A lenda da cobra preta que mama
Tio João, açoriano por parte de pai e mãe, louro, de olhos azuis, parecia um alemão. Mas não era.

Português puro. Das Ilhas. Casou com uma ruivinha de origem alemã, dona Olga, trabalhadeira e buenacha como só ela. Depois de um ano de casados, nasceu o primeiro filho — o Joãozinho, lindo e gorducho que até parecia um anjo do céu de tão mimoso! E vivo como quê.

Pois essa criança quase que se foi, junto com a mãe, semanas depois de nascido, por causa da tal cobra.

Tio João morava numa casa de santa fé, legítima casa de gaúcho, paredes de torrão, quando nasceu o piá, e isto porque estava esperando que lhe aprontassem a casa que mandara construir pelo “dr.” Pedreira, velhote curioso que enriquecera levantando casas pros moradores em terrenos da companhia das Minas de carvão…
A lenda da cobra preta que mama
Cinco dias depois de nascido, o guri acordou, de madrugada, chorando que dava pena. A mãe, que acordara sem leite, não sabia porque a criança chorava daquele modo.

Chamaram o doutor. Veio, examinou e nada encontrou na criança. Tudo bem. Durante o dia mamava, dormia e ficava sossegada. Mas de noite, era aquele berbezum. Acordava de madrugada chorando que era um desespero.

E o tempo foi passando, sempre no mesmo. Fizeram tudo, até benzedura. Nada adiantou. E a criança ia emagrecendo dia a dia, e a mãe também.

No fim de seis semanas a criança estava que era pele e osso e dona Olga parecia cair de magra. Um horror! E olhe que ela era uma mulher e tanto.

Remédio e mais remédio. Benzedura e mais benzedura. Simpatias e outras coisas. Tudo em vão.

O desespero invadiu a casa e todo o vizindário estava alarmado com o causo.

O verão chegara e o calor era intenso. Uma noite, como não aguentasse mais dentro do rancho, tio João, lá pelas tantas, acordou e resolveu chegar à janela.

A lua brilhava com intensidade. A noite, de tão clara parecia dia. Tio João pensou em dar uma volta pelo terreiro. E ao voltar-se um raio lindo da lua batia em cheio na cama do casal, onde dona Olga, fraca e esgotada dormia ao lado do pequeno.

Olhou o quadro e duas lágrimas lhe rolaram, dos olhos muitos azuis, cor daquele céu que a lua prateava. Ia sair do quarto quando uma coisa qualquer, escura, se mexeu de mansinho em cima do alvo lençol.

Assustado, inclinou-se sobre o leito e viu, estarrecido enorme cobra que se afastava serenamente! gorda e lustrosa! Tinha, ainda, na boca da criança, a ponta do rabo. E viu, também, que Joãozinho chupava-o para valer!

Devagarinho, pra não acordar a dona e assustá-la, tio João, que então compreendeu a causa daquela definhação toda, afastou-se um pouco para dar tempo a que a cobra descesse e seguisse seu caminho.

Desceu pelo pé do leito e, rastejado preguiçosamente, desapareceu por um buraco da parede junto ao chão de terra batida. Chegando à janela, viu-a no terreiro. De mansinho por ali mesmo e, armando-se de uma acha de lenha, esmagou-a com fúria.

Mas como dizem que quando se mata uma cobra a companheira aparece alguns dias depois, à procura do matador, tio João nada disse à esposa, nem a ninguém. Ficou esperando a companheira.

Na noite seguinte ela apareceu, que de certo eram sócias no leite de dona Olga, as malvadas! — e sem cerimônia atravessou o terreiro e rumou direitinho pro buraco! E foi logo entrando. Então tio João agarrou-a pelo rabo e — zás! — deu com ela no terreiro como se fosse açoiteira de velho, espatifando-a. Fechou o buraco com todo o cuidado e foi dormir.

E dormiu como um justo.

No outro dia contou tudo.

E o mistério se explicou.

Daí por diante a coisa endireitou de novo. Dona Olga recuperou a saúde e a disposição e o piasote engordou outra vez que era um gosto. Tornou-se o mais lindo e robusto guri da zona. E teve mais quatro irmãos, dois homens e duas mulheres. Lindos todos!

Por isso tomem cuidado! Mulher que amamenta, mesmo nas cidades, deve dormir em quarto bem fechado. Não vá alguma “cobra que mama” entrar e fazer as suas…

Cobra, seu moço, é o diabo. E isto desde que o mundo é mundo…
Chico Rei: A Lenda
Um rei africano foi derrotado em combate e feito prisioneiro. O vencedor destruiu aldeias, plantações e celeiros do vencido. Reuniu a Rainha e os príncipes-meninos, sacudiu-os na estrada, como um rebanho sem nome, vendendo-os a todos como escravos, para o Brasil.

Na travessia do Atlântico, o Rei negro perdeu um filho e viu morrerem seus melhores generais e soldados fiéis, de fome, de frio, de maus-tratos.

Impassível na humilhação, majestoso na derrocada, o soberano, riscado de chicotadas, faminto e doente, pisou as areias do Novo Mundo, como o último dos homens.

Foi, dias e dias, exposto no mercado dos escravos, marcado com tinta branca, comendo uma vez por dia.

Um proprietário de minas de ouro, vindo ao Rio de Janeiro para adquirir reforço vivo para o trabalho esgotante das lavras, escolheu o Rei, como quem simpatiza como um forte animal que o cansaço definhou.
Chico Rei: A Lenda
Palpou-lhe os braços, os ombros, fê-lo abrir a boca, mastigar, tossir e andar, e comprou-o, num lote compreendendo mulheres e homens.

Marcharam a pé para as Minas Gerais, ao sol, à chuva, num tropel inominado e melancólico de condenados sem crime.

O Rei, de calças de algodão, busto nu, abria a marcha, como se dirigisse suas tropas, ao alcance das cubatas, cercado de honrarias.

Ficaram todos em Vila Rica.

O Rei negro fora batizado com o nome de Francisco. Os negros escravos, em voz baixa, juntavam os dois títulos supremos do ex- soba valoroso. Diziam-lhe o nome cristão e o predicamento real.

O escravo era Chico Rei.

Silencioso, tenaz, obstinado, o negro revolvia terra e balançava a bateia com a regularidade de uma máquina sem repouso e sem pausa.

Feitor e amo distinguiam-no pela sua sobriedade, esforço invulgar e natural compostura de modos e de ações.

Derredor de sua figura agrupavam-se os escravos que tinham sido guerreiros valentes, curvados, teimosos, insensíveis ao tempo, multiplicando o trabalho.

Um dia, Chico Rei apareceu ao amo com o preço de sua mulher em pepitas de ouro. O fazendeiro aceitou o prêmio e assinou a carta de alforria da negra, que fora uma rainha.

Mais algum tempo, Chico Rei era livre.

Ele e a mulher, ajudados pela fidelidade de uma Corte que a desgraça não apagara em valor, economizavam, noite e dia, o preço da liberdade dos filhos e dos vassalos.

Ano a ano Chico Rei retirava da massa cativa homens e mulheres, restituindo ao trabalho livre seus velhos companheiros de armas e de caçadas.

Uma a um, reconstruía-se o reino perdido, agora nas terras americanas.

Comprou ele uma lata de terra na Encardideira. A terra era uma mina de ouro.

Chico Rei ficou rico, e o ouro ampliou os limites do seu domínio que era a reunião de homens livres, presos por um liame de veneração e de esperança.

Rei de manto e coroa, aclamado nas festas de Nossa Senhora do Rosário, Chico Rei era realmente um Soberano, com o poder de um direito que fora conquistado com lágrimas, sofrimentos e martírios.

Nenhuma autoridade era superior à sua voz, voz de Rei no mando, sem esquecer os anos igualitários no eito da escravidão.

Negros e negras viviam com conforto e tinham alegrias trovejantes nos bailes populares, nos batuques que se estiravam pelas noites, no círculo sem-fim das danças-ginásticas e coletivas.

No dia 6 de janeiro, da Encardideira, vinha aquele Reino da África, vistoso, empenachado, rutilante de pedrarias, bailando pelas calçadas de Vila Rica, a Outro Preto, aristocrática, povoada de igrejas e de palácios, em louvor da Padroeira dos Escravos.

A Rainha, suas filhas e damas de honor traziam a carapinha empoada de ouro.

Depois da Missa, da Procissão, dos bailados públicos, antes que voltassem ao Reino que se erguia, disciplinado e tranquilo, na Encardideira, Rainha e vassalas banhavam a cabeça na pia de pedra que há no Alto da Cruz.

No fundo da taça, brilhando na água trêmula, ficava todo o ouro que enfeitara os penteados. Novos escravos iam sair do cativeiro, resgatados por aquela dádiva singular.

Por isso ninguém esquece, nas terras livres das Minas Gerais, a fisionomia de Chico Rei, o negro soberano, vencedor do destino, fundador de tronos, pela persistência, serenidade e confiança nos recursos eternos do trabalho.
A Lenda de Itararé
Em tempos idos a nação indígena que vivia às margens do Paranapanema resolveu abandonar a região, escapando assim às atrocidades praticadas pelos brancos invasores.

Uma noite, porém, já em viagem, quando despertaram, estavam os índios completamente cercados e só à força de tacape conseguiram abrir caminho por entre os adversários; mas, na fuga, uma das mulheres mais formosas da aldeia – Jaíra - caiu sob o poder do chefe do bando contrário, homem forte e valoroso.

Reuniram-se as nações indígenas convocadas, e durante uma lua inteira se prepararam para a guerra. Efetuaram a festa do preparo do curare, também chamado uirari.

Era a mulher mais velha da aldeia quem tinha a honra de preparar o veneno; vestia-se com penas vermelhas, escutava o canto dos pajés e partia para o mato, de onde voltava carregada de ervas. 

Quando o curare ficava pronto, os vapores da panela subiam; ela os aspirava e caía morta. Assim se fez.
A Lenda de Itararé
Depois de esfriado o curare, começou a dança em torno à panela, ervando todos os guerreiros as suas flechas. Antes de se iniciar a batalha, chegou um velho de muito longe e entrou a aconselhar, secretamente, os   pajés:   na   guerra   contra   os brancos, que usavam armas de fogo, só deviam esperar a morte; eles eram muitos e sabiam defender-se; o que deviam fazer era o seguinte:

- Um dos nossos ocultará, perto do acampamento inimigo, filtros de amor que conhecemos, a fim de o chefe ficar apaixonado por Jaíra, e após deverá apresentar-se aos brancos como desertor da aldeia, para trabalhar com eles. 

Assim terá oportunidade de falar com ela e entregar-lhe drogas preparadas. E um dia, quando todos estiverem adormecidos pelo ariru, servido no banquete, os guerreiros indígenas, em massa, atacarão subitamente os inimigos, de tacape em punho. Não escapará nenhum dos brancos, cujos cadáveres serão lançados aos corvos.

Tal plano foi aceito pelos pajés.

No dia seguinte partiu o guerreiro, levando os filtros de amor, mas os índios em vão esperaram (como estava combinado) pelo canto da saracuara, três vezes em noite de lua nova.

É que o chefe se apaixonara pela linda bugra, e Jaíra também se apaixonara pelo moço, de modo que o guerreiro enviado regressou sem nada haver conseguido.

O tenente Antônio de Sá (assim se chamava o chefe) era casado e residia em Santos, e quando sua esposa soube do amor que o ligava a Jaíra, fez que seu pai a conduzisse ao acampamento dos brancos, onde ela chegou, uma tarde, com muitos pajens e comitiva luzida.

Houve disputa entre os esposos, e, no dia seguinte, Jaíra, muito desgostosa, resolveu partir, dizendo ao tenente que ia esperá-lo à beira do rio Itararé, a fim de fugirem, à noite, pela floresta. E rematou:

- Quando a lua for descendo pelos morros azuis eu cantarei três vezes como a araponga branca, e, se você não comparecer ao lugar da espera, ligarei os pés com um cipó e me atirarei ao rio.

E pôs-se a caminho, deixando, em lágrimas, o moço.  À noite, ouviu-se três vezes o canto da araponga branca, mas o chefe dos brancos não foi procurar Jaíra.

Medonha e súbita tempestade revolucionou, então, aquela região, caindo raios numerosos que vitimaram muitos bois, reduzindo bastante os animais do tenente Antônio de Sá.

Ao amanhecer, o chefe foi a cavalo, acompanhado por um pajem, à pedra indicada por Jaíra, mas só achou ali a roupa da infeliz criatura, com uma coroa de flores de maracujá do mato, em cima. O tenente soltou um grito de desespero, e ficou tão alucinado, que se lançou à corrente e não veio mais a terra.

A senhora branca soube do ocorrido, dirigiu-se a cavalo ao rio, onde só viu a roupa de Jaíra e o lugar em que sucumbira o esposo, e em pranto, a vociferar, amaldiçoou o rio em que cuspiu três vezes. 

Então as águas cavaram o solo e se esconderam no fundo da terra, os peixes ficaram cegos, a mata fanou-se e morreu!...

Contam que quem descia, de noite, à gruta de Itararé veria Jaíra, vestida de branco, com a grinalda de flores de maracujá, tendo ao colo o corpo do moço que morrera por ela. Às vezes, a sua sombra vinha à beira da estrada, matava os viajantes, tirava-lhes o sangue e com ele ia ver se reanimava o seu morto querido.

Dizem, em   época   mais   recente, que   a penitência já se acabou; e um dia, quando menos se esperar, as águas do rio hão de abrir de novo as suas margens e hão de espalhar-se pela terra, para refletir, à noite, o fulgor de todas as estrelas.
A Missa dos Mortos
A Missa dos Mortos
A missa dos mortos é uma das lendas mais tradicionais do Brasil. Existe um registro muito popular de fatos dessa natureza que aconteceram na Cidade de Ouro Preto, em Minas Gerais, no começo do século XX, por volta de 1900. O caso todo ocorreu numa pequena Igreja que ficava ao lado de um cemitério, e esta era a Igreja de Nossa Senhora das Mercês de Cima.

De todas as coisas,  porém,  capazes  de arrepiar cabelo, e que ouvi em minha infância ouro- pretana,  nenhuma  tão  tremenda  como  a  Missa  dos Mortos, na Igreja das Mercês de Cima.

Quem m'a contou é pessoa conhecida em toda a cidade  de  Ouro  Preto,  e  exercia  funções incompatíveis  com  o  uso  da  falsidade  em  suas informações.

Foi  João  Leite,  o  saudoso  João  Leite,  pardo, miudinho,  anguloso,  sempre  montado  em  seu cavalinho  branco,  minúscula  montaria  de  hábitos austeros,  que  se  contentava  de  viver  da  escassa relva do adro da Igreja.

Seria  possível  que  uma  pessoa  estimável  e honesta como João Leite, sacristão de confiança de uma  irmandade,  zelador  de  um  templo,  tivesse coragem  de  depois  de  pregar  uma  mentira envolvendo  mortos  respeitáveis,  fosse tranquilamente  dormir  na  sacristia,  tendo  ao  lado um cemitério?

Tenho  dúvidas.  João  Leite  era  ele  próprio  uma figura  mista,  metade  deste  mundo,  metade  do outro.

Suas  origens  eram  misteriosas.  Foi  enjeitado, com  horas  de  nascido,  à  porta  da  Santa  Casa,  em época que não se sabe. Não se sabe, ainda, quando começou a funcionar como sacristão das Mercês. As mais  velhas  pessoas  da  cidade  já  o  conheciam desde  criança,  nesse  mister,  com  a  mesma  cara, sempre com o mesmo cavalinho branco.

Quando  alguém  indagava  de  João  Leite  suas origens  ou  o  tempo  que  servia  Nossa  Senhora  das Mercês,  em  sua  Igreja,  João  Leite  sorria  e  não respondia  nada  Um  belo  dia,  há  alguns  anos,  foi encontrado  morto  diante  do  altar-mor,  deitado  no chão,  com  as  mãos  sobre  o  peito,  arrumadinho como se estivesse dentro de um caixão. O cavalinho branco  sumiu  sem  que  dele  ninguém  desse notícias.

Pois João Leite, segundo narrativa que lhe ouvi, já lá vão mais de trinta anos, assistiu a uma Missa dos Mortos.

Morando  na  sacristia  do  templo  cuja  conserva lhe  era  confiada,  achava-se  recolhido  altas  horas da noite, quando ouviu bulha na capela.

A  noite  era  fria  e  João  Leite  estava  com  a cabeça  coberta  para  esquentar-se  melhor. Descobriu-a e abrindo os olhos viu claridade.

Seriam  ladrões?  Mas  a  Igreja  era  pobre  e qualquer  ladrão,  por  mais  estúpido  que  fosse, saberia que a Igreja das Mercês, sendo paupérrima, não  dispunha  de  prataria,  de  qualquer  outra  coisa de  valor  mercantil.  Enfim,  podia  ser,  raciocinou João Leite.

Estava  nessa  dúvida  quando  ouviu  sussurrado por  vozes  cavas  em  coro,  o  "Deus  vos  salve"  do começo da ladainha.

Ergueu-se e foi resolutamente pelo corredor até a  porta  que  dá  para  a  nave.  A  Igreja  estava  toda iluminada,  altares,  lustres;  e  completamente  cheia de fiéis.

No  altar-mor,  um  sacerdote  paramentado celebrava missa.

João  Leite  estranhou  a  nuca  do  padre,  muito branca,  não  se  lembrando  de  calvície  tão  completa no clero de Ouro Preto.

Os fiéis que enchiam a nave trajavam todos de preto,  e  entre  eles  alguns  de  cogulas,  e  algumas senhoras  com  o  hábito  das  Mercês;  todos  de cabeças baixas.

Quando o Padre celebrante se voltou para dizer o  Dominus  Vobiscum,  João  Leite  verificou  que  era uma  simples  caveira  que  ele  tinha  em  lugar  da cabeça.

Assustou-se,  e  nesse  momento  reparando  nos assistentes,  agora  de  pé,  viu  que  também  eles  não eram mais do que esqueletos vestidos.

Procurou  logo  afastar-se  dali,  e,  caminhando, deu  com  a  porta  que  deitava  para  o  cemitério completamente escancarada.

O  melhor  que  tinha  a  fazer,  fez.  Recolheu-se  à cama,  cobriu  a  cabeça,  transido  de  medo,  e  ficou quietinho  ouvindo  o  sussurro  das  vozes  orando,  o tinir  da  campainha  na  "Consagração"  e  no  Domine nom  sum  dignus,  até  que  voltou  de  novo  o  pesado silêncio das frias noites de Vila Rica.

Informações Complementares sobre a Missa dos Mortos

Nomes comuns: Missa das Almas, Missa das Almas Penadas.

Origem Provável: É sem dúvida originária da Europa. Em Portugal e Espanha, por volta da idade média, já se conheciam lendas com estas. Os romanos antigos acreditavam que os fantasmas dos parentes mortos se reuniam de tempos em tempos. Assim, eles, como também os Mouros espanhóis, celebravam a Festa dos Mortos. O objetivo era espantar os fantasmas errantes dos antepassados. Em Portugal é conhecida como "A Missa das Almas", e na Espanha como "La Misa de las Animas".

No caso brasileiro, é uma lenda muito comum em todo interior do país, embora seja citada como primeiramente relatada em Ouro Preto, Minas Gerais, na Igreja de Nossa Senhora das Mercês de Cima.

Também em Minas Gerais, na cidade de São João Del Rei, na Matriz de N. S. do Pilar, existe um relato semelhante. Nesse caso, aconteceu com uma viúva, moradora do lugar. Ela teria assistido a uma dessas missas e perdeu a noção do tempo. Quando o sino bateu doze vezes, à meia-noite, tudo desapareceu ficando ela sozinha completamente desorientada, e imaginando se tudo aquilo não passara de um sonho, daqueles que parecem a mais pura realidade.

De acordo com a crença de alguns, a pessoa que presencia uma dessas missas, está perto de morrer ou seria um aviso de que vai morrer alguém conhecido dela. Já outros afirmam que é um sinal de longevidade.
Os Potes da Noite - Lenda do surgimento da Noite
Os Potes da Noite
Dizem os índios tembés que outrora o céu não era tão alto como agora, e que um dia os passarinhos e todas as aves do céu, querendo mais espaço para as suas acrobacias, convocaram uma reunião para pôr o assunto em votação. Esse encontro foi quase tão concorrido quanto a famosa Assembleia dos Pássaros, ocorrida lá para as bandas do Oriente, e tinha ave de todos os jeitos, até mesmo criaturas que de aves só tinham as asas, tal como o morcego.

Aliás, o morcego foi o único ser provido de asas que repudiou a ideia de suspender o telhado do céu.

– O céu já não está alto o bastante? – disse ele.

Mas as aves não queriam saber de céu baixo e aprovaram por esmagadora maioria a elevação da abóbada dos céus.

Foi uma trabalheira imensa, mas as aves conseguiram, afinal, erguer o grande telhado azul de tal modo que, a partir dali, sobrou espaço para as piruetas aladas de todos os seres amigos do ar. O morcego, porém, foi punido por sua casmurrice, e desde então passou a dormir de ponta-cabeça.

– De hoje em diante, dormirá com o céu debaixo dos pés! – disse a coruja, ao decretar a sentença.

Mas, se os pássaros estavam felizes com a suspensão do céu, os índios continuavam desgostosos com as coisas do alto. O céu fora suspenso, mas e daí? Nem por isso a claridade diminuíra, já que não havia noite, ainda, em parte alguma do universo. Os tembés não aguentavam mais dormir com luz no rosto, e era preciso fazer alguma coisa para terem, pela primeira vez, uma noite de descanso real.

Até que um dia um velho índio, chegado dos fundos da mata, trouxe uma grande novidade.

– Acabei de descobrir o local onde o mau espírito Azã esconde seus dois grandes potes!

Aquilo parecia história de um velho maluco, mas, mesmo assim, o cacique decidiu tirar a dúvida.

– Está falando dos potes que guardam a noite? – disse ele.
– Sim, sim, eles mesmos! – bradou o velhote, sapateando os pés nus sobre o pó.

No mesmo instante, o cacique organizou uma expedição à mata para arrebatar os dois potes. Eles eram negros como a noite que escondiam e estavam metidos entre os joelhos do velho demônio, que nunca dormia. Quanto mais se aproximavam, mais escutavam o ruído que havia dentro dos potes. É que dentro estavam guardados, além da noite, todos os seres esparrentos que a povoam, tais como os grilos, os sapos e toda a fauna gritona das trevas.

– Tirar os potes do meio das pernas do demônio já se vê que não dá – disse o cacique.

Então, chamando seu arqueiro mais hábil, ordenou-lhe baixinho:

– Vare aqueles dois potes com uma única flechada.

O arqueiro rastejou no musgo até encontrar a posição ideal. Quando teve a certeza de poder espatifar os dois cântaros com uma única flechada, ele abandonou a posição de cobra rastejante e ficou de joelhos; depois, alçou o arco e caprichou bem na mira para só então disparar a seta. Um zum de vento cruzou a mata e passou por entre as pernas do demônio, espatifando um dos vasos (o outro, Azã conseguiu proteger, pois enganava-se quem pensava que ele dormia). De qualquer jeito, um dos potes se espatifara, e seus cacos saltaram na cara do demônio, deixando-o momentaneamente cego.

Com a explosão do primeiro pote, um jato veloz de trevas jorrou para fora e, depois de engolir o demônio e se espalhar por tudo, continuou avançando por toda a selva. Junto com a treva, vinham os habitantes da noite – onças, aranhas, cobras, morcegos, mosquitos e predadores de toda espécie, que se aproveitam da escuridão para espalhar o seu reinado de ter- ror e de sangue.

Ao verem aquilo tudo crescer para cima deles, os índios largaram a correr com quantas pernas tinham, pois a noite se revelara pior, afinal, do que o dia sem fim. Eles só pararam quando chegaram à sua aldeia. Quase junto com eles chegou a noite, e então eles desabaram, exaustos, sobre o chão, pois não havia quem pudesse resistir àquela gostosa escuridão para tirar um bom ronco. Quando estavam, porém, no bom do sono, a barra do dia começou a erguer-se outra vez, e um raio de sol feriu o olho do cacique.

– Danação! Que noite mais curta é esta?

De fato, a noite fora muito curta. Então, ele percebeu que teria de quebrar também o segundo pote, que ainda restara inteiro na selva.

O arqueiro, pressentindo o chamado, apresentou-se, solícito.

– Você não! – disse o morubixaba, expulsando o arqueiro fajuto.

Então mandou chamar o urutau, um dos ajudantes de sua predileção. (Naquele dias, o urutau era ainda um índio, como todos os outros.)

– Vá você até a mata e quebre o segundo pote!

Urutau tomou do arco e se foi, embora pressentisse coisa ruim. Ao chegar perto de Azã, viu que ele ainda esfregava os olhos magoados e aproveitou para arremessar a sua seta sobre o pote.

Resultado: o vaso rachou inteiro, e nova onda de trevas se espalhou por tudo.

Assustado, o índio-urutau abriu o compasso das pernas e começou a correr com toda a energia, mas acabou enredando os pés num emaranhado de cipós, indo dar de cara na relva. Então, antes que pudesse erguer-se, a treva finalmente alcançou-o. O índio deu um grito e cobriu a cabeça com os braços. Quando destapou-se, porém, foi com um par de asas que o fez. Também um bico enorme havia crescido no lugar da boca, e um par de olhos amarelos e arregalados dava agora à sua cara um ar permanente de espanto.

E foi desde este dia que o urutau deixou de ser um índio para converter-se na ave noturna que hoje se conhece. De noite, o urutau grita, e durante o dia não faz outra coisa senão estar empoleirado num galho e acompanhar, de olhos arregalados, a marcha do sol pelos céus.
Como surgiu o Rio Oiapoque
Como surgiu o Oiapoque
Os índios oiampis explicam de maneira melancólica o surgimento do rio Oiapoque, no extremo norte do Brasil.

Tudo começou num tempo muito antigo, quando a fome e a doença estavam afligindo a aldeia dos oiampis. Tarumã, uma bela índia, estava grávida e decidiu procurar um lugar livre da moléstia e da penúria para criar seu filho. Com a barriga pesada, a pequena índia começou sua peregrinação solitária pela mata, mas passados alguns dias sentiu que não teria mais forças para ir a lugar algum.

– Ó, Tupã, não posso mais dar um passo e morrerei com meu filho no ventre! – exclamou ela, sozinha e esfomeada no meio da mata.

Então Tupã, apiedado, transformou-a numa enorme cobra.

Tarumã, convertida nessa cobra, encontrou forças para seguir adiante, levando sempre o filho no ventre, até que, um dia, encontrou um lugar aprazível, onde havia água e terra boa para plantar.

– Aqui haveremos todos de viver! – disse ela, pensando em retornar às pressas para avisar a gente da sua aldeia.

Antes de retornar, porém, ela deu à luz uma menina.

– Graças a Tupã não nasceu uma cobrinha! – disse ela, aninhando nas suas dobras o pequeno ser.

Tarumã refez todo o trajeto com a menina na garupa até chegar de volta à sua aldeia. Entretanto, viu-se surpreendida pela péssima recepção dos seus.

E não era para menos, já que Tarumã ainda ostentava sua figura de cobra gigante.

– É a Cobra-Grande! – disse um índio, apavorado.

Desde tempos imemoriais que os índios amazônicos nutrem um medo atroz da Cobra-Grande, um ser frio e devastador, cujo único propósito é alimentar-se de índios e animais. Imediatamente, um grupo de valentes surgiu com arcos e flechas e começou a arremessar uma verdadeira chuva de setas para cima da pobre índia-cobra.

Tarumã não foi atingida, protegida que estava por suas escamas, mas sua filhinha não teve a mesma sorte e acabou varada por uma flechada certeira.

Ao ver a filha morta, a cobra lançou para o ar um silvo de dor e tristeza tão aterrador que os índios saíram correndo em todas as direções. Imediata- mente, um verdadeiro rio de lágrimas brotou das pupilas da cobra, preenchendo todo o sulco que ela abrira durante a sua viagem de ida e de volta. Um rio imenso formou-se, e a cobra mergulhou nas suas águas caudalosas, desaparecendo para sempre.
O Cego Econômico que Enterrava Dinheiro
O Cego e o Dinheiro Enterrado
Um cego muito econômico guardava suas moedas em casa e, temendo os ladrões, resolveu esconder seu tesouro no quintal.

Cavou um buraco ao pé de uma árvore, debaixo da raiz, e deixou seu dinheiro bem disfarçado.

Sucedeu que um seu vizinho, vendo-o ir tão cedo para o fundo do quintal, acompanhou-o, descobrindo o segredo.

Quando anoiteceu, voltou à árvore e furtou todo o dinheiro que o cego enterrara.

Pela manhã, o dono veio, tateando, verificou ter sido roubado. Como não resolvia chorar ou queixar-se, fingiu não ter sido visitado pelo ladrão e começou a pensar em uma forma de readquirir seu dinheiro sem barulhos.

Foi procurar o vizinho e lhe falou, por aqui assim:

- "Vizinho, nesse tempo ninguém pode ter confiança senão em si mesmo, apesar dos dentes morderem a língua e ambos viverem juntos. Juntei minhas economias e escondi num pé de árvore ali no meu quintal, pensando ser lugar bem seguro. Acabo de receber um dinheiro que emprestara e vim pedir conselho a você. Guardo tudo junto ou levo esse dinheiro para a cidade?"

O vizinho pensou logo e pegar todo o dinheiro do cego e aconselhou-o que deixasse tudo, no mesmo canto já antigo. E Logo que escureceu, correu e foi levar o que tirara na noite anterior, para o cego não desconfiar. Cobriu tudo de areia, alisou e retirou-se. Mais tarde, o cego procurou o cantinho velho e tomou posse do seu dinheiro ali restituído pelo vizinho que sonhava ficar com tudo.

E, quando o ladrão voltou, encontrou apenas o buraco oco, sem um níquel sequer.

CASCUDO, Luis da Camara. Literatura oral no Brasil. Belo Horizonte: Itariaia, 1984. p.303
O Mito do Romãozinho
Filho de negro trabalhador, Romãozinho nasceu vadio e malcriado.

Tinha todos os dentes, fisionomia fechada, hábitos errantes, nenhuma bondade no coração.

Divertimento era maltratar animais e destruir plantas.

Menino absolutamente perverso.

Um meio-dia, a mãe mandou-o levar o almoço para o pai que trabalhava num roçado, distante da casa.

Romãozinho foi de má vontade.

O Mito do Romãozinho
No caminho, parou, abriu a cesta, comeu a galinha inteira, juntou os ossos, recolocou-os na toalhinha, e foi entregar ao pai.

Quando o velho deparou ossos em vez de comida, perguntou que brincadeira sem graça era aquela.
Romãozinho entendeu vingar-se da mãe, que ficara fiando algodão no alpendre da casinha:´

- É o que me deram... Minha mãe comeu a galinha com um homem que aparece lá em casa quando o senhor não está por perto. Pegaram os ossos e disseram que trouxesse. Eu trouxe. É isso aí...

O negro meteu a enxada na terra, largou o serviço e veio correndo. Encontrou a mulher fiando, curvada, absorvida na tarefa.

Dando crédito ao que lhe dissera o filho, puxou a faca e matou-a.

Morrendo, a velha amaldiçoou o filho que estava rindo:

- Não morrerás nunca. Não conhecerás o céu, nem o inferno, nem o descanso enquanto o mundo for mundo...

O marido morreu de arrependimento. Romãozinho desapareceu rindo ainda.

Faz muito tempo que este caso sucedeu em Goiás.

O moleque ainda está vivo e do mesmo tamanho;anda por todas as estradas, fazendo o que não presta; quebra telhas a pedradas, espanta animais, assombra gente, tira galinha do choco, desnorteia quem viaja, espalhando um medo sem forma e sem nome; é pequeno, preto, risonho, sem ter fé nem juízo.

Homens sérios têm visto Romãozinho.

Furtou uma moça na Chapada dos Veadeiros; conversou com o coletor de Cavalcanti; virou fogo azul indo-e-vindo na estrada, perto de Porto Nacional.

Não morrerá nunca enquanto uma pessoa humana existir no mundo.

E, como levantou falso contra a própria mãe, nem mesmo no inferno haverá um lugar para ele...

Mais informações sobre o Romãozinho

Nomes comuns: Romãozinho, Fogo Fátuo, Corpo-Seco.

Origem Provável: A lenda é conhecida no leste Bahia, em toda Goiás, parte do Mato Grosso e também na fronteira do Maranhão com Goiás.

Os primeiros relatos do mito são do distrito de Boa Sorte, município de Pedro Afonso, em Goiás, fronteira do Maranhão, e data do século XX.

Outras versões do conto, dizem que a mãe do menino, fiava algodão no alpendre da casa, quando o marido chegou por trás dela e a matou.

O menino, também vira uma tocha de fogo, que fica indo e vindo pelos caminhos desertos. Alguns dizem que ele é o próprio Corpo-Seco, isto é, alma de gente tão ruim que nem o céu nem o inferno o deixaram entrar, por isso vaga pelo mundo assustando as pessoas.

Alguns estudiosos afirmam que o mito do Saci-Pererê, deu origem a essa lenda.
Lenda da Princesa de Jericoacoara
A exemplo da Alamoa e das Mães do Ouro espalhadas por todo o Brasil, a Princesa de Jericoacoara é outra criatura da estirpe das princesas encantadas, guardiãs de tesouros em grutas ou cavernas, que tanto sucesso fizeram em Portugal, na versão das mouras encantadas.

Habitante do Ceará, ela tem sua morada na cidade que a imortalizou, Jericoacoara. Por artes de algum feitiço, a princesa, outrora bela e deslumbrante, está agora transformada numa serpente.

Lenda da princesa de Jericoacoara

Felizmente, sua cabeça permanece a mesma dos seus dias de beleza, bem como os seus pés.

Para desencantá-la, é preciso a coragem de um homem de verdade, disposto ao martírio, pois somente com o sacrifício de uma vida humana ela poderá retomar sua antiga forma (que se faça um sinal da cruz no dorso da cobra com o sangue do sacrificado é o que basta para o desmanche do feitiço).

Então estarão abertos, como por mágica, os portões da gruta onde se oculta o palácio esplendoroso da princesa, repleto de todas as riquezas concebíveis deste mundo.

A riqueza, entretanto, será para os outros, não para o herói abnegado, a quem caberá apenas a honra eterna de ter liberado a mais linda das princesas do seu fado infeliz.
A Lenda do Tutu Marambá
Irmão do Bicho-Papão e do Boi da Cara Preta, o Tutu Marambá é uma criatura toda negra, sem ter, porém, forma discernível alguma. (A palavra Tutu, segundo Câmara Cascudo, provém do termo africano quitutu, que significa “ogro” ou “papão”.)

Apesar de não ser tão popular quanto o Bicho-Papão, que chegou a virar termo proverbial, o Tutu marambá é senhor dos terrores noturnos infantis na Bahia, em Pernambuco, no Rio de Janeiro e em Minas Gerais.

A lenda do Tutu
Existem várias modalidades da criatura, das quais a mais singular é a do Tutu-zambê, que, além de não possuir forma, não possui também a cabeça.

Na Bahia, por sua vez, o Tutu marambá deixa de ser uma mera sombra para assumir a forma explícita de um porco-do-mato, graças à semelhança dos termos tutu e caititu. (O caititu, ou queixada, é uma espécie de porco selvagem, montaria predileta do Caipora nortista.)

Segundo a crença, o Tutu marambá persegue as crianças arteiras e, principalmente, aquelas que não querem dormir.

O mito, segundo Câmara Cascudo, é importado da Europa e da África. Nossas mães indígenas, ao contrário, preferiam invocar, numa admirável lição de delicadeza, o auxílio dos pássaros ou animais de sono prolongado, a fim de que o emprestassem a seus indiozinhos insones. (Acatipuru, empresta teu sono / para meu filho dormir... / Iacuturu, empresta teu sono / para meu pequeno filho dormir..., diz, como numa oração, o suave acalanto).

Tutu Marambá - Canção Popular

Tutu Marambá não venhas mais cá

Que o pai do menino te manda matar (repete)

Durma neném, que a Cuca logo vem

Papai está na roça e Mamãezinha em Belém

Tutu Marambá não venhas mais cá

Que o pai do menino te manda matar (repete)
A Lenda do Zumbi
A lenda do Zumbi é outra criação brasileira calcada no tipo universalmente conhecido do morto-vivo, embora aqui ele seja um fantasma incorpóreo, e não um cadáver teleguiado, como estamos acostumados a ver nas recorrentes versões cinematográficas.

Apesar disso, tornou-se quase impossível dissociar a imagem de um e de outro, de tal forma que, na mentalidade popular, os dois personagens tornaram-se sósias.

Na versão brasileira, porém, o Zumbi é mais “elétrico” e gosta de dar susto nas pessoas, enquanto o morto-vivo dos filmes, mesmo quando está empenhado em estraçalhar e matar, o faz mergulhado num estado de apatia catatônica.

A Lenda do Zumbi

Zumbi acabou tornando-se emblema, também, do maior herói negro da nossa nacionalidade, o guerreiro Zumbi dos Palmares, que nada tinha de apático.

Diz a nossa crendice – e este é um traço realmente original do nosso Zumbi – que, quanto mais perto a vítima está dele, mais ele cresce em estatura, inclinando-se para diante de uma forma sinistra.

Graças à origem africana do termo – nzumbi, “fantasma” –, o Zumbi é normalmente visto como um homem negro, mas nada impede que possamos ver passeando pelas nossas matas e cidades versões étnicas mais claras do ser amedrontador.

A fama do Zumbi é mais consistente nos estados da Bahia, do Rio, de Minas e de Sergipe.
A Lenda do Capelobo
O Capelobo é um personagem do folclore brasileiro, que possui aparência de monstro.

A lenda do Capelobo é muito comum na região Norte do Brasil, principalmente nos estados do Maranhão, Amazonas e Pará. Acredita-se que tenha surgido entre os povos indígenas da região.

Características e lenda do Capelobo

De acordo com a lenda, seu corpo é uma mistura de ser humano com animais. Desta forma, possui cabeça e focinho de tamanduá-bandeira (ou de cachorro ou de anta, dependendo da versão), corpo humano forte, patas redondas (formato de fundo de garrafa) com muitos pelos no corpo. É muito rápido e vive correndo pelas matas próximas aos rios e em regiões de várzeas.

De acordo com a lenda, o Capelobo tem uma vida ativa durante a noite e madrugada, quando fica perambulando e rodeando barracões, casas e acampamentos no meio da mata. Emitindo sons assustadores (gritos altos), este monstro se alimenta de cães e gatos, principalmente os que acabaram de nascer. Ataca também os caçadores, matando-os e bebendo o sangue das vítimas.

Para matar essa criatura monstruosa, de acordo com a lenda, só existe uma forma: um tiro certeiro em seu umbigo.

Semelhanças do Capelobo com o Lobisomem

A lenda do CapeloboA lenda do Capelobo possui, como vimos, muitas semelhanças com a do Lobisomem. Por isso, alguns folcloristas dizem que ele é uma espécie de lobisomem da região norte do Brasil.

Em algumas tribos indígenas do região do rio Xingu, acredita-se que alguns índios possuem a capacidade de se transformarem em Capelobo.

Acredita-se que o nome deste personagem folclórico seja de origem indígena, sendo uma mistura de capê (osso quebrado) e lobo.
A lenda do Açaí
A lenda do Açaí
O açaí, fruto do açaizeiro, palmeira comum na Amazônia, é conhecido pelos indígenas como “iça-iça”, a fruta que chora.

A lenda do Açaí, o fruto sagrado do povo de Itaki

Reza a Lenda que há muito tempo atrás, quando ainda não existia a cidade de Belém, vivia neste local uma tribo indígena muito grande.

Os alimentos eram escassos e a vida tornava-se cada dia mais difícil com a necessidade de alimentar todos os índios da tribo.

Foi aí que o cacique da tribo, chamado de Itaki tomou uma decisão muito cruel. Ele resolveu que a partir daquele dia todas as crianças que nascessem seriam sacrificadas para evitar o aumento de índios da sua tribo.

Um dia, no entanto, a filha do cacique, que tinha o nome de IAÇÃ, deu à luz uma linda menina, que também teve de ser sacrificada. IAÇÃ ficou desesperada e todas as noites chorava de saudades de sua filhinha.

Durante vários dias, a filha do cacique não saiu de sua tenda.

Em oração, pediu à Tupã que mostrasse ao seu pai uma outra maneira de ajudar seu povo, sem ter que sacrificar as pobres crianças. Depois disso, numa noite de lua, IAÇÃ ouviu um choro de criança. Aproximou-se da porta de sua oca e viu sua filhinha sorridente, ao pé de uma esbelta palmeira. Ficou espantada com a visão, mas logo depois, lançou-se em direção à filha, abraçando-a. Mas, misteriosamente a menina desapareceu.

IAÇÃ ficou inconsolável e chorou muito até desfalecer.

No dia seguinte seu corpo foi encontrado abraçado ao tronco da palmeira. No rosto de IAÇÃ havia um sorriso de felicidade e seus olhos negros fitavam o alto da palmeira, que estava carregada de frutinhos escuros.

O cacique Itaki então, mandou que apanhassem os frutos em alguidar de madeira, o qual amassaram e obtiveram um vinho avermelhado que foi batizado de AÇAÍ, em homenagem a IAÇÃ (invertido é igual a açai).

Com o açaí, o cacique alimentou seu povo e, a partir deste dia, suspendeu sua ordem de sacrificar as crianças.
A Lenda do Quibungo
Segundo a lenda o Quibungo é uma espécie de Bicho-Papão negro, um visitante africano inesperado que acabou por se domiciliar na Bahia, onde passou a fazer parte do folclore local. Trata-se de uma variação do Tutu e da Cuca, cuja principal função era disciplinar, pelo medo, as crianças rebeldes e relutantes em dormir cedo.

O Quibungo faz parte dos contos romanceados, sempre com um episódio trágico ou feliz, mas sem data que o localize no tempo. É um Velho do Saco para os meninos, um temível devorador de crianças, especialmente as desobedientes. Sem dúvida um meio eficaz de cobrar disciplina pela imposição do medo.

A Lenda do Quibungo
Não há nenhum testemunho ocular de sua existência, mas, em meio ao universo infantil, existe como concreto. Dentro dessas histórias tradicionais, contadas para as crianças inquietas ou teimosas, ele se arrasta como um fantasma faminto, como um feroz devorador de meninos e meninas que distanciam dos seus pais.

É personagem da literatura oral afro-brasileira, com cruel voracidade, enorme feiura, brutalidade e inexistente finalidade moral.

O Quibungo é ao mesmo tempo homem e animal. Espécie de lobo ou velho negro maltrapilho e faminto sujo e esfarrapado, um verdadeiro fantasma residente nos maiores temores infantis.

Não nos é possível determinar se nas estórias africanas o Quibungo conserva a forma e os hábitos do seu similar baiano. O Quibungo africano não tem um ciclo temático igual ao brasileiro. Aqui ele assumiu o mesmo papel já atribuídos ao Tutu-Marambá, ao Bicho-preto, ao Macaco-saruê, ao Bicho-cumunjarim, ao Dom Maracujá e ao próprio Zumbi que muitas vezes é sinônimo de Saci-Pererê. Do africano herdou a boca vertical, do nariz ao umbigo ou no dorso, assim como já é o nosso Mapinguari. Na Bahia o Quibungo reina e governa em sua missão de assombro aos pequenos.

Assim, o Quibungo baiano é só baiano, não existe em outros lugares do Brasil. É um bicho meio homem, meio animal, tendo uma cabeça muito grande e também um buraco no meio das costas, que se abre quando ele abaixa a cabeça e se fecha quando levanta. Engole as crianças abaixando a cabeça, abrindo o buraco e jogando-as para dentro. É também um feiticeiro, demônio, lobisomem, macacão, preto velho. No fundo continua sempre a ser um ente estranho e canibal, que prefere a carne tenra das crianças.

Outro ponto digno de menção sobre o Quibungo é sua completa vulnerabilidade. Pode ser atacado por qualquer meio, arma branca ou de fogo. Morre gritando, espavorido, acovardado, como o mais inocente dos monstros que a imaginação infantil dos povos já criou.

Outras informações sobre o Quibungo

Nomes comuns: Kibungo, Chibungo, Quibungo.

Origem Provável: A influência africana é determinante, mas não influenciou que se espalhasse por outros Estados do Brasil. Negros escravos Bantus se espalharam por toda parte. Em Pernambuco ficaram muitos. Mas a lenda do Quibungo não acompanhou estes, nem em Sergipe, onde ficaram outros tantos.

A versão brasileira é originária da Bahia. Os aspectos do personagem baiano brasileiro, difere do africano. Serviu a África apenas como fonte de inspiração. Apesar de ter origem entre os povos negros Bantus que migraram para a Bahia, não se espalhou para os demais estados, mesmo diante do grande afluxo desse povo para outras regiões do país.

O Quibungo se tornou baiano, e assim ainda continua. Se fosse de origem africana sem dúvida acompanharia seus habitantes para onde quer que estes se deslocassem, o que não ocorreu no Brasil. Ele não é citado nas estórias nem do Nordeste, nem do Norte. Ele foi importado da África como protótipo, mas reestruturado pelos brasileiros baianos com base nas crenças locais já existentes.

Desse modo, ele herda aspectos do "Velho do Saco", do Lobisomem, etc. A referência à sua boca às costas, mais lembra o próprio Velho do Saco, que literalmente engolia as crianças pelas costas, uma vez que depois de ensacá-las, jogava o surrão sobre seu dorso e ia embora.

O Homem do Surrão ou "Velho do Saco" faz parte de estórias portuguesas e está em quase toda Europa. É um homem velho, esfarrapado, sujo, muito feio, que procura agarrar as crianças vadias ou descuidadas e metê-las num grande saco de couro, de abertura larga, pronta para este fim.

Não se sabe como morrem as crianças. Se o homem as devora ou mata-as pelo prazer de matá-las. Cada criança que o Homem segura é sacudida no surrão que se fecha. Para este movimento é preciso que o Homem baixe a cabeça. Então o surrão abre-se. Presa a criança, fechado o saco, o Homem ergue a cabeça. São as mesmas atitudes do nosso Quibungo com sua suposta imensa bocarra. Pela descrição, a boca do Quibungo é um saco.

No mais, é mito local, trabalho conjunto afro-brasileiro, uma silhueta disforme e negra que caminha, não nas florestas como o Mapinguari, mas nos contos populares como as histórias da carochinha.
A lenda da pisadeira
A lenda da pisadeira
Você já ouviu falar da lenda da pisadeira? Trata-se do folclore brasileiro que está bastante presente na região do interior de Minas Gerais e São Paulo.
"Esta é ua muié muito magra, que tem os dedos cumprido e seco cum cada unhão! Tem as perna curta, cabelo desgadeiado, quexo revirado pra riba e nari magro munto arcado; sombranceia cerrado e zóio aceso... Quando a gente caba de ciá e vai durmi logo, deitado de costa, ele desce do teiado e senta no peito da gente, arcano... arcano... a boca do estámo... Purisso nunca se deve dexá as criança durmi de costa." (Cornélio Pires. Conversas ao pé do fogo)
A lenda refere-se à uma mulher que seria conhecida como pisadeira. Ela teria uma aparência assustadora, sendo alta, magra e com unhas enormes em dedos bastante compridos e secos. Além disso, teria olhos vermelhos e arregalados, nariz comprido e queixo grande, sendo de baixa estatura. Seus cabelos brancos também fazem parte da descrição, assim como o olhar maligno que transmite, suas gargalhadas assustadoras e seus dentes verdes.

Segundo essa lenda, a pisadeira, que está sempre de chinelos, anda grande parte do tempo pelos telhados das casas, parando em uma delas e ficando a observar o movimento em seu interior. Quando alguém vai dormir de barriga cheia após o jantar, a pisadeira entra em ação, saindo de seu esconderijo e pisando no peito de sua vítima, que fica em estado de paralisia.

A vítima da pisadeira, no entanto, consegue acompanhar tudo de forma consciente, somente paralisada, o que causa um desespero gigantesco, já que não consegue fazer nada para escapar.

Como surgiu a lenda da pisadeira?

Não se sabe ao certo como exatamente a lenda surgiu, mas está diretamente relacionada aos pesadelos e sono conturbado que as pessoas tem quando vão dormir logo depois de fazer uma refeição pesada.

É mito de origem portuguesa que ocorre em São Paulo e parte de Minas Gerais. Entretanto, a crença que uma intervenção maléfica de um fantasma ou demônio seja a causa do pesadelo é comum a quase todos os povos do planeta desde os tempos da Antiguidade. Em Portugal, é o fradinho da mão furada. No Nordeste brasileiro, os sertanejos acreditam numa velha ou num velho de barba branca que vem lhes arranhar o rosto durante o sono.

Referências bibliográficas:

· Pires, Cornélio. Conversas ao pé do fogo. 3ª ed. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1927, p.152-153
A Lenda do Furto do Fogo
Segundo os índios tembés, nos tempos míticos o fogo tinha um único dono: o urubu-rei. Como o urubu era muito avaro da sua preciosidade, os índios não podiam fazer uso de chama alguma, e quando queriam comer carne só lhes restava o expediente de expô-la longamente ao sol.

Isso foi até o dia em que um índio mais destemido resolveu dar um fim àquilo.

– Vamos atrair o urubu-rei e a sua tropa inteira – disse ele, matando uma anta enorme.

Depois de sangrarem bem o bicho, eles deixaram o cadáver exposto ao sol, para atrair os urubus.
Não demorou muito e o urubu-rei, atraído pelo fedor da carniça, desceu sobre a anta.

A lenda do furto do fogo
– Viva, temos hoje banquete farto! Vamos lá, companheiros, há carniça para todos! – disse ele, dando um grasnido.

Logo o céu anoiteceu com a chegada de uma verdadeira nuvem de urubus. A bicharada caiu sobre a anta, mas alguém teve a ideia de acender um fogo e preparar a carne na grelha, ou no moquém, como se diz entre os índios.

– Carne moqueada também tem lá suas delícias! – disse o urubu-rei, retirando de debaixo da asa negra um tição muito bem escondido para acender a grelha.

Os urubus, naquele tempo, tinham o dom de se transformar em gente e, assim, antes de se lançarem à comilança, despiram as asas e ficaram com a aparência de homens (daí, talvez, o gosto que tinham em assar a carne, ao invés de comerem-na crua, como hoje normalmente fazem).

– Ufa! Que calorão! – disse o urubu-rei, despindo o manto de penas. Nus feito gente, os urubus atiraram-se finalmente à carne, e justo neste instante, irrompendo de dentro da mata, surgiram os índios, de olho aceso no fogo que ardia na grelha.

– Depressa! Apanhem um tição! – gritou o velho pajé, organizador do assalto.

Um grito de alerta do urubu que vigiava avisou, entretanto, os demais, e logo todos vestiram seus mantos negros de penas e levantaram voo estabanadamente. Antes de partir, o urubu-rei tomou a última fagulha que ar- dia na grelha e, depois de ocultá-la debaixo da asa, juntou-se às demais aves no céu.

O pajé correu alucinadamente até a grelha, remexeu no borralho e encontrou um último caquinho de carvão, com uma listrinha laranja correndo pra lá e pra cá.

– Aqui! Aqui! – gritou ele aos demais. – Vamos, assoprem, não deixem apagar!

Quinze bocas cercaram o carvãozinho e começaram a assoprá-lo agoniadamente, mas o fizeram com tanta força que a listrinha laranja acabou por se finar, e o carvão nunca mais se acendeu.

– Idiotas! – exclamou o pajé, irado.

Quando se acalmou um pouco, porém, viu que a anta ainda estava quase inteira.

– Eles voltarão logo – disse ele, animando-se outra vez. – Desta vez, vou ficar bem próximo da grelha, e vocês desapareçam e só surjam quando eu ordenar o ataque!

Os tembés fizeram como o pajé ordenara, enquanto ele tratava de cavar um buraco bem ao lado da carniça a fim de se enfiar ali dentro. O mau cheiro da anta decomposta era insuportável, mas quem disse que furtar fogo era coisa fácil e prazenteira?

Dali a pouco, os urubus voltaram, loucos de fome. Após despirem seus casacos pretos, que fediam mais do que a carniça, reacenderam o fogo e re- começaram a banquetear-se.

Enquanto comiam, o pajé aproveitou para irromper da sua toca, ágil como uma marmota, e meteu a mão dentro da grelha para apanhar um tição.

Assustados, os urubus apanharam suas vestes e levantaram voo outra vez. O urubu-rei ainda tentou resgatar o tição, ou pelo menos extingui-lo na mão do pajé, fazendo uma ventania danada com as asas, mas o velho índio cerrara os dedos com tanta força que nem um furacão teria como apagá-lo.

No fim de tudo, os urubus sumiram nos céus, e o pajé viu-se dono do tição, que ainda ardia em sua mão. Que Anhangá o carregasse se aquilo não ardia como cem mil espetadas!

Como um Prometeu enlouquecido, o pajé tratou de atear fogo em to- das as árvores de lenho incandescente que encontrava, a fim de preservar a chama, e teria colocado fogo na mata inteira se os demais índios não tivessem corrido para apagar aquelas labaredas todas.
A lenda de Konewó e as onças
A lenda de Konewó e as onças
E já que se falou  de onças, nada melhor do que referir algumas disputas de Konewó contra as onças, pois os taulipangs, especialmente as crianças, parecem adorá-las com seu ritmo ágil de desenho animado.

Konewó é um índio que parecia ter nascido para disputar com as bichanas. Certo dia, ele estava sentado, encostado a uma árvore, quando uma onça chegou e perguntou:

– Por que está aí sentado, a escorar esta árvore?
– Para que ela não caia – respondeu Konewó, secamente. – Todas as árvores estão por cair. Por que não faz o mesmo que eu com aquela outra árvore ali?

A onça viu uma árvore que parecia prestes a ruir e achou que seria uma boa distração ficar escorando-a, pois não tinha nada melhor para fazer.

Depois de encostar-se ao tronco, a onça fechou os olhos, sentindo-se vagamente virtuosa.
“De vez em quando é bom ser útil”, pensou, vaidosa da sua virtude.

Mas a virtude logo transformou-se em sono, e, quando a onça começou a roncar, Konewó ergueu-se e, ligeirinho, amarrou-a ao tronco com cordas trançadas de cipó.

Konewó desapareceu, a reprimir o riso, e a onça só acordou algumas horas depois, completamente imobilizada.

Os dias se passaram e ela já estava quase morta de fome quando um macaco surgiu.

– O que faz aí, toda amarrada à árvore?
– Fui amarrada, não está vendo? – rugiu a fera. – Vamos, solte-me já!
– Ah, isso eu não faço, não! Se soltá-la, você me come!
– Não comerei, dou-lhe minha palavra!

O macaco não foi muito atrás da onça, e ela precisou insistir várias vezes para que ele finalmente se decidisse a arriscar o pelo. Com toda a cautela, ele desamarrou a onça, e só por isso escapou vivo. Atento, assim que viu a pata peluda eriçar as unhas na sua direção, deu um pulo para longe.

O macaco desapareceu dentro da mata, enquanto a onça ficou maquin- ando a sua vingança contra o índio que a aprisionara. Depois de andar muito, farejando o rastro de Konewó, ela finalmente encontrou o seu de- safeto, desta vez escorado numa rocha.

– Ah! Aí está você! – disse ela, pulando à frente do índio. – Desta vez você me paga!
Konewó olhou serenamente para a onça.
– O que quer? – disse ele, friamente.
– Vingança!

Ao observar, porém, a calma do índio, a onça não pôde deixar de perguntar-lhe:

– Ei! O que faz escorado aí nesse pedregulho?
– Estou impedindo que ele caia. Todos os rochedos estão por cair. Konewó, então, olhou para o lado e apontou outro rochedo dez vezes maior.
– Se você fosse uma onça realmente útil, faria como eu, impedindo que aquele rochedo caia.
Uma espécie de nuvem estúpida desceu sobre a mente da onça, obrigando-a a ir tomar o seu lugar, mas assim que ela o fez, o índio ergueu- se.
– Espere aí, sabichão, onde pensa que vai? – gritou ela.
– Tive uma excelente ideia para poupar-me trabalho. Vou procurar um tronco para fazer uma escora e assim livrar-me de ficar o resto da vida escor- ando a minha pedra.

A onça sentiu o pedregulho chacoalhar às suas costas e deu um grito:

–Traga uma escora para mim também!

Konewó sumiu e nunca mais apareceu com escora alguma. Quanto à onça, das duas uma: ou está lá até hoje, escorando o pedregulho, ou termin- ou sepultada viva pelo desabamento.

Konewó também gostava de passar a conversa nos homens brancos, pois era crença de muitos índios que as onças haviam sido gente antes de virarem o que são hoje.

Certo dia Konewó achou um gambá e introduziu debaixo do seu rabo um punhado de moedas de prata. Depois, andando por ali, cruzou com um homem branco carregando uma rede novinha em folha.

– Bela rede! – disse Konewó. – Quer trocá-la por um gambá que bota moedas de prata?
– Está me achando com cara de bobo, é?

Então, Konewó apertou a barriga do gambá, e as moedas saltaram por debaixo do rabo.
O homem branco ficou pasmo.

– E esse fedorento faz isso muitas vezes por dia? – perguntou ele.
– Quantas vezes lhe apertarem o ventre – respondeu o índio, apertando outra vez o bucho do gambá.

As moedas saltaram outra vez, e o homem branco fez o negócio na hora.
Assim que o índio afastou-se, o homem branco ergueu o rabo do gambá e quase enfiou o olho lá dentro.

– Vamos ver isto! – disse ele, apertando com toda a força a barriga do coitado.

Só que, desta vez, a única coisa que espirrou foi um jato fedorento de fezes.

Mais adiante, Konewó aplicou um golpe parecido em outro civilizado. Depois de pendurar algumas moedas em alguns galhos de uma árvore, chamou o primeiro que enxergou.

– Veja, homem branco, esta árvore dá dinheiro! – disse ele.

O homem embasbacou-se. Ele estava cheio de mercadorias que at- raíram a cobiça do índio.

– Se você me der todas as suas mercadorias, entrego a você esta árvore mágica.

O homem branco olhou para o seu farnel e depois para a árvore, ainda em dúvida.
– Quantas vezes por ano ela dá moedas assim? Estou vendo poucas ali.
– É que estou no fim da colheita – disse o índio. – Mas não se pre- ocupe, pois esta árvore dá moedas o ano todo. Esta já é a décima colheita!

Fechado o negócio, o índio tratou de pegar o dinheiro e dar o fora, en- quanto o homem branco olhava para a meia dúzia de moedas penduradas nos galhos altos. Impaciente, ele começou a chacoalhar o tronco, e duas moedinhas caíram junto com uma porção de folhas.

Ainda mais impaciente, ele continuou a chacoalhar até que um galho despencou e quase rachou a sua cabeça, e isto foi tudo que ele viu cair, de- pois do primeiro chacoalhão, da árvore amaldiçoada.

Mas os golpes prediletos de Konewó eram aplicados mesmo às onças. Certo dia, ele estava sentado à beira de um rio de águas profundas quando uma onça surgiu por detrás.

– Que faz aí, bobão? – disse a onça, mais curiosa do que esfomeada.
– Estou pensando em mergulhar no rio para apanhar aquele bolo de tapioca que está lá no fundo.
Konewó apontou para o reflexo da lua sobre a água.

– Então vá – disse a onça, desconfiada. – Quero ver se consegue apanhá-lo!
Konewó tinha escondido debaixo da tanga um pedaço de bolo e mergulhou para logo em seguida retornar.
– Ah, aqui está! – disse ele, dando uma dentada no bolo.

A onça lambeu os beiços, mas o índio enfiou ligeiro o resto na boca.

– Por que não trouxe o bolo inteiro? – disse a onça, frustrada.
– Acontece que sou muito leve – respondeu o índio. – Por que você, que é mais pesada, não desce e traz o restante do bolo?

A onça estava tão ávida por provar aquela delícia que aceitou na hora o desafio.

– Amarre esta pedra ao pescoço – disse o índio. – Ela a ajudará a descer mais rápido, pois há muita correnteza nestas águas.

A onça aceitou, e depois de ter o pedregulho bem amarrado ao pescoço, mergulhou. Quando chegou ao fundo do rio, porém, constatou que não havia bolo algum por ali. Olhou para cima e viu que o bolo – ou a lua – agora estava boiando na superfície.
E essa foi a última coisa que a desgraçada viu antes de morrer afogada.

Mais uma com onça…

Konewó ia andando na mata quando viu uma trilha de antas. No mesmo instante, uma onça surgiu.
– O que espia aí? – perguntou a bichana.
– Não está vendo? – respondeu o índio. – É o rastro de uma anta gorda.
A onça lambeu-se três vezes antes de voltar a falar.
– Acha que está longe?
– Que nada! Veja, o rastro ainda está fresco!
– Então deixe comigo! – disse a onça, preparando-se para uma boa corrida.
– Não, espere, tenho um plano melhor – disse Konewó. – Está vendo aquele morro elevado e coberto de vegetação? Foi por lá que ela se escondeu. Eu vou atrás dela, e você fica aqui embaixo. Vou assustá-la e encaminhá-la bem na direção da sua boca.

A onça adorou a ideia e foi colocar-se na base do morro, enquanto o índio o escalava. Ao chegar ao topo, Konewó encontrou um pedregulho enorme e rolou-o até o começo da descida.
– Aí vai a anta! – gritou o índio.

Ao escutar o ruído de algo pesado descendo, a onça firmou-se nas pernas.

– Que anta enorme deve ser! – disse ela, lambendo os bigodes.

De repente, porém, surgiu do matagal inclinado o pedregulho enorme, a rolar furiosamente, e passou por cima da onça, deixando-a esmigalhada e fininha como um tapete.

E esse foi o fim de mais uma onça.

Uma última…

Konewó estava sentado em um galho elevado de uma enorme árvore. Ele havia encontrado uma colmeia e estava se deliciando com o mel quando uma onça chegou e perguntou:
– Que faz aí?
– Estou saboreando esta delícia – disse Konewó, lambendo os dedos dourados de mel.
– Também quero! – disse a onça, apaixonada por mel.
– Então, façamos o seguinte: eu desço e corto a árvore. Quando ela cair, você apara a colmeia nos braços e fica o resto do dia se deliciando.

A onça topou e ficou aguardando enquanto o índio metia o machado na árvore.

Quando a árvore finalmente começou a inclinar-se, a onça fez menção de sair correndo.

– Idiota, fique no lugar! – berrou Konewó. – Apare a colmeia, senão ela vai se estraçalhar.

A onça se encheu de coragem e esticou os braços na direção da col- meia. Só que atrás dela vinha a árvore inteira, e foi assim que a pobre felina viu-se esmagada e coberta de picadas de abelhas.
Konewó, segundo a lenda, teve um fim grotesco, mas que o amor ao saber obriga a contar.

Certo dia, ele estava se aliviando, no alto de uma árvore, quando um besouro vira-bosta aproximou-se, lá embaixo. Konewó olhou para o serzinho e disse, apiedado:

– Gostou? Aqui dentro tem muito mais! – disse ele, apontando para o traseiro.

O vira-bosta subiu, entrou-lhe traseiro adentro e comeu o resto da porcaria, e junto com ela as tripas e tudo mais, dando um fim miserável ao maior tapeador de onças já surgido nas matas brasileiras.
A Cabeça Que Virou Lua

A Cabeça Que Virou LuaOs índios kaxináuas explicam de uma maneira realmente curiosa o surgimento da lua.

A história começa com uma caçada à cutia, um roedor das matas. Dois índios haviam acabado de caçá-la e retornavam à oca de um deles.

– Hoje irei apresentá-lo à minha mulher – disse o primeiro. Quando chegaram diante da oca, porém, o solteiro não quis entrar.

– Tenho vergonha de apresentar-me assim – disse ele, todo suado e despenteado.

O dono da casa mandou ele esperar ali fora e retornou em seguida com alguns itens de higiene. O índio tímido deu uma limpada no suor, ajeitou os cabelos e colocou alguns enfeites.

– Pronto, está perfeitamente apresentável – disse o anfitrião, introduzindo o amigo na oca.

O marido ordenou rispidamente à esposa que desse de comer ao amigo.

– Dê-lhe toda comida que houver! Quero que coma até estourar!

A jovem índia trouxe um alguidar repleto de comida. Havia mingau, macaxeira, bananas de todos os tipos, cruas e assadas, inhame, pipoca e um mundo de outras comidas.

O visitante comeu o quanto pôde e depois guardou o resto num farnel para levar para casa.

– Muito obrigado pela acolhida, mas já é tarde e devo partir – disse ele, afinal.

– Vou com você – disse o anfitrião, tomando um facão antes de sair.

– Para que o facão?

– Vou cortar madeira. Estou fazendo uma enxada e preciso de um cabo.

Os dois partiram e, no meio do caminho, o anfitrião desfez todas as

gentilezas ao cortar fora a cabeça do outro, sem qualquer explicação.

A cabeça rolou pelo chão, mas o corpo permaneceu em pé, recusando- se a morrer. Enraivecido, o matador caiu de facão sobre o corpo até prostrá-lo sem vida.

Enquanto isso, a cabeça, embora caída sobre o solo, permanecia viva.

– Que está olhando? – rugiu o matador.

A cabeça não disse nada, mas as pálpebras bateram várias vezes.

Diante do que julgou uma afronta, o matador cortou um pedaço de pau com o facão, aguçou-o e enfiou a cabeça na ponta. Depois, colocou o marco macabro bem no meio do caminho e deu no pé.

Logo em seguida surgiu outro índio, também caçador, que tomou um grande susto ao ver aquela cabeça espetada na encruzilhada.

– Quero ver direito o que é isto! – disse ele, indo pé ante pé.

Ao chegar mais perto, viu que a cabeça ainda batia as pálpebras, derramando lágrimas enormes, e seu coração encheu-se de terror.

– Anhangá! – gritou ele, certo de estar diante de uma visagem. Enquanto fugia, porém, deu-se conta de que aquela cabeça pertencia a um membro de sua tribo e foi correndo contar aos restantes.

– Nosso irmão foi morto, e sua cabeça jaz espetada no meio da mata! Ao saberem da notícia, todos da tribo juntaram-se e foram ver o prodígio. Uma multidão de índios cercou a cabeça como se fossem consulentes ávidos de um oráculo das matas. Só que a boca, apesar de bater os lábios, não conseguia emitir uma única palavra.

Então um índio mais destemido arrancou a cabeça do poste e atirou-a num cesto.

– Vamos embora, na aldeia veremos o que se há de fazer! – disse ele, partindo.

Os índios seguiram atrás do valentão do cesto, até que, dados alguns passos, a cabeça varou a parte de baixo do samburá e caiu quicando no chão. Os que vinham atrás começaram a pular, esquivando-se da cabeça como se fosse de fogo, até que ela parou de rolar ao alcançar um barranco.

– Vamos, coloque-a em outro cesto! – disse o líder.

A cabeça foi acomodada e a procissão recomeçou, até o instante em que a cabeça, a poder de dentadas, arrombou a trama do fundo outra vez. Uma nova e frenética dança recomeçou até alguém sugerir que deveriam retornar para enterrar o tronco do índio morto.

– Enterrado o corpo, a cabeça sossega – disse o sabichão.

Quatro índios retornaram e enterraram o corpo. Ao voltarem, porém, para a companhia dos demais, encontraram-nos aos pulos, pois agora a cabeça, além de quicar, queria morder a todos.

– Coloque-a num cesto forrado e leve-a nas costas! – gritou o chefe a um índio parrudo.

O índio fez o que o chefe mandara, e a comitiva retomou a marcha.

De repente, porém, escutou-se um berro agoniado. Todos voltaram-se e viram, estarrecidos, a cabeça ensandecida com os dentes na orelha do índio.

– Socorro, acudam! – guinchava o pobre coitado. Então, o chefe tomou uma decisão realmente sábia.

– Deixem essa cabeça aí mesmo! Ela deve estar amaldiçoada e só irá espalhar malefícios pela aldeia!

Todos concordaram a uma só voz, menos a cabeça, que ao ver-se só e abandonada começou a quicar velozmente atrás deles.

Então, foi um espalhar de índios em todas as direções. Alguns buscaram a salvação ao avistarem um rio de águas revoltas

– Mergulhemos! Cabeça nenhuma sabe nadar!

Todos caíram na água e bracejaram com fúria até alcançarem a outra margem. Estirados na relva, ensopados e sem fôlego, eles relancearam um olhar para a correnteza do rio.

– É ela! – gritou um deles. – Anhangá vem vindo!

E vinha mesmo. Fazendo das orelhas duas nadadeiras, a cabeça avançava velozmente, espalhando água para todos os lados.

Então os índios reuniram o que lhes restava de fôlego e treparam, com a agilidade de onças, num pé de bacupari. Lá do alto eles viram quando a cabeça, após sair da água, sacudindo-se e cuspindo água como um chafariz, começou a rolar sinistramente até a base da árvore.

Naquela árvore havia, agora, mais índios do que frutos dependurados.

– Desçam ou sacudirei esta porcaria até caírem todos! – rugiu a cabeça, adquirindo, subitamente, o dom da fala.

Ao ver que ninguém a obedecia, a cabeça começou a dar marradas no tronco, como um cabrito, enquanto os índios balançavam no alto como folhas num vendaval.

De repente, porém, a cabeça parou, talvez meio tonta com tudo aquilo.

– Antes de descerem, deem-me algumas frutas, pois fiquei com fome!

– gritou ela.

Instantaneamente começaram a chover frutos sobre a cabeça esfomeada. Ela deu algumas dentadas nos frutos, mas cuspiu tudo, enojada.

– Pfúi! Estão verdes! Deem-me os maduros!

Desses, ela gostou. Pena que, ao engoli-los, eles lhe saíam pelo pescoço cortado, sem nunca matar-lhe a fome. Mesmo assim, continuava comendo- os.

Então, um dos índios trepados teve uma boa ideia.

– Joguem longe os frutos! Assim poderemos fugir enquanto ela vai buscá-los!

Os frutos foram arremessados o mais longe possível, e a cabeça saiu rolando para apanhá-los.

– É agora! – gritou o autor da ideia.

Numa só vez, despencaram todos os índios. Nem bem seus pés haviam tocado o solo, puseram-se a correr para a aldeia feito lunáticos. Ao chegarem lá, encerraram-se todos em suas ocas e ficaram esperando o pior, que era a chegada da cabeça maldita.

Todos espiavam por entre as frestas das ocas, até que se escutou, cada vez mais nítido, um tum-tum-tum sinistro crescer de dentro da mata.

– Anhangá! É ela! – gritaram vozes esganiçadas de todos os sexos.

A cabeça finalmente surgiu e foi postar-se no centro da taba. Apenas algumas tochas iluminavam o tétrico cenário, pois naquele tempo ainda não havia luminária alguma nos céus.

– Toleirões! Se não me deixarem entrar em suas ocas vou lançar uma maldição que vai reduzir sua aldeia a cinzas!

O silêncio, porém, permaneceu, e então a cabeça passou a gritar uma mistura incoerente de promessas e ameaças, que só serviu para aterrorizar ainda mais os índios.

– Não me deixarão entrar, então, malditos? Pois saibam que, a partir de hoje, subirei aos céus e me converterei na lua! Minha cabeça será a lua, e meus olhos, as estrelas! Aparecerei em quartos, e quando fizer minha primeira aparição as mulheres sangrarão, e quando estiver completa nos céus os cães e os doidos se porão a uivar para mim!

Neste instante, um urubu desceu dos céus, farfalhando suas asas negras. Depois de enterrar suas unhas aduncas nos cabelos desgrenhados da cabeça, a ave subiu, levando-a consigo.

Todos viram, abandonando suas ocas, quando o urubu gigante depositou a cabeça no alto do céu. Imediatamente ela começou a fosforescer em prateado, e das suas órbitas espocaram milhares de faíscas da mesma cor que, após se espalharem por todos os quadrantes, se converteram em estrelas.

E foi assim que, segundo os kaxináuas, a lua surgiu.

Leia também: O surgimento da noite

O surgimento da noite

O surgimento da noiteAlgumas tribos amazônicas creem que no começo dos tempos só havia dia. Era sol de manhã, sol de tarde e sol de noite, e só quando as nuvens apareciam é que se tinha um descanso para tanta luz e calor.

Mas mesmo sem sol, continuava sempre dia. É que a noite, diziam eles, estava adormecida no fundo do rio Amazonas, e até ali ninguém se animara a despertá-la.

Naqueles dias, a Cobra-Grande, um dos personagens mais importantes do folclore amazônico, não só vivia à solta por aí como também tinha uma linda filha.

O esposo dessa jovem andava muito chateado, pois ela não queria dormir com ele de jeito nenhum. A desculpa da esposa era sempre a mesma:

– Deitar por que, se ainda não é noite?

O pobre tentava argumentar, dizendo que não seria nunca noite, mas não tinha jeito.

– Só deito quando anoitecer – teimava ela.

– Mas e quem vai despertar a noite do fundo das águas?

– Minha mãe sabe o segredo. Mande alguém até lá buscar um coco de tucumã.

No mesmo instante, o marido mandou três serviçais até lá.

Apesar de mortos de medo – pois não há índio que não se arrepie ao escutar o nome dessa entidade –, os serviçais foram até a Cobra-Grande e relataram-lhe o pedido da filha.

– Não o abram em circunstância alguma! – sibilou a serpente, entregando o coco aos três.

O coco fora selado com uma cobertura de breu, a fim de evitar a tentação da curiosidade.

Os emissários retornaram pelo rio na mesma canoa em que haviam partido. Durante o trajeto, o coco começou a vibrar, e um som baixinho, ao mesmo tempo rouco e fininho, escapou da sua casca lacrada.

– O que será isto? – disse um dos três índios, colando a orelha ao coco.

– O que não é para ser visto! – disse o timoneiro, arrancando o coco do curioso.

Mas o terceiro também estava curioso e, tomando o coco, colou nele a orelha.

– Tem um monte de coisas aqui dentro! – disse ele.

– Talvez sejam joias! – disse o primeiro.

Ao escutar essas palavras, o timoneiro também acabou por render-se à curiosidade.

– Está bem, vamos parar a canoa e ver o que há aqui dentro!

A canoa parou bem no meio do rio, e eles acenderam uma fogueirinha para enxergar melhor. Como sempre acontece, o que mais discursara contra a desobediência revelava-se agora o mais impaciente por praticá-la.

– Vamos, quebre de uma vez essa porcaria! – disse o timoneiro, de olhos arregalados.

– Não!... Vamos retirar apenas o breu! – disse outro, mais cauteloso. Com uma mecha do fogo eles derreteram, então, a cobertura e finalmente abriram o coco.

De repente, uma nuvem negra escapou de dentro e envolveu a canoa e o rio e o mundo todo enquanto os índios cobriam as cabeças, abaixados. Ao mesmo tempo, milhares de sapos e grilos pularam para fora do coco e se espalharam mundo afora, dando à noite a sua inconfundível trilha sonora.

A noite se espalhara por tudo, indo alcançar a casa onde morava a filha da Cobra-Grande e seu esposo.

– Veja, meu marido! – disse ela. – Algo aconteceu!

Mas ele não podia ver nada, sequer a sua amada esposa.

– Se não posso vê-la durante a noite, então jamais teremos a noite! – disse ele, enfurecido.

Então, ele fez menção de agarrá-la, mesmo sem vê-la.

– Não, espere! – gritou ela. – Agora teremos de esperar o dia! O marido caiu da rede, de desgosto.

– E haverá dia, outra vez? – disse ele, desolado.

– Sim, ele não tardará – afirmou a jovem, confiante.

E assim foi. Logo, uma luzinha despontou na escuridão dos céus.

– Veja, a estrela d’alva! – disse ela, apontando a estrela que anuncia o dia. – Agora vou separar a noite do dia, de tal sorte que teremos as duas coisas, alternadamente.

Com o surgimento da noite, havia ocorrido uma série de metamorfoses na natureza. Bichos e aves de toda espécie haviam surgido, e quando ela olhou para o marido viu que também ele havia sofrido uma mudança.

– Meu adorado! – gritou ela, radiante. – Que cujubi lindo você está!

O pobre marido havia se transformado numa galinha preta de penas esverdeadas.

– Que besteira é esta? – disse ele ao acordar, agitando as asas e falando já pelo bico.

– Oh, que maravilha! – disse ela. – A partir de agora, sempre que o dia nascer, você cantará para mim e me despertará de uma noite deliciosa de sono!

A jovem parecia mesmo feliz. Pena que o marido não parecesse tão animado com a mudança.

– Quer dizer que vou ser esta ave horrorosa o resto da vida?

Horrorosa?! – exclamou a jovem, ofendida. – Oh, Mãe-d’Água! Sempre reclamando!

Neste momento, os três emissários desastrados reapareceram. Imediatamente, o marido pulou na direção deles. Mas parou ao ver que os três emissários também estavam com os corpos cobertos de pelos negros.

A jovem começou a rir desbragadamente assim que a luz da aurora lhe permitiu ver melhor no que os três imprudentes haviam sido convertidos: três macacos de dentes arreganhados.

– Muito bem, toleirões, aí está o prêmio da sua imprudência! – disse o marido, sentindo-se muito bem vingado. – Doravante irão pular de galho em galho, de dia e de noite!

Os três macacos deram de ombros, arreganharam os dentes outra vez e saíram pulando para dentro da selva. Suas bocas estavam pretas e tinham marcas amarelas nos braços, um resquício do breu ardente que espirrara sobre eles quando arrombaram o coco no meio do rio.

O Uirapuru - A Lenda
O UirapuruExistem diversas lendas sobre essa pequena ave amazônica, o Uirapuru, cujo canto deslumbrante inspirou Heitor Villa-Lobos a compor um poema sinfônico.

Esta lenda conta como duas amigas tornaram-se rivais pelo amor de um mesmo homem.

As duas moças chamavam-se Moema e Juçara. Desde crianças, elas eram apaixonadas por Peri, o índio mais belo da aldeia. Não havia índia que não se interessasse por ele, mas as únicas que tinham condição de disputar o cobiçado prêmio eram as duas amigas inseparáveis.

Apesar de rivais, as duas amigas não escondiam uma da outra a sua pretensão.

– Amo Peri perdidamente – dizia Juçara a Moema.
– Também sou louca por ele – dizia Moema a Juçara.

As coisas seguiram assim, numa rivalidade amistosa, até o dia em que decidiram consultar o pajé da aldeia para ver o que poderia ser feito para resolver o dilema.

– Peri não sabe dizer qual de nós duas prefere – disse Moema ao pajé.
– Acontece que já estamos em idade de casar – disse Juçara. Então o pajé, depois de meditar, elaborou a seguinte proposta:
– Não há outro jeito: vocês terão de disputá-lo para ver quem fica com ele.

No dia aprazado, as duas índias, munidas de arco e flecha, apresentaram-se na mata.

– Quem acertar o pássaro que eu apontar será a vencedora – disse Peri.

De arco na mão, as duas índias ficaram à espera da ordem de Peri.

– Ali, atirem! – gritou o índio ao ver uma ave branca surgir por entre os galhos.

Duas flechas velozes partiram, silvando no ar, mas somente uma delas acertou a pequena ave.

– Aqui está! – disse Peri, tomando nas mãos a ave alvejada.

As duas flechas estavam marcadas, e aquela que estava encravada na ave tinha a marca de Juçara.
Desde então, Juçara passou a ser a esposa de Peri. Quanto à pobre Moema, decidiu fugir da aldeia e ir se esconder na mata para lamentar a sua infelicidade.

Tupã, apiedado da moça, decidiu, então, transformá-la numa ave de canto maravilhoso.

– O seu canto será tão belo que terá o dom de curar a sua própria tristeza – disse o deus.

Moema, convertida no uirapuru – que em tupi significa “pássaro que não é pássaro” –, passou a morar na floresta, e desde então toda ela silencia sempre que seu canto começa a soar.