Maire-Monan e os Três Dilúvios
Segundo a crença tupinambá, existiu nos primórdios do tempo um ser chamado Monan. Para alguns etnógrafos, ele não seria exatamente um deus, mas o que se convencionou chamar de "herói civilizador".
Deus ou não, foi Monan quem criou os céus, a Terra e os animais. Ele viveu entre os homens num clima de cordialidade e harmonia — até o dia em que eles deixaram de ser justos e bons. Tomado por um furor divino, Monan respondeu com um dilúvio de fogo sobre a Terra.
Até então, o planeta havia sido um lugar plano. Depois do incêndio, sua superfície ficou enrugada como um papel queimado, cheia de saliências e sulcos que os homens, mais tarde, chamariam de montanhas e abismos.
Um único sobrevivente escapou daquele apocalipse: Irin-Magé, que foi morar no céu. Em vez de se acomodar no papel de favorito dos deuses, ele preferiu tornar-se defensor obstinado da humanidade e, depois de muitas súplicas, conseguiu amolecer o coração de Monan.
Irin-Magé argumentava que a Terra não podia continuar arrasada e sem habitantes.
– Está bem, repovoarei aquele lugar amaldiçoado! – cedeu Monan, por fim.
A história, como se vê, é tão velha quanto o mundo: um ser superior cria uma raça, logo depois a extermina, mas tem o cuidado de poupar um ou outro exemplar para recomeçar tudo.
Foi exatamente o que aconteceu. Monan enviou um segundo dilúvio à Terra — desta vez para apagar o fogo, um dilúvio reparador — e devolveu ao planeta condições de ser habitado outra vez.
Coube a Irin-Magé repovoar a Terra, com a ajuda de uma mulher criada especialmente para isso. Dessa união nasceu outro personagem central da mitologia tupinambá: Maire-Monan.
Herdeiro de poderes semelhantes aos do primeiro Monan, Maire-Monan pôde criar uma nova leva de seres — os animais — e espalhá-los pelo mundo.
Vivia como uma espécie de monge, afastado das pessoas, mas ainda assim sempre cercado por uma corte de admiradores e pedintes.
Tinha também o dom de se metamorfosear em criança. Nos períodos de seca, quando as colheitas escasseavam, bastava algumas palmadas nessa criança mágica para que a chuva voltasse a cair fartamente. Maire-Monan prestou ainda outros serviços à humanidade: ensinou o plantio da mandioca e de outros alimentos, e liberou o uso do fogo, até então escondido nas espáduas da preguiça.
Um dia, porém, começaram os murmúrios.
– Este Maire-Monan é feiticeiro! – cochichavam nas ocas. – Já que criou plantas e bichos, capaz de esse bruxo criar monstros e sabe-se lá mais o quê!
Os homens tramaram então uma armadilha para o semideus: convidaram-no para uma festa e ali lhe propuseram três desafios.
– Bela maneira de um anfitrião receber um convidado! – estranhou Maire-Monan, desconfiado.
– É simples – respondeu o chefe dos conspiradores. – Basta atravessar, sem se queimar, estas três fogueiras. Para alguém como você, deve ser fácil!
Movido pela provocação, e talvez também por vaidade, Maire-Monan aceitou o desafio.
– Muito bem, vamos a isso! – disse, ansioso por acabar logo com aquela farsa.
Passou incólume pela primeira fogueira. Na segunda, porém, tudo mudou: mal pisou nela, grandes labaredas o envolveram. Diante de todos, foi consumido pelas chamas e sua cabeça explodiu. Os estilhaços do seu cérebro subiram aos céus e deram origem aos raios e trovões — atributos maiores de Tupã, o deus tonante dos tupinambás que os jesuítas, ao chegar ao Brasil, associariam por conta própria ao Deus das sagradas escrituras.
Desses raios e trovões nasceu um segundo dilúvio, ainda mais arrasador que o primeiro.
Quando as nuvens finalmente se desfizeram, surgiu por trás delas uma estrela resplandecente: tudo o que restara do corpo de Maire-Monan, agora elevado aos céus.
O mundo se recompôs de mais esse cataclismo, e o tempo seguiu seu curso até que dois descendentes de Maire-Monan chegassem à Terra: filhos de um certo Sommay, chamavam-se Tamendonaré e Ariconte.
Como costuma acontecer nas lendas — e na vida real —, a rivalidade não tardou a se instalar entre os irmãos, até que a discórdia acabou por dividir toda a tribo.
Tamendonaré era bondoso e pacífico, um pai de família exemplar. Ariconte, ao contrário, amava a guerra e nutria o coração de inveja; sonhava em escravizar todos os índios, o próprio irmão incluído.
Depois de vários atritos, Ariconte invadiu certo dia a choça do irmão e atirou ao chão um troféu de guerra.
Tamendonaré era bom, mas não a ponto de engolir semelhante afronta. Ergueu-se e bateu o pé contra o solo; da rachadura brotou um fino veio d'água.
Ariconte, ao ver aquele fio d'água inofensivo, riu com deboche.
Só que a risquinha logo se transformou num jorro caudaloso, e em instantes o chão sob os pés dos dois irmãos — e de toda a tribo — se abriu como a casca de um ovo, liberando um mar impetuoso.
Apavorado, Ariconte fugiu com a esposa até um jenipapeiro e os dois trataram de subir nele como macacos. Tamendonaré fez o mesmo: tomou a esposa pela mão e escalou uma pindoba (espécie de coqueiro).
Assim permaneceram os dois casais, cada um no topo da sua árvore, enquanto as águas cobriam pela terceira vez o mundo — ou, ao menos, a aldeia onde viviam.
Quando as águas finalmente baixaram, os casais desceram e repovoaram a Terra mais uma vez. De Tamendonaré nasceu a tribo dos tupinambás; de Ariconte, os temiminós.
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