em tempos. Assim, eles, como também os Mouros espanhóis, celebravam a Festa dos Mortos. O objetivo era espantar os fantasmas errantes dos antepassados. Em Portugal é conhecida como "A Missa das Almas", e na Espanha como "La Misa de las Animas".

No caso brasileiro, é uma lenda muito comum em todo interior do país, embora seja citada como primeiramente relatada em Ouro Preto, Minas Gerais, na Igreja de Nossa Senhora das Mercês de Cima.

Também em Minas Gerais, na cidade de São João Del Rei, na Matriz de N. S. do Pilar, existe um relato semelhante. Nesse caso, aconteceu com uma viúva, moradora do lugar. Ela teria assistido a uma dessas missas e perdeu a noção do tempo. Quando o sino bateu doze vezes, à meia-noite, tudo desapareceu ficando ela sozinha completamente desorientada, e imaginando se tudo aquilo não passara de um sonho, daqueles que parecem a mais pura realidade.

De acordo com a crença de alguns, a pessoa que presencia uma dessas missas, está perto de morrer ou seria um aviso de que vai morrer alguém conhecido dela. Já outros afirmam que é um sinal de longevidade.
Os Potes da Noite - Lenda do surgimento da Noite
Os Potes da Noite
Dizem os índios tembés que outrora o céu não era tão alto como agora, e que um dia os passarinhos e todas as aves do céu, querendo mais espaço para as suas acrobacias, convocaram uma reunião para pôr o assunto em votação. Esse encontro foi quase tão concorrido quanto a famosa Assembleia dos Pássaros, ocorrida lá para as bandas do Oriente, e tinha ave de todos os jeitos, até mesmo criaturas que de aves só tinham as asas, tal como o morcego.

Aliás, o morcego foi o único ser provido de asas que repudiou a ideia de suspender o telhado do céu.

– O céu já não está alto o bastante? – disse ele.

Mas as aves não queriam saber de céu baixo e aprovaram por esmagadora maioria a elevação da abóbada dos céus.

Foi uma trabalheira imensa, mas as aves conseguiram, afinal, erguer o grande telhado azul de tal modo que, a partir dali, sobrou espaço para as piruetas aladas de todos os seres amigos do ar. O morcego, porém, foi punido por sua casmurrice, e desde então passou a dormir de ponta-cabeça.

– De hoje em diante, dormirá com o céu debaixo dos pés! – disse a coruja, ao decretar a sentença.

Mas, se os pássaros estavam felizes com a suspensão do céu, os índios continuavam desgostosos com as coisas do alto. O céu fora suspenso, mas e daí? Nem por isso a claridade diminuíra, já que não havia noite, ainda, em parte alguma do universo. Os tembés não aguentavam mais dormir com luz no rosto, e era preciso fazer alguma coisa para terem, pela primeira vez, uma noite de descanso real.

Até que um dia um velho índio, chegado dos fundos da mata, trouxe uma grande novidade.

– Acabei de descobrir o local onde o mau espírito Azã esconde seus dois grandes potes!

Aquilo parecia história de um velho maluco, mas, mesmo assim, o cacique decidiu tirar a dúvida.

– Está falando dos potes que guardam a noite? – disse ele.
– Sim, sim, eles mesmos! – bradou o velhote, sapateando os pés nus sobre o pó.

No mesmo instante, o cacique organizou uma expedição à mata para arrebatar os dois potes. Eles eram negros como a noite que escondiam e estavam metidos entre os joelhos do velho demônio, que nunca dormia. Quanto mais se aproximavam, mais escutavam o ruído que havia dentro dos potes. É que dentro estavam guardados, além da noite, todos os seres esparrentos que a povoam, tais como os grilos, os sapos e toda a fauna gritona das trevas.

– Tirar os potes do meio das pernas do demônio já se vê que não dá – disse o cacique.

Então, chamando seu arqueiro mais hábil, ordenou-lhe baixinho:

– Vare aqueles dois potes com uma única flechada.

O arqueiro rastejou no musgo até encontrar a posição ideal. Quando teve a certeza de poder espatifar os dois cântaros com uma única flechada, ele abandonou a posição de cobra rastejante e ficou de joelhos; depois, alçou o arco e caprichou bem na mira para só então disparar a seta. Um zum de vento cruzou a mata e passou por entre as pernas do demônio, espatifando um dos vasos (o outro, Azã conseguiu proteger, pois enganava-se quem pensava que ele dormia). De qualquer jeito, um dos potes se espatifara, e seus cacos saltaram na cara do demônio, deixando-o momentaneamente cego.

Com a explosão do primeiro pote, um jato veloz de trevas jorrou para fora e, depois de engolir o demônio e se espalhar por tudo, continuou avançando por toda a selva. Junto com a treva, vinham os habitantes da noite – onças, aranhas, cobras, morcegos, mosquitos e predadores de toda espécie, que se aproveitam da escuridão para espalhar o seu reinado de ter- ror e de sangue.

Ao verem aquilo tudo crescer para cima deles, os índios largaram a correr com quantas pernas tinham, pois a noite se revelara pior, afinal, do que o dia sem fim. Eles só pararam quando chegaram à sua aldeia. Quase junto com eles chegou a noite, e então eles desabaram, exaustos, sobre o chão, pois não havia quem pudesse resistir àquela gostosa escuridão para tirar um bom ronco. Quando estavam, porém, no bom do sono, a barra do dia começou a erguer-se outra vez, e um raio de sol feriu o olho do cacique.

– Danação! Que noite mais curta é esta?

De fato, a noite fora muito curta. Então, ele percebeu que teria de quebrar também o segundo pote, que ainda restara inteiro na selva.

O arqueiro, pressentindo o chamado, apresentou-se, solícito.

– Você não! – disse o morubixaba, expulsando o arqueiro fajuto.

Então mandou chamar o urutau, um dos ajudantes de sua predileção. (Naquele dias, o urutau era ainda um índio, como todos os outros.)

– Vá você até a mata e quebre o segundo pote!

Urutau tomou do arco e se foi, embora pressentisse coisa ruim. Ao chegar perto de Azã, viu que ele ainda esfregava os olhos magoados e aproveitou para arremessar a sua seta sobre o pote.

Resultado: o vaso rachou inteiro, e nova onda de trevas se espalhou por tudo.

Assustado, o índio-urutau abriu o compasso das pernas e começou a correr com toda a energia, mas acabou enredando os pés num emaranhado de cipós, indo dar de cara na relva. Então, antes que pudesse erguer-se, a treva finalmente alcançou-o. O índio deu um grito e cobriu a cabeça com os braços. Quando destapou-se, porém, foi com um par de asas que o fez. Também um bico enorme havia crescido no lugar da boca, e um par de olhos amarelos e arregalados dava agora à sua cara um ar permanente de espanto.

E foi desde este dia que o urutau deixou de ser um índio para converter-se na ave noturna que hoje se conhece. De noite, o urutau grita, e durante o dia não faz outra coisa senão estar empoleirado num galho e acompanhar, de olhos arregalados, a marcha do sol pelos céus.
Como surgiu o Rio Oiapoque
Como surgiu o Oiapoque
Os índios oiampis explicam de maneira melancólica o surgimento do rio Oiapoque, no extremo norte do Brasil.

Tudo começou num tempo muito antigo, quando a fome e a doença estavam afligindo a aldeia dos oiampis. Tarumã, uma bela índia, estava grávida e decidiu procurar um lugar livre da moléstia e da penúria para criar seu filho. Com a barriga pesada, a pequena índia começou sua peregrinação solitária pela mata, mas passados alguns dias sentiu que não teria mais forças para ir a lugar algum.

– Ó, Tupã, não posso mais dar um passo e morrerei com meu filho no ventre! – exclamou ela, sozinha e esfomeada no meio da mata.

Então Tupã, apiedado, transformou-a numa enorme cobra.

Tarumã, convertida nessa cobra, encontrou forças para seguir adiante, levando sempre o filho no ventre, até que, um dia, encontrou um lugar aprazível, onde havia água e terra boa para plantar.

– Aqui haveremos todos de viver! – disse ela, pensando em retornar às pressas para avisar a gente da sua aldeia.

Antes de retornar, porém, ela deu à luz uma menina.

– Graças a Tupã não nasceu uma cobrinha! – disse ela, aninhando nas suas dobras o pequeno ser.

Tarumã refez todo o trajeto com a menina na garupa até chegar de volta à sua aldeia. Entretanto, viu-se surpreendida pela péssima recepção dos seus.

E não era para menos, já que Tarumã ainda ostentava sua figura de cobra gigante.

– É a Cobra-Grande! – disse um índio, apavorado.

Desde tempos imemoriais que os índios amazônicos nutrem um medo atroz da Cobra-Grande, um ser frio e devastador, cujo único propósito é alimentar-se de índios e animais. Imediatamente, um grupo de valentes surgiu com arcos e flechas e começou a arremessar uma verdadeira chuva de setas para cima da pobre índia-cobra.

Tarumã não foi atingida, protegida que estava por suas escamas, mas sua filhinha não teve a mesma sorte e acabou varada por uma flechada certeira.

Ao ver a filha morta, a cobra lançou para o ar um silvo de dor e tristeza tão aterrador que os índios saíram correndo em todas as direções. Imediata- mente, um verdadeiro rio de lágrimas brotou das pupilas da cobra, preenchendo todo o sulco que ela abrira durante a sua viagem de ida e de volta. Um rio imenso formou-se, e a cobra mergulhou nas suas águas caudalosas, desaparecendo para sempre.
O Cego Econômico que Enterrava Dinheiro
O Cego e o Dinheiro Enterrado
Um cego muito econômico guardava suas moedas em casa e, temendo os ladrões, resolveu esconder seu tesouro no quintal.

Cavou um buraco ao pé de uma árvore, debaixo da raiz, e deixou seu dinheiro bem disfarçado.

Sucedeu que um seu vizinho, vendo-o ir tão cedo para o fundo do quintal, acompanhou-o, descobrindo o segredo.

Quando anoiteceu, voltou à árvore e furtou todo o dinheiro que o cego enterrara.

Pela manhã, o dono veio, tateando, verificou ter sido roubado. Como não resolvia chorar ou queixar-se, fingiu não ter sido visitado pelo ladrão e começou a pensar em uma forma de readquirir seu dinheiro sem barulhos.

Foi procurar o vizinho e lhe falou, por aqui assim:

- "Vizinho, nesse tempo ninguém pode ter confiança senão em si mesmo, apesar dos dentes morderem a língua e ambos viverem juntos. Juntei minhas economias e escondi num pé de árvore ali no meu quintal, pensando ser lugar bem seguro. Acabo de receber um dinheiro que emprestara e vim pedir conselho a você. Guardo tudo junto ou levo esse dinheiro para a cidade?"

O vizinho pensou logo e pegar todo o dinheiro do cego e aconselhou-o que deixasse tudo, no mesmo canto já antigo. E Logo que escureceu, correu e foi levar o que tirara na noite anterior, para o cego não desconfiar. Cobriu tudo de areia, alisou e retirou-se. Mais tarde, o cego procurou o cantinho velho e tomou posse do seu dinheiro ali restituído pelo vizinho que sonhava ficar com tudo.

E, quando o ladrão voltou, encontrou apenas o buraco oco, sem um níquel sequer.

CASCUDO, Luis da Camara. Literatura oral no Brasil. Belo Horizonte: Itariaia, 1984. p.303
O Mito do Romãozinho
O Mito do Romãozinho
Filho de negro trabalhador, Romãozinho nasceu vadio e malcriado.

Tinha todos os dentes, fisionomia fechada, hábitos errantes, nenhuma bondade no coração.

Divertimento era maltratar animais e destruir plantas.

Menino absolutamente perverso.

Um meio-dia, a mãe mandou-o levar o almoço para o pai que trabalhava num roçado, distante da casa.

Romãozinho foi de má vontade.

No caminho, parou, abriu a cesta, comeu a galinha inteira, juntou os ossos, recolocou-os na toalhinha, e foi entregar ao pai.

Quando o velho deparou ossos em vez de comida, perguntou que brincadeira sem graça era aquela.
Romãozinho entendeu vingar-se da mãe, que ficara fiando algodão no alpendre da casinha:´

- É o que me deram... Minha mãe comeu a galinha com um homem que aparece lá em casa quando o senhor não está por perto. Pegaram os ossos e disseram que trouxesse. Eu trouxe. É isso aí...

O negro meteu a enxada na terra, largou o serviço e veio correndo. Encontrou a mulher fiando, curvada, absorvida na tarefa.

Dando crédito ao que lhe dissera o filho, puxou a faca e matou-a.

Morrendo, a velha amaldiçoou o filho que estava rindo:

- Não morrerás nunca. Não conhecerás o céu, nem o inferno, nem o descanso enquanto o mundo for mundo...

O marido morreu de arrependimento. Romãozinho desapareceu rindo ainda.

Faz muito tempo que este caso sucedeu em Goiás.

O moleque ainda está vivo e do mesmo tamanho;anda por todas as estradas, fazendo o que não presta; quebra telhas a pedradas, espanta animais, assombra gente, tira galinha do choco, desnorteia quem viaja, espalhando um medo sem forma e sem nome; é pequeno, preto, risonho, sem ter fé nem juízo.

Homens sérios têm visto Romãozinho.

Furtou uma moça na Chapada dos Veadeiros; conversou com o coletor de Cavalcanti; virou fogo azul indo-e-vindo na estrada, perto de Porto Nacional.

Não morrerá nunca enquanto uma pessoa humana existir no mundo.

E, como levantou falso contra a própria mãe, nem mesmo no inferno haverá um lugar para ele...

Mais informações sobre o Romãozinho

Nomes comuns: Romãozinho, Fogo Fátuo, Corpo-Seco.

Origem Provável: A lenda é conhecida no leste Bahia, em toda Goiás, parte do Mato Grosso e também na fronteira do Maranhão com Goiás.

Os primeiros relatos do mito são do distrito de Boa Sorte, município de Pedro Afonso, em Goiás, fronteira do Maranhão, e data do século XX.

Outras versões do conto, dizem que a mãe do menino, fiava algodão no alpendre da casa, quando o marido chegou por trás dela e a matou.

O menino, também vira uma tocha de fogo, que fica indo e vindo pelos caminhos desertos. Alguns dizem que ele é o próprio Corpo-Seco, isto é, alma de gente tão ruim que nem o céu nem o inferno o deixaram entrar, por isso vaga pelo mundo assustando as pessoas.

Alguns estudiosos afirmam que o mito do Saci-Pererê, deu origem a essa lenda.
Lenda da princesa de Jericoacoara
Lenda da princesa de Jericoacoara
A exemplo da Alamoa e das Mães do Ouro espalhadas por todo o Brasil, a Princesa de Jericoacoara é outra criatura da estirpe das princesas encantadas, guardiãs de tesouros em grutas ou cavernas, que tanto sucesso fizeram em Portugal, na versão das mouras encantadas.

Habitante do Ceará, ela tem sua morada na cidade que a imortalizou, Jericoacoara. Por artes de algum feitiço, a princesa, outrora bela e deslumbrante, está agora transformada numa serpente.

Felizmente, sua cabeça permanece a mesma dos seus dias de beleza, bem como os seus pés.

Para desencantá-la, é preciso a coragem de um homem de verdade, disposto ao martírio, pois somente com o sacrifício de uma vida humana ela poderá retomar sua antiga forma (que se faça um sinal da cruz no dorso da cobra com o sangue do sacrificado é o que basta para o desmanche do feitiço).

Então estarão abertos, como por mágica, os portões da gruta onde se oculta o palácio esplendoroso da princesa, repleto de todas as riquezas concebíveis deste mundo.

A riqueza, entretanto, será para os outros, não para o herói abnegado, a quem caberá apenas a honra eterna de ter liberado a mais linda das princesas do seu fado infeliz.


A lenda do Tutu Marambá
A lenda do Tutu
Irmão do Bicho-Papão e do Boi da Cara Preta, o Tutu Marambá é uma criatura toda negra, sem ter, porém, forma discernível alguma. (A palavra Tutu, segundo Câmara Cascudo, provém do termo africano quitutu, que significa “ogro” ou “papão”.)

Apesar de não ser tão popular quanto o Bicho-Papão, que chegou a virar termo proverbial, o Tutu marambá é senhor dos terrores noturnos infantis na Bahia, em Pernambuco, no Rio de Janeiro e em Minas Gerais.

Existem várias modalidades da criatura, das quais a mais singular é a do Tutu-zambê, que, além de não possuir forma, não possui também a cabeça.

Na Bahia, por sua vez, o Tutu marambá deixa de ser uma mera sombra para assumir a forma explícita de um porco-do-mato, graças à semelhança dos termos tutu e caititu. (O caititu, ou queixada, é uma espécie de porco selvagem, montaria predileta do Caipora nortista.)

Segundo a crença, o Tutu marambá persegue as crianças arteiras e, principalmente, aquelas que não querem dormir.

O mito, segundo Câmara Cascudo, é importado da Europa e da África. Nossas mães indígenas, ao contrário, preferiam invocar, numa admirável lição de delicadeza, o auxílio dos pássaros ou animais de sono prolongado, a fim de que o emprestassem a seus indiozinhos insones. (Acatipuru, empresta teu sono / para meu filho dormir... / Iacuturu, empresta teu sono / para meu pequeno filho dormir..., diz, como numa oração, o suave acalanto).

Tutu Marambá - Canção Popular

Tutu Marambá não venhas mais cá

Que o pai do menino te manda matar (repete)

Durma neném, que a Cuca logo vem

Papai está na roça e Mamãezinha em Belém

Tutu Marambá não venhas mais cá

Que o pai do menino te manda matar (repete)
A lenda do Zumbi
A lenda do Zumbi
A lenda do Zumbi é outra criação brasileira calcada no tipo universalmente conhecido do morto-vivo, embora aqui ele seja um fantasma incorpóreo, e não um cadáver teleguiado, como estamos acostumados a ver nas recorrentes versões cinematográficas. Apesar disso, tornou-se quase impossível dissociar a imagem de um e de outro, de tal forma que, na mentalidade popular, os dois personagens tornaram-se sósias.

Na versão brasileira, porém, o Zumbi é mais “elétrico” e gosta de dar susto nas pessoas, enquanto o morto-vivo dos filmes, mesmo quando está empenhado em estraçalhar e matar, o faz mergulhado num estado de apatia catatônica.

Zumbi acabou tornando-se emblema, também, do maior herói negro da nossa nacionalidade, o guerreiro Zumbi dos Palmares, que nada tinha de apático.

Diz a nossa crendice – e este é um traço realmente original do nosso Zumbi – que, quanto mais perto a vítima está dele, mais ele cresce em estatura, inclinando-se para diante de uma forma sinistra.

Graças à origem africana do termo – nzumbi, “fantasma” –, o Zumbi é normalmente visto como um homem negro, mas nada impede que possamos ver passeando pelas nossas matas e cidades versões étnicas mais claras do ser amedrontador.

A fama do Zumbi é mais consistente nos estados da Bahia, do Rio, de Minas e de Sergipe.
A lenda do Capelobo
A lenda do Capelobo
O Capelobo é um personagem do folclore brasileiro, que possui aparência de monstro. A lenda do Capelobo é muito comum na região Norte do Brasil, principalmente nos estados do Maranhão, Amazonas e Pará. Acredita-se que tenha surgido entre os povos indígenas da região.

Características e lenda do Capelobo

De acordo com a lenda, seu corpo é uma mistura de ser humano com animais. Desta forma, possui cabeça e focinho de tamanduá-bandeira (ou de cachorro ou de anta, dependendo da versão), corpo humano forte, patas redondas (formato de fundo de garrafa) com muitos pelos no corpo. É muito rápido e vive correndo pelas matas próximas aos rios e em regiões de várzeas.

De acordo com a lenda, o Capelobo tem uma vida ativa durante a noite e madrugada, quando fica perambulando e rodeando barracões, casas e acampamentos no meio da mata. Emitindo sons assustadores (gritos altos), este monstro se alimenta de cães e gatos, principalmente os que acabaram de nascer. Ataca também os caçadores, matando-os e bebendo o sangue das vítimas.

Para matar essa criatura monstruosa, de acordo com a lenda, só existe uma forma: um tiro certeiro em seu umbigo.

Semelhanças do Capelobo com o Lobisomem

A lenda do Capelobo possui, como vimos, muitas semelhanças com a do Lobisomem. Por isso, alguns folcloristas dizem que ele é uma espécie de lobisomem da região norte do Brasil. Em algumas tribos indígenas do região do rio Xingu, acredita-se que alguns índios possuem a capacidade de se transformarem em Capelobo.

Acredita-se que o nome deste personagem folclórico seja de origem indígena, sendo uma mistura de capê (osso quebrado) e lobo.