Mitos e Lendas da Semana Santa

Embora para a maioria das pessoas a Semana Santa esteja reduzida hoje apenas a uma série de solenidades litúrgicas, ela já teve seu tempo de tradições folclóricas, que ainda é vivido em alguns lugares do interior, com aparecimento de assombrações e com a revelação de mitos, lendas e fantasmas.

A Semana Santa folclórica e tradicional de outros tempos é mostrada hoje, em parte.
Mitos e lendas da Semana Santa

A quarta-feira 

A quarta-feira era "quarta-feira endoenças". As mães ensinavam aos filhos que Cristo estava doente pra morrer e que se devia respeitar o dia. Briga era proibido. Quem brigasse, estava brigando com o Cristo. Além do mais, a mula sem cabeça estava solta no mundo.
 
De uma igreja saía um cortejo, com a imagem de Maria, e de outra saía a do Cristo, carregando a cruz.
 
Não se tocava sino. Só matraca.
 
O encontro dos dois cortejos se dava em um lugar pré-fixado e onde um padre fazia o sermão do encontro.
 
Depois, as duas imagens juntas, o cortejo se unificava e seguia para a matriz. De tempos em tempos, a Verônica cantava. À medida que ia abrindo o véu, com a face de Cristo estampada a sangue, a Verônica cantava:
 
"O vos omnes qui transistis per viam
Videte si est dolor sicuti dolor meus
"
 
E o coro respondia, num lamento:
 
"Miserere... Miserere... Jesus".
 
Quanto mais escura a noite, para procissão melhor. Também a terra estava de luto: apenas velas e tochas iluminavam o caminho.

Quinta-feira 

Na quinta-feira começava o luto completo que durava até depois das Aleluias. Durante a semana toda, a igreja já ficava cheia de pessoas, mas na quinta-feira, especialmente. Nas casas de famílias, tudo mudava também. "Porque nosso Senhor estava doente" não se varria a casa, os escravos não trabalhavam, os meninos não faziam bulha. Os castigos e correções eram abolidos. Falava-se baixinho, jejuava-se, rezava-se...
 
Os castigos, os puxões de orelha, os petelecos e bolos de palmatória eram empregados para quando rompesse as Aleluias.
 
Era dia de confissão geral e os escravos todos eram obrigados a ir "buscar perdão dos seus pecados, pra não ir parar no inferno até o fim do ano".
 
As mucamas aprendiam e ensinavam para os "sinhôs e sinhazinhas" que não confessar na semana final "levava pro inferno até o fim do ano".
 
Na quinta-feira também se assistia ao ofício da Paixão. Tudo no mais respeitoso silêncio. Apenas a matraca soava na sacristia e no ofício, no meio dele, no momento em que as velas se pagavam todas, batia-se nos livros, produzindo um ruído fantasmagórico.
 
Antes, porém, ainda existia glória e pompa na missa de Sagração dos Santos Óleos e o Lava-Pés.
"No interior de Minas, era tradicional a briga entre os meninos coroinhas e sacristãos, pra ver quem 'virava apóstolo e ia ter seus pés lavados pelo padre'... As mães, que tinham seus filhos escolhidos, lavavam bem antes os pés do filho, não fosse o padre descobrir algum cheirinho meio sem graça".
 
Mas era compensador. Além do pãozinho que cada um recebia, depois do Lava-Pés, os meninos costumavam ganhar também um envelope, sempre com algum "dinheirinho por dentro".
Mas era o luto a coisa mais importante na quinta-feira santa. As bandeiras eram cingidas de um crepe negro e, em certas irmandades, havia gente que colocava um símbolo negro sobre a roupa: Cristo estava morrendo.
 
No meio da noite de quinta para sexta-feira, meninos, com matracas nas mãos, percorriam as ruas, batendo a madeira e lembrando que o Cristo "estava doente".

Sexta-feira 

Na sexta-feira, o Cristo morria e naqueles tempos morria mesmo de verdade. O povo sentia e vivia a sua morte, como se tivesse morrido alguém da família, um pai ou a mãe.
 
No ofício do desnudamento da cruz, o povo chorava. E vinha, como o celebrante, deitar-se em frente à cruz e beijar o pé do Cristo morto. Sermão das sete palavras, em Minas, não havia quem perdesse. "Era pecado moral não ir".
 
As mãe levavam os filhos, recomendando que não fizessem barulho. "Olha o Deus", diziam todos.
 
E igrejas cheias, o povo suando, o orador procurava se superar. Sermão das sete palavras não era qualquer um que fizesse. Em tons trágicos, grandiloquentes e solenes, procurava pintar a tragédia da morte do Cristo. E o povo, calado, chorando baixinho, acompanhava as palavras, sentindo a sede do Cristo e o desamparo do filho de Deus.
 
Na sexta-feira era permitido chorar. O único dia em que se permitia chorar à vontade.
E depois vinha a procissão do enterro. Carregado por homens das "irmandades", o cadáver do Cristo era levado pelas ruas das cidades, aos sons da matraca, marchas fúnebres das "bandas paroquiais" e ritmadas pelo monótono e arrastado refrão popular das canções de enterro.
 
"Pecador, agora é tempo
de contrição e de temor
Segue a Deus, despreze o mundo
Já não sejas pecador
Com longos mantos e capuzes brancos, iam José de Arimatéia, Nicodemos e mais o "Farricoco".
Eram os homens que tinham descido o Cristo da cruz e iam agora sepultá-lo.
Atrás vinham Maria, mãe de Jesus, a Verônica, as "Marias Beú" e Madalena.
Depois, os apóstolos. Cabeças baixas, caminhando devagar, sem trocar uma palavra.
Em alguns lugares, cidades maiores e mais antigas, vinham também os soldados romanos, de capacetes e espadas na cinta, chefiados por um centurião de penacho, e às vezes, até profetas e anjinhos.
De tempos em tempos, as Marias se adiantavam e cantavam em voz lúgubre e triste: "Behu, behu..."
 
A imagem de Nossa Senhora também comparecia ao enterro nos ombros dos confrades (...).
A banda ia no fim.
 
Depois do enterro, a imagem do Cristo ficava no adro central da igreja, como num catafalco, e o povo ia lá beijar os seus pés e aproveitar para "medir o Cristo".
 
Levavam cordões e fitas coloridas do tamanho do rosto de Cristo, das mãos de Cristo, dos pés de Cristo, do pescoço, dos braços, etc... Quando mais tarde, qualquer pessoa da família sentisse dor no pescoço ou nos braços, bastava aplicar o cordão no lugar. A dor cessava no mesmo instante.
 
De noite era luto nacional. Não se saía de casa, pois o mundo estava entregue ao demônio e seus anjos. Deus estava morto: tudo era proibido.

Sábado de Aleluia 

O sábado de Aleluia era comemorado cedo. Até meio-dia, ainda o luto pelo Cristo continuava em todas as casas. Ninguém falava. Mas quando chegava o meio-dia, era a hora das aleluias. Neste exato momento, segundo a tradição popular, do lado aberto de Cristo saía três gotas de sangue.
 
O Cristo ainda não ressuscitara e as gotas de sangue caíam dentro do sepulcro. Mesmo assim, contudo, era hora da Aleluia. Marido batia na mulher. Mulher batia no marido. E os dois juntos corriam atrás dos meninos. Era o desconto das molequices do ano todo, das desobediências, que deveriam ser pagas naquele momento, em desagravo do sangue de Cristo derramado. E os meninos que tratassem de correr, "porque a coça era mesmo pra valer".
 
Também na rua, quem se encontrava ia tratando logo de "tirar as Aleluias" em cima dos amigos e conhecidos. E não adiantava discutir.
 
A Aleluia, porém, só durava uma hora. A uma da tarde, o luto voltava a imperar e que ninguém viesse tirar a Aleluia, porque "estaria batendo no corpo de Cristo".
 
O luto ia até a missa da meia-noite. Missa solene. Com o povo acendendo velas na Grande Vela da Páscoa. Era o fogo novo, sinal de que Cristo tinha ressuscitado. Na missa da meia-noite também os homens, mulheres e crianças comungavam, fazendo a Páscoa.
 
Depois que o padre cantava o "Aleluia, aleluia, aleluia", existia a procissão da ressurreição, com uma imagem de Cristo empunhando uma bandeirinha branca, sendo levado pelas ruas da cidade.
 
Acabara a Semana Santa e a quaresma em muitos lugares, o resto da noite era terminado com um bom baile, quase sempre com a bênção do vigário.

Os Mitos 

A quaresma, para o brasileiro e especialmente para o mineiro, foi sempre uma época de mitos e fantásticos personagens. O mais conhecido é a mula sem cabeça.
 
Segundo as lendas, a mula sem cabeça é uma mulher que devora cadáveres nos cemitérios ou se alimenta de sangue humano. Nas noites de sexta-feira da quaresma e durante toda a Semana Santa, a mula sem cabeça fica solta, podendo correr pelos campos e por cima dos montes e, às vezes, até mesmo dentro das cidades. E que ninguém veja a mula, pois se ver e ficar olhando, vira tantã.

Perna fina 

O perna fina é uma crença da região norte de Minas. É alto, magro, careca, de pernas longas e finas e que amedronta os viajantes pelas estradas. Quem viaja na Sexta-Feira Santa sempre avista o perna fina. Anda descalço e traja um velho terno branco, mirrado e encolhido, com as calças que vão pouco baixo dos joelhos. Costuma parar nas estradas, com os braços levantados e as pernas finas abertas, formando uma cruz com o corpo. O perna fina é o "sombração" de uma pessoa que morreu, devendo cumprir juramentos que não foram cumpridos em vida. Por cem anos, o fantasma tem de "penar pela terra", antes de ser julgado de novo por Deus.

O lenhador fantasma 

Dizem os crentes que é a alma penada de um lenhador que trabalhou numa Sexta-Feira da Paixão. Por isso, é obrigado por Deus a trabalhar todas as Semanas Santas, durante muitos anos, sem poder dar descanso à sua alma.

Corpo seco 

Vira corpo seco quem foi malvado em vida e seviciou a própria mãe. Ao morrer, a terra não o recebe, os abutres não o comem, os vermes não o destroem, e "um dia, mirrado, defecado, com a pele engelhada sobre os ossos, se levanta da tumba, vagando e assombrando os viventes nas caladas da noite, principalmente em noites de Sexta-Feira Santa e da quaresma".

O lobisomem 

Apesar de ser conhecido também em outras partes do mundo, o lobisomem brasileiro é diferente um pouco dos de outra nacionalidade. No Brasil, o lobisomem é um homem pálido, macilento, de aspecto doentio e que por ser filho de incesto ou por ter nascido depois de uma série de sete filhas, é condenado pelo destino a virar lobo, cachorro, bezerro ou porco, em dias e horas determinadas (geralmente às terças e sextas-feiras, de meia-noite às duas horas da madrugada e principalmente na Semana Santa e quaresma).
 
No começo de sua vida, contudo,os predestinados não se tornam lobisomem. Só depois que encontram um lugar onde se espojou um animal. Daí por diante, todas as terças e sextas-feiras, de meia-noite às duas horas da madrugada, têm que fazer suas corridas: visitar sete cemitérios, sete outeiros, sete encruzilhadas, sete igrejas, para voltar a ter forma humana.

A missa negra 

É rezada na noite de Sexta-Feira Santa por feiticeiros. Qualquer coisa que se pedisse naquela missa era conseguida de qualquer forma. Só que em vez de Cristo, o invocado na missa negra é o diabo que está mandando na terra, depois que Cristo morreu. Na missa negra, o mal desejado ao próximo era conseguido. Até a1928, ainda se conhecem histórias de missas negras de Sexta-Feira Santa no Brasil, entre feiticeiros. Depois acabou.

A procissão dos mortos 

Na noite de Sexta-Feira Santa, muita gente chegou a ver, segundo a tradição, a fantástica procissão dos mortos que saía dos cemitérios, todos vestidos de branco, saudando o aparecimento do Cristo entre eles, tal como aconteceu depois que Jesus morreu no Monte Calvário e que centenas de mortos ressuscitaram. Dizem que só vê a procissão dos mortos quem sai à noite de Sexta-Feira Santa para fazer farra.
 
(Felipe, Carlos. "Mitos e lendas da Semana Santa". Diário de Minas. Belo Horizonte, 15 de abril de 1965, segundo caderno, p.1)

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