Maire-Monan e os três dilúvios

Maire-monan e os três dilúviosOs tupinambás creem que houve, nos primórdios do tempo, um ser chamado Monan. Segundo alguns etnógrafos, ele podia não ser exatamente um deus, mas aquilo que se convencionou chamar de um “herói civilizador”.

Deus ou não, o fato é que Monan criou os céus e a Terra, e também os animais. Ele viveu entre os homens, num clima de cordialidade e harmonia, até o dia em que eles deixaram de ser justos e bons. Então, Monan investiu- se de um furor divino e mandou um dilúvio de fogo sobre a Terra.

Até ali a Terra tinha sido um lugar plano. Depois do fogo, a superfície do planeta tornou-se enrugada como um papel queimado, cheia de saliências e sulcos que os homens, mais adiante, chamariam de montanhas e abismos.

Desse apocalipse indígena sobreviveu um único homem, Irin-magé, que foi morar no céu. Ali, em vez de conformar-se com o papel de favorito dos céus, ele preferiu converter-se em defensor obstinado da humanidade, conseguindo, após muitas súplicas, amolecer o coração de Monan.

Segundo Irin-magé, a terra não poderia ficar do jeito que estava, ar- rasada e sem habitantes.

– Está bem, repovoarei aquele lugar amaldiçoado! – disse Monan, afinal.

A história, como vemos, é tão velha quanto o mundo: um ser superior cria uma raça e logo depois a extermina, tomando, porém, o cuidado de poupar um ou mais exemplares dela, a fim de recomeçar tudo outra vez.

E foi exatamente o que aconteceu: Monan mandou um dilúvio à Terra para apagar o fogo (aqui o dilúvio é reparador) e a tornou novamente habitável, autorizando o seu repovoamento.

Irin-magé foi encarregado de repovoar a Terra com o auxílio de uma mulher criada especialmente para isto, e desta união surgiu outro personagem mítico fundamental da mitologia tupinambá: Maire-monan.

Esse Maire-monan tinha poderes semelhantes aos do primeiro Monan, e foi graças a isto que pôde criar uma série de outros seres – os animais –, espalhando-os depois sobre a Terra.

Apesar de ser uma espécie de monge e gostar de viver longe das pessoas, ele estava sempre cercado por uma corte de admiradores e de pedintes.

Ele também tinha o dom de se metamorfosear em criança. Quando o tempo estava muito seco e as colheitas tornavam-se escassas, bastava dar umas palmadas na criança-mágica e a chuva voltava a descer copiosamente dos céus. Além disso, Maire-monan fez muitas outras coisas úteis para a humanidade, ensinando-lhe o plantio da mandioca e de outros alimentos, além de autorizar o uso do fogo, que até então estava oculto nas espáduas da preguiça.

Um dia, porém, a humanidade começou a murmurar.

– Este Maire-monan é um feiticeiro! – dizia o cochicho intenso das ocas. – Assim como criou vegetais e animais, esse bruxo há de criar monstros e Tupã sabe o que mais!

Então, certo dia, os homens decidiram aprontar uma armadilha para esse novo semideus. Maire-monan foi convidado para uma festa, na qual lhe foram feitos três desafios.

– Bela maneira de um anfitrião receber um convidado! – disse Maire- monan, desconfiado.

– É simples, na verdade – disse o chefe dos conspiradores. – Você só terá de transpor, sem queimar-se, estas três fogueiras. Para um ser como você, isso deve ser muito fácil!

Instigado pelos desafiantes, e talvez um pouco por sua própria vaidade, Maire-monan acabou aceitando o desafio.

– Muito bem, vamos a isso! – disse ele, querendo pôr logo um fim à comédia.

Maire-monan passou incólume pela primeira fogueira, mas na segunda a coisa foi diferente: tão logo pisou nela, grandes labaredas o envolveram. Diante dos olhos de todos os índios, Maire-monan foi consumido pelas chamas, e sua cabeça explodiu. Os estilhaços do seu cérebro subiram aos céus, dando origem aos raios e aos trovões que são o principal atributo de Tupã, o deus tonante dos tupinambás que os jesuítas, ao chegarem ao Brasil, converteram por conta própria no Deus das sagradas escrituras.

Desses raios e trovões originou-se um segundo dilúvio, desta vez arrasador.

No fim de tudo, porém, as nuvens se desfizeram e por detrás delas surgiu, brilhando, uma estrela resplandecente, que era tudo quanto restara do corpo de Maire-monan, ascendido aos céus.

Depois que o mundo se recompôs de mais um cataclismo, o tempo passou e vieram à Terra dois descendentes de Maire-monan: eles eram filhos de um certo Sommay, e se chamavam Tamendonare e Ariconte.

Como normalmente acontece nas lendas e na vida real, a rivalidade cedo se estabeleceu entre os dois irmãos, e não tardou para que a fogueira da discórdia acirrasse os ânimos na tribo onde viviam.

Tamendonare era bonzinho e pacífico, pai de família exemplar, enquanto Ariconte era amante da guerra e tinha o coração cheio de inveja. Seu sonho era reduzir todos os índios, inclusive seu irmão, à condição de escravos.

Depois de diversos incidentes, aconteceu um dia de Ariconte invadir a choça de seu irmão e lançar sobre o chão um troféu de guerra.

Tamendonare podia ser bom, mas sua bondade não ia ao extremo de suportar uma desfeita dessas. Erguendo-se, o irmão afrontado golpeou o chão com o pé e logo começou a brotar da rachadura um fino veio de água.

Ao ver aquela risquinha inofensiva de água brotar do solo, Ariconte pôs-se a rir debochadamente.

Acontece que a risquinha rapidamente converteu-se num jorro d’água, e num instante o chão sob os pés dos dois, bem como os de toda a tribo, rachou-se como a casca de um ovo, deixando subir à tona um verdadeiro mar impetuoso.

Aterrorizado, o irmão perverso correu com sua esposa até um jenipapeiro, e ambos começaram a escalá-lo como dois macacos. Tamendonare fez o mesmo e, depois de tomar a esposa pela mão, subiu com ela numa pindoba (uma espécie de coqueiro).

E assim permaneceram os dois casais, cada qual trepado no topo da sua árvore, enquanto as águas cobriam pela terceira vez o mundo – ou, pelo menos, a aldeia deles.

Quando as águas baixaram, os dois casais desceram à Terra e repovoaram outra vez o mundo. De Tamendonare se originou a tribo dos tupinambás, e de Ariconte brotaram os Temininó.

Conto da Cobra-Norato

Conto da Cobra-NoratoCerta vez, uma mulher ficou grávida do Boto, o mais famoso sedutor das águas paraenses. Um casal de gêmeos nasceu. Era um lindo casal, só que um casal de cobras d’água.

A mãe não quis saber deles e foi pedir instruções a um pajé.

– Eles são cria da Cobra-Grande! – disse ela, assustada.

O pajé, depois de consultar seus manes, disse que ela deveria abandoná-los às margens do Tocantins, e assim foi feito.

O tempo passou, e as cobrinhas gêmeas viraram duas cobras gigantes. Uma delas se chamava Honorato, ou simplesmente Norato, e era uma cobra macho boa e cordata. Sua irmã, porém, tornou-se má e vingativa, e graças ao seu gênio ruim foi chamada Maria Caninana (mal chamada, já que caninana, na língua tupi, quer dizer “cobra não venenosa”).

Durante muito tempo, Cobra-Norato tentou demover a irmã da prática de maldades, mas ela não sabia fazer outra coisa senão afogar banhistas e afundar embarcações.

– Minha irmã, desta vez você passou dos limites! – disse-lhe Norato, certa feita, depois que ela fora bulir com uma cobra encantada que morava debaixo do altar de uma igreja em Óbidos.

Ela sabia que se a cobra saísse dali a igreja inteira ruiria. Mesmo assim, mexeu com ela e a cobra remexeu-se. Para felicidade das velhas beatas, a igreja não ruiu, mas ganhou uma rachadura de alto a baixo.

– Toma tento, encrenqueira! – disse Norato.

– Que tento, nem vento! Quem pensa que é? – silvou a Caninana.

Então Norato atracou-se com a irmã e, depois de uma luta titânica nas águas, matou-a.

Desde então, passou a haver apenas uma cobra sobrenatural no Tocantins, que era Cobra-Norato. Após estraçalhar a irmã, ele recuperou a alegria de viver, tendo adquirido até o hábito de fazer algumas visitinhas às aldeias próximas do rio, especialmente à noite, tal como seu pai Boto costumava fazer.

Cobra-Norato adorava dançar e, sempre que havia um baile, saía das águas para seduzir alguma moça ribeirinha. Ele tinha o dom de se transportar magicamente de um lugar para o outro, e era assim que podia ser visto, numa mesma noite, em quatro ou cinco lugares muito distantes.

Quando ele abandonava o rio para fazer suas incursões terrestres, costumava deixar nas margens a sua pele de cobra. De dentro dela surgia um rapaz belo e charmoso, irresistível às mocinhas.

Norato gostava tanto das suas surtidas noturnas que desejou tornar-se um ser humano como os outros. Havia, porém, um sortilégio que o impedia de abandonar as águas.

Certo dia, num baile, ele pediu a uma moça que quebrasse a maldição.

– É simples – disse ele. – Basta que você despeje algumas gotas de leite sobre a minha cabeça e depois dê um golpe sobre ela, o suficiente para tirar algumas gotas de sangue.

– jamais poderia feri-lo! – disse ela, em prantos.

Norato, porém, arrastou-a até as margens do rio e teimou para que ela o livrasse do mal. Antes, porém, ele devia assumir sua forma original de cobra, e foi aí que tudo deu pra trás. Ao ver a cobra monstruosa, a pobre menina saiu correndo de volta para a cidade.

Norato, desconsolado, pediu a todo mundo que o livrasse da maldição, mas era sempre a mesma coisa. Nem mesmo a sua mãe tivera coragem o bastante para encarar o monstro e livrá-lo da maldição.

Certa feita, porém, durante uma das festas às quais ele compareceu, um soldado valente se prontificou a colocar um fim ao sortilégio do amigo.

O soldado acompanhou Norato até as margens do rio, levando consigo uma garrafa de leite e a sua inseparável espada.

– Pode vestir a pele! – disse ele, ao chegarem ao rio.

Norato entrou para dentro da pele e se transformou, outra vez, na temível cobra. O soldado ficou pálido como a lua, mas não recuou. Depois de abrir a garrafa, despejou algumas gotas de leite na cabeça da cobra e, em seguida, aplicou-lhe uma valente cutilada na cabeça. Algumas gotas minaram da ferida, misturando-se ao leite, e, como por mágica, Norato tornou-se definitivamente homem.

Desde então, o fabuloso Cobra-Norato deixou de ser cobra. O que foi feito dele depois, ninguém sabe. Há quem diga que virou soldado e foi servir no mesmo batalhão do amigo que o desencantou, mas isto deve ser patranha de algum caboclo malicioso.

O casamento da mãe d’água

O casamento da mãe d’águaHavia, pois, um pescador que de pescador, ultimamente, só tinha o nome, pois não conseguia levar para casa peixe algum. Então, certo dia, obstinando-se em derrotar a maré de azar, ele decidiu permanecer pescando noite adentro, até arrancar qualquer coisa que fosse das águas.

– Daqui só saio com um peixão de encher os olhos! – anunciou ele, lançando o anzol.

O sol se foi, a noite chegou, e nada de peixe, até que, de repente, lá pelas tantas da madrugada, um clarão se fez no mar e uma cantoria de mulher subiu harmoniosa das águas.

Aquilo tinha todo jeito de visagem, e o pescador se encolheu todo, dando quase para se esconder atrás do samburá vazio. Mas a cantoria não cessava, até que uma criatura esplendorosamente bela emergiu das águas e foi acomodar-se numa das pedras, um pouco depois da rebentação.

Bem, se o pescador queria algo de encher os olhos, realmente conseguiu o que queria, pois a criatura era realmente deslumbrante. Da cabeça à cintura ela era mulher, e da cintura para baixo era peixe.

O pescador, que não tinha mulher nem peixe, sentiu-se duplamente recompensado.

– Deus é mesmo maravilhoso! – disse ele, depois de blasfemar a noite toda.

De repente, a mulher-peixe mergulhou e o pescador entrou em pânico.

– Espere, volte...! – gritou ele.

Fez-se o silêncio, até que a cantoria recomeçou, desta vez bem próxima,

a ponto de o pescador ficar meio hipnotizado. Ele entrou no mar, ficando com a água pela cintura, até que a mulher-peixe apareceu bem na sua frente. Com os cabelos molhados e o torso completamente nu, era uma visão de sonho ou de pesadelo deleitoso, o que acharem melhor.

– Quem é você? – balbuciou ele.

– Sou a Mãe-d’Água, e vou ensiná-lo a pescar – disse a sereia tupiniquim.

O pescador apanhou tanto peixe naquela noite que o samburá vergou de peso.

A partir daí, começou um romance entre o pescador e a Mãe-d’Água, que culminou num pedido de casamento.

– Sim, eu quero! – disse ela, donzela ingênua e sedenta dos prazeres do matrimônio.

– Você irá viver comigo? – perguntou o pescador.

– Está bem, vou viver em terra com você – disse ela, cedendo. – Mas imponho uma condição.

O pescador franziu a testa, pois era um tipo truculento.

– Só viverei com você enquanto não desfizer da minha gente do mar. O pescador suspirou aliviado!

– É claro, jamais falarei mal da sua gente! – disse ele, esquecendo-se logo do que prometera.

A partir desse dia, os dois foram viver na cabana do pescador. Quando a Mãe-d’Água chegou ao “ninho de amor”, entretanto, teve de fazer um esforço enorme para esconder a sua decepção.

“Que pobreza!”, pensou ela, ao adentrar o casebre de duas peças.

Um mormaço sufocante pairava ali dentro. Não havia cama nem rede para deitar, só uma esteira atirada no chão batido. A mesa, por sua vez, nada mais era do que uma tábua comprida deitada sobre duas pilhas de tijolos. Dois latões vazios de óleo de cozinha, postos de cada lado da mesa, completavam a mobília.

Mas o que realmente a incomodara fora a mudança no caráter do esposo. Desde a chegada, ela percebera que os modos do galante pescador haviam se alterado radicalmente.

– Deite-se aí! Tem a esteira inteirinha dando sopa ali.

iara aproximou-se cautelosamente da esteira toda desfiada. Quando estava a um passo dela, porém, retrocedeu instintivamente: uma lufada de urina seca explodira nas suas narinas rosadas como uma bofetada.

– Água e sabão têm por aí, peixinha. Trate de limpar a casa.

A Mãe-d’Água virou-se para o esposo, mas ele já saíra. E foi assim que começou o seu martírio terrestre.

O tempo passou, e o marido da sereia foi ficando cada vez mais grosseiro. já no segundo dia, o tratamento afetuoso mudou. O dia inteiro era um tal de “faça isso!” ou “faça aquilo!” que dava engulhos na pobre moça.

Dia após dia, a Mãe-d’Água, obrigada a viver naquela maloca junto com um homem tão grosseiro, foi perdendo todo o encanto pelo casamento.

– Então, é isto viver em terra? – dizia de si para si.

– O que está reclamando, agora? – perguntou o marido.

Ela desvencilhou-se, enojada, mas ele agarrou-a brutalmente.

– Escute aqui! Comigo não tem choradeira – disse ele.

“Onde está aquele pescador ingênuo e adorável?”, pensou ela.

Então, ela decidiu que, quem sabe tornando o marido rico, pudesse torná-lo novamente gentil. Graças aos seus dons mágicos, as bênçãos começaram a chover sobre o casal, e logo eles estavam morando num palácio à beira- mar. Pena que ela tivesse de limpar sozinha todos os trezentos aposentos.

– Não vou pagar criada alguma tendo uma mulher em casa! – disse o pescador, com modos ainda piores do que os do tempo da penúria.

Então ela desesperou-se de tudo e, a partir daí, não fez mais outra coisa na vida senão postar-se, dia e noite, no janelão do palácio que dava para o mar e entoar seus cânticos aquáticos de saudade.

infelizmente, as suas árias delicadas e pungentes só conseguiam irritar ainda mais o marido.

Um dia, finalmente, ela decidiu voltar para casa, custasse o que custasse.

A Mãe-d’Água sofreu muito nas mãos do marido ao comunicar o seu desejo, mas, perdendo todo o medo, resolveu enfrentá-lo.

– Não suporto mais esta vida em terra! Quero voltar para junto dos meus!

– O que quer junto dos peixes malditos?

Neste instante, um alívio abençoado desceu sobre a Mãe-d’Água. Ela estava finalmente liberta, pois o miserável acabara de maldizer os seus parentes do mar!

De repente, o céu ficou negro e uma onda medonha começou a formar-se na linha do horizonte. O pescador arregalou os olhos ao ver a massa d’água avançar na direção do palácio e, abandonando a esposa, correu como um alucinado para o morro mais alto.

As águas invadiram tudo, cobrindo o palácio dourado até o topo, e quando refluíram para dentro do mar arrastaram consigo a jovem sereia e o palácio inteiro, até a sua última pedra.

E foi assim que a Mãe-d’Água voltou a morar nos seus adorados domínios, enquanto o pescador voltou a ser um pobre-diabo azarado e solitário. Nunca mais conseguiu tirar coisa alguma do mar, nem mesmo as tatuíras da areia, que lhe escorriam ágeis pelos dedos, sem jamais deixarem-se agarrar.

Os quatro ladrões
Os quatro ladrõesSegundo Câmara Cascudo, o conto que vamos ler agora é tão antigo “que fazia rir aos cruzados”. “Os quatro ladrões”, de fato, é um dos contos mais disseminados pelo mundo – sua primeira aparição se fez na Índia, na mais remota Antiguidade, até encontrar no Brasil a sua moderna versão tropical.
Diz-se, pois, que quatro ladrões estavam descansando certo dia debaixo de uma árvore quando viram passar um sujeito gordo levando consigo um boi enorme e rechonchudo.

– Vejam, amigos! – disse o Ladrão Um. – Ali temos carne para o ano todo!

– Psiu! Vamos passar logo a perna no bobo – disse o Ladrão Três.

O Ladrão Quatro, que não era de muita conversa, simplesmente seguiu os demais.

já estavam quase chegando quando o Ladrão Um teve uma ideia melhor.

– Mesmo estando em quatro, este gorducho ainda pode nos criar problemas. Vamos nos separar e fazer o seguinte.

Ele explicou direitinho o plano, e logo os quatro estavam espalhados pela mata.

O proprietário continuou seu caminho com o boi até o Ladrão Um lhe aparecer pela frente.

– Bom dia, senhor cachorreiro! – disse ele, sorridente.

O gorducho apertou os olhos para ver quem era o autor da bobagem.

– Cachorreiro, disse você? Onde há cachorro por aqui? O Ladrão Um fez um ar de pasmo e retrucou:

– Ora, e este cãozinho felpudo aqui, o que é? – e passava a mão no cachaço do touro, enquanto assoviava.

O gordo, meio assustado, deu as costas e saiu ligeiro, puxando o boi pela corda.

– Só dá louco por aqui!

Andou mais alguns passos e se deparou com o Ladrão Dois.

– Linda manhã para passear com o fila! – disse este.
– Está maluco? Que fila? – exclamou o gorducho.
– O cão fila, aí. Meus parabéns, deve ser caçador, e dos bons!
– Se ele é um fila, você é um vira-lata! – exclamou o gorducho, levando o boi.

Andou mais um pouco até topar com o Ladrão Três.
– Ora, viva – disse este. – já vai cedo pra caça?
– Ah, meu Deus! Que caça? Não vê, então, que levo um boi? O Ladrão Três caiu na gargalhada.
– Ah, ah! Boa, esta! Mas que é cão, é! E cão dos bons!

O Ladrão Três começou a alisar as fuças chatas do boi.
– Este focinho pontudo aqui não engana! Deve farejar uma cutia a quilômetros de distância!
– Adeus! – disse o gorducho, levando o boi de arrasto. No seu íntimo, porém, crescia cada vez mais a dúvida.
– Será boi mesmo? – disse ele, parando, a certa altura, para conferir.

Ele havia comprado o bicho na feira, mas agora começava a desconfiar de algum logro muito bem engendrado.

Neste ponto o boi mugiu alto, para desfazer a dúvida, e o proprietário acalmou-se.
– Graças a Deus! É boi, mesmo! E que mugido!

Seguiu adiante, certo de que uma epidemia de loucura grassava por perto.

De repente, porém, surgiu-lhe pela frente o Ladrão Quatro.

– Ah, aí está! – disse ele, a sorrir. – Pelo latido bem vi que era um senhor perdigueiro!
– Que loucura! – exclamou o gordo. – Onde há cachorro algum por aqui? Não vê, então, que é um boi, estrupício?

O boi abanou a cauda, nervoso, e o Ladrão Quatro arreganhou ainda mais os dentes.

– Ah, ah! Abana o rabo que nem cachorro mateiro! E vem me dizer que é boi!

A esta altura o boi, apavorado, pressentindo que ia virar um assado antes do tempo, começou a deitar pela boca uma espuma branca.

– Oh, mas que pena! – disse o Ladrão Quatro. – Parece que o seu cão está hidrófobo!

Depois desta, o gorducho não quis saber de mais nada: atirou a corda pra cima e saiu correndo mata afora antes que o buldogue raivoso o estraçalhasse.

Assim que o gorducho sumiu, os quatro ladrões se reuniram e passaram a faca no boi.

Ao que consta, estão carneando o bicho até hoje.
A menina dos brincos de ouro
A menina dos brincos de ouroAinda hoje circula por aí este conto saboroso, que começa assim.

Havia uma menina que gostava de ir buscar água na fonte, sempre com seus brincos de ouro. Toda a delícia da sua vida era ver-se refletida na água com aqueles dois pingentes dourados, um em cada orelha.

Certo dia, ela resolveu tirá-los um pouco, para banhar-se na água, pois tinha muito medo de perdê-los na correnteza. Ao sair, porém, esqueceu-se de recolocá-los, e eles ficaram lá na margem.

Ao chegar em casa e ver que esquecera os brincos amados, ela voltou cor- rendo à fonte. Ao retornar lá, porém, deparou-se com um velho asqueroso.
– O que quer, fedelha? – rosnou o velho.
– O senhor não viu por aí uns brincos dourados?
– Não, mas estou vendo uma bela menina de cabelos dourados!

Apesar de velho, ele ainda tinha força o bastante para fazer ruindade e, com uma rapidez espantosa, tomou a menina e enfiou-a num saco.

– Agora, você vai ficar quietinha aí dentro do surrão até eu mandar você cantar! – disse o velho, levando-a nas costas, ao mesmo tempo em que lhe ensinava uma cantiga que ela deveria repetir sempre que o velho fosse fazer seus peditórios.

Ele dizia: “Canta, canta, meu surrão, senão te meto o porretão!”, enquanto ela tinha de responder: “Metida no surrão de couro, nele hei de sofrer, por causa de uns brincos de ouro, que na fonte achei de perder!”.

Os dois andaram pra cima e pra baixo o dia inteiro, e a cada novo pedido do velho uma bordoada no saco fazia a pobre menina repetir a sua ladainha:

– Metida no surrão de couro, nele hei de sofrer, por causa de uns brincos de ouro, que na fonte achei de perder!

Certo dia, as andanças do velho levaram-no à casa da mãe da menina dos brincos de ouro. Ao reconhecer a voz da filha, a mãe, aflitíssima, convidou o velho para passar a noite na casa.

– O senhor está muito cansado. Coma, beba e depois ponha-se a des- cansar!

O velho encantou-se com tanta caridade, especialmente com aquele negócio de beber. Depois de entornar quase uma pipa de vinho, ele se atirou numa esteira e começou a roncar feito um bugio.

Então a mãe, expedita, tratou de abrir logo o surrão e retirar a filha, quase morta, do seu interior.

– Filhinha amada! – disse a mãe, enternecida, ao ver a menina ainda com os brincos de ouro que ela lhe dera no seu aniversário.

Enquanto o velho dormia, a mãe encheu o surrão de excrementos dos porcos e galinhas da casa, e deixou-o partir no dia seguinte como se levasse ainda no surrão a pobre menina.

– Adeus, mas voltarei, pois aqui passei muito bem! – disse o velho. Depois de andar um quarto de hora, a fome voltou a roer as tripas do velho.

– Prepare-se, menina, pois é hora de cantar!

Ao chegar a outra casa, bateu palmas e uma senhora apareceu. Como sempre ele disse ao surrão:
– Canta, canta, meu surrão, senão te meto o porretão! Só que desta vez o surrão ficou mudo.
– Quer apanhar, fedelha? – disse ele, repetindo o refrão: – Canta, canta, meu surrão, senão te meto o porretão!

Nada outra vez.

Então, tomando o porrete, o velho aplicou uma paulada com tal força no surrão que ele explodiu, enchendo-o de titica de porco e de galinha, dos pés à cabeça.

O velho, depois disso, foi preso e enforcado, para aprender a nunca mais andar por aí raptando meninas com ou sem brincos de ouro.
Mitos e lendas da cultura indígena
Mitos e lendas da cultura indígenaPara os índios, a floresta é um mundo, o seu habitat. Da floresta eles obtêm tudo o que precisam para suas vidas, desde material para a construção de suas casas, utensílios básicos, ferramentas, implementos de caça, até alimentos e remédios. Eles sabem que compartilham esse habitat com outros seres, animais de muitas espécies diferentes, que, às vezes, podem ser caçados para alimentar seu povo. Desde pequenas, as crianças aprendem sobre a floresta. Jovens, adentram a mata com seus pais, tios e avôs para incursões de caça, ou coleta de frutos, sementes, mel e material para construção de moradia. A floresta é como uma grande enciclopédia viva para o conhecimento indígena.

De uma forma geral, em todas as culturas, os mitos e as lendas surgem como formas que o homem encontrou para compreender e dar sentido aos fatos e eventos da vida e do mundo. Muitos mitos explicam a origem das coisas, como certos alimentos; práticas culturais, como a agricultura, e fenômenos naturais, como o trovão e os eclipses. O contato dos povos indígenas com comunidades próximas tornou algumas destas lendas conhecidas, de modo que  foram absorvidas pela cultura regional brasileira, como a lenda amazônica do boto cor-de-rosa, que gosta de seduzir e namorar as moças incautas às margens dos igarapés. Outras lendas são específicas de cada tribo. É o que explica a pesquisadora e curadora do Museu do Índio do Rio de Janeiro, Chang Whang:
“Geralmente cada povo indígena tem seus mitos de origem, de como seu povo veio a ser. São os mitos cosmogônicos. Esses mitos, transmitidos oralmente, de geração a geração, são muito importantes na formação do indivíduo social, pois fornecem coesão simbólica à percepção do indivíduo como parte de um corpo social, reforçando sua identidade étnica. Desde tempos imemoriais, os mitos descrevem eventos que se dão no mundo indígena, e a floresta é o elemento concreto, visível e tangível desse mundo”.

Veja abaixo alguns dos mitos mais conhecidos da cultura indígena brasileira:

Uiara (Yara ou Iara) - a rainha das águas

A jovem Tupi Uiara era a mais formosa mulher das tribos que habitavam ao longo do Rio Amazonas. Por sua doçura, todos os animais e plantas a amavam. Mantinha-se, entretanto, indiferente aos muitos admiradores da tribo. Em uma tarde de verão, após o Sol se pôr, Uiara permanecia no banho, quando foi surpreendida por um grupo de homens estranhos. Sem condições de fugir, a jovem foi agarrada e amordaçada. Acabou por desmaiar, sendo violentada e atirada ao rio. O espírito das águas transformou o corpo de Uiara em um ser duplo. Continuaria humana da cintura para cima, tornando-se peixe no restante. Uiara passou a ser uma sereia, cujo canto atrai os homens de maneira irresistível. Ao verem a linda criatura, eles se aproximam e são arrastados para as profundezas, de onde nunca mais voltarão.

Mandioca - o pão indígena

Mara era uma jovem índia, filha de um cacique, que vivia sonhando com o amor e um casamento feliz. Certa noite, Mara adormeceu na rede e teve um sonho estranho. Um jovem loiro e belo descia da Lua e dizia que a amava. O jovem, depois de lhe haver conquistado o coração, desapareceu de seus sonhos como por encanto. Passado algum tempo, a filha do cacique, embora virgem, percebeu que esperava um filho. Para surpresa de todos, Mara deu à luz uma linda menina, de pele muito alva e cabelos tão loiros quanto a luz do luar.

Deram-lhe o nome de Mandi (ou Maní) e na tribo ela era adorada como uma divindade. Pouco tempo depois, a menina adoeceu e acabou falecendo, deixando todos amargurados. Mara sepultou a filha em sua oca, por não querer separar-se dela. Desconsolada, chorava todos os dias, de joelhos diante do local, deixando cair leite de seus seios na sepultura. Talvez assim sua filha voltasse à vida, pensava. Até que um dia surgiu uma fenda na terra de onde brotou um arbusto.

A mãe se surpreendeu. Talvez o corpo da filha desejasse dali sair. Resolveu então remover a terra, encontrando apenas raízes muito brancas, como Mandi (Maní), que, ao serem raspadas, exalavam um aroma agradável. Todos entenderam que criança havia vindo à Terra para ter seu corpo transformado no principal alimento indígena. O novo alimento recebeu o nome de Mandioca, pois Mandi (Maní) fora sepultada na oca.

Vitória-régia (ou mumuru) – a estrela dos lagos

Maraí era uma jovem e bela índia, que amava muito a natureza e tinha o hábito de contemplar chegada da Lua e das estrelas. Nasceu nela, então, um forte desejo de se tornar uma estrela. Perguntou ao pai como surgiam aqueles pontinhos brilhantes no céu e, com grande alegria, soube que Jacy, a Lua, ouvia os desejos das moças e, ao se esconder atrás das montanhas, transformava-as em estrelas. Muitos dias se passaram sem que a jovem realizasse seu sonho. Maraí resolveu, então, aguardar a chegada da Lua junto aos peixes do lago. Assim que ela apareceu, Maraí, encantada com sua imagem refletida na água, foi sendo atraída para dentro do lago, de onde nunca mais voltou. A pedido dos peixes, pássaros e outros animais, Maraí não foi levada para o céu. Jacy transformou-a em uma bela planta aquática, que recebeu o nome de vitória-régia (ou mumuru), a estrela dos lagos.

Guaraná – a essência dos frutos

Aguiry era um alegre indiozinho, que se alimentava somente de frutas. Todos os dias saía pela floresta à procura delas, trazendo-as num cesto para distribuir entre seus amigos. Certo dia, Aguiry se afastou demais da aldeia e se perdeu na mata. Jurupari, o demônio das trevas que tinha corpo de morcego, bico de coruja e também se alimentava de frutas, vagava pela floresta quando encontrou o índio não hesitou em atacá-lo. Os outros índios encontram Aguiry morto ao lado de um cesto vazio. Tupã, o deus do bem, ordenou que retirassem os olhos da criança e os plantassem sob uma grande árvore seca. Seus amigos deveriam regar o local com lágrimas, até que ali brotasse uma nova planta, da qual nasceria o fruto que conteria a essência de todos os outros, deixando mais fortes e mais felizes aqueles que dele comessem. A planta que brotou dos olhos de Aguiry possui sementes em forma de olhos e recebeu o nome de guaraná.

Curupira

Trata-se de um ser do tamanho de uma criança de seis ou sete anos, peludo como o bicho preguiça, de unhas compridas e afiadas, com o calcanhar para frente e os dedos dos pés para trás, que anda nu pela floresta. Ele toma conta da mata e dos animais e mora nos buracos das árvores que tem raízes gigantescas, muito comuns na Floresta Amazônica. O curupira ajuda os caçadores e os pescadores que lhe oferecem cachaça, fósforo e fumo. Esta oferta é para que o indivíduo tenha fartura nas caçadas, pescarias e roçados. As pessoas que não têm devoção pelo curupira sentem medo, enjôo e náuseas a quilômetros de distância dele. Com essas pessoas, ele brinca fazendo com se percam na mata. Para se livrar do curupira deve-se cortar uma vara, fazer uma cruz e colocar em um rolo de cipó tumbuí, bem apertado. Ele vê esse objeto e procura desmanchar o enrolado. Enquanto fica entretido em desmanchar o enrolado, a pessoa tem tempo para fugir.

Saci Pererê

Muito esperto e travesso,  ele aparece sempre às sextas- feiras, à noite, pulando com uma perna só, mostrando seus olhinhos brilhantes e os dentes pontiagudos. Usa uma camisa e uma carapuça vermelha na cabeça e traz em uma das mãos um cachimbinho de barro. Sua tarefa é carregar para uma mata muito distante crianças desobedientes e manhosas, gorar ovos de ninhadas, queimar balões, azedar leite, fazer o milho de pipoca virar piruá e atacar os viajantes, pedindo fumo e fogo. Se alguém recusa seu pedido, ele faz cócegas na pessoa até que ela morre de tanto rir.

Boto

É o mais importante habitante encantado do Rio Amazonas. À meia-noite ele se transforma em homem, andando por cima dos paus das beiradas do rio, de preferência sobre os buritizeiros tombados nas margens. Veste roupa branca e usa um chapéu branco para ocultar uma abertura no alto da cabeça por onde sai um forte cheiro de peixe e hálito de maresia. Ele aparece tão elegante nas festas que encanta e seduz as donzelas. Dança a noite toda com as mais jovens e mais bonitas da festa. Sai com elas para passear e antes do amanhecer pula na água e volta à forma primitiva de peixe, deixando as moças sempre grávidas. Além de sedutor e fecundador é conhecido também como o pai das crianças de paternidade desconhecida, pois as mães solteiras o acusam de ser o pai de seus filhos. O boto-homem é obcecado por mulheres, sente o cheiro feminino a grandes distâncias. Para evitar que ele apareça esfrega-se alho na canoa, nos portos e nos lugares onde ele gosta de aparecer.

Uirapuru

Certa vez um jovem guerreiro apaixonou-se pela esposa do grande cacique, mas como não podia se aproximar dela pediu a Tupã (Lua) que o transformasse em pássaro. Tupã fez dele um pássaro de cor vermelho-telha, que toda noite ia cantar para sua amada. Quando cacique notou seu canto tão lindo e fascinante, perseguiu a ave para prendê-la só para si. O uirapuru voou para bem distante da floresta e o cacique que o perseguia, perdeu-se dentro das matas e igarapés e nunca mais voltou. O lindo pássaro volta sempre, canta para a sua amada e vai embora, esperando que um dia ela descubra seu canto e seu encanto.

Caipora

Trata-se de um menino de pele escura, pequeno e rápido, cabeludo e feio, que fuma cachimbo, e tem a função de proteger os animais da floresta, os rios e as cachoeiras. Vive sondando as matas montado em um porco, sempre com uma longa vara na mão. Quando o caçador se aproxima o caipora pressente sua chegada através do vento que lhe agita os cabelos. Então sai a galope em seu porco fazendo barulho para espantar veados, coelhos, capivaras e outros animais de caça. Às vezes, o caçador, sem ver direito, corre atrás do próprio caipora que montado em seu porco faz zigue-zague pelo mato até perder-se de vista.

(*Fontes Funai e Fundação Joaquim Nabuco)
Mitos e lendas sobre ervas e temperos
Mitos e lendas sobre ervas e temperosErvas e temperos têm sido usados com propósitos medicinais e para condimentar comidas desde antes da escrita. Antigamente, eles eram mercadorias caras e escassas e não eram normalmente destinados a pessoas comuns. As ervas e temperos foram descobertas por exploradores, negociadas e roubadas. Guerras foram lutadas por causa delas. Agora que são em sua grande maioria baratas e muito utilizadas, o que realmente sabemos sobre as ervas na nossa despensa? Sim, manjericão e tomates ficam ótimos juntos, mas o manjericão já foi considerado ser capaz de afastar dragões. Cada erva ou tempero não tem somente uma história, mas são associados com mitos, folclore e lendas.

Manjericão

O manjericão é nativo da Ásia, África, América Central e do Sul. Provavelmente foi cultivado primeiramente na Índia, onde é considerado uma erva sagrada e associada ao amor e a lealdade. O manjericão é por vezes cultivado em casas Hindus a fim de trazer felicidade à família. Ser enterrado com uma folha do manjericão era considerado um passaporte para o Paraíso. A palavra "manjericão" (ocimum basilicum) é derivada da palavra grega para "rei" (basileus), uma referência a sua fragrância nobre. Alexandre, O Grande, possivelmente levou a erva para a Grécia, onde antes se pensava que escorpiões acasalavam embaixo de vasos da erva. Antigos romanos chamavam a erva de "basiliscus", em referência ao basilisco, um dragão feroz e perigoso que podia matar com o olhar. Acreditavam então que comer a erva servia como proteção contra esse dragão, assim como uma cura para seu veneno. Os romanos também ligavam o manjericão ao amor e a fertilidade. Os franceses o chamam de "herbe royale". Europeus medievais o consideravam uma erva de feiticeiros. O manjericão tem uma associação à Santa Cruz. Uma lenda cristã conta que a Cruz de Cristo foi encontrada sob plantas de manjericão. De acordo com o Padre Mark, do blog Vultus Christi, (veja abaixo), "Lendas dizem que plantas de manjericão surgiram aos pés da cruz onde sangue e água jorraram do coração de Cristo. Supostamente, um raminho de manjericão foi encontrado crescendo da madeira da cruz." Mas para provar que o manjericão não é o tempero favorito, ele também é associado com Erzulie, uma deusa pagã venerada no Haiti. Italianos consideram o manjericão um símbolo de amor. Na Romênia, se um homem aceita um ramo de manjericão de uma mulher, eles estão noivos.

Canela

Existem dois tipos de canelas. Cinnamomum zeylanicum é conhecida como canela verdadeira e é nativa do Sri Lanka, antes Ceylon. O outro tipo vem da cássia, árvore que cresce no Vietnam, China Indonésia e América Central. Essa canela é usada na América do Norte, e tem gosto mais amargo que a canela verdadeira. Canelas eram usadas na medicina pelos antigos Chineses, para o tratamento de febre, diarreia e cólicas. Também era usado como incenso em tempos chineses. Quando os egípcios a descobriram, a canela passou a ser usada em seus processos de embalsamamento. O óleo da canela era usado entre os antigos povos hebraicos em seus rituais de unção. Em tempos bíblicos, a canela era usada como perfume, como tempero e para tratar indigestões. Na Idade Média, os Árabes levaram canelas e outros temperos da Ásia para o Egito em caravanas. Eles planejavam histórias para esconder a fonte de canela e explicar sua escassez e preço. A ave mística cinnamologus originou-se dessa prática. Os árabes afirmavam que esse pássaro fazia ninhos de paus de canela na Arábia, mas eles não sabiam de onde eles tiravam a canela. Obtê-la exigia desalojar as aves de seus ninhos pendurados em arriscados penhascos. No começo da Idade Média, Plínio, O Velho, escreveu que 350 gramas de canela equivaliam a 5.000 gramas de prata. Apenas os mais ricos e poderosos tinha acesso a essa especiaria. Em 65 D.C, acredita-se que o O Imperador Romano Nero queimou o abastecimento de um ano no funeral de sua mulher, possivelmente em remorso por ter causado sua morte. A canela era usada para preservar carnes e mascarar o odor de podridão. Ela, junto com as uvas e heras, são plantas sagradas de Dionísio, o deus grego. A fênix, pássaro mitológico que renasce de suas cinzas, usa canela, mirra e nardo para fazer as chamas mágicas que usa para renascer. Medicinalmente, a canela é às vezes usada como remédio para tosse e garganta inflamada, para a gripe, problemas uterino e para o que Hildegarda de Bingen, teóloga alemã do século 12, chamava de "decadência interior de lodo". Cleópatra era famosa por seus óleos de sedução e aromas, e sem dúvida tinha canela em seu arsenal. Canela também era conhecida por ser usada em poções do amor.

Endro

O endro é originário da Ásia Central e é agora importado do Egito, outros países Mediterrâneos e do Leste Europeu. A variedade cultivada na Índia é menos pungente, então se estiver seguindo uma receita indiana, menos endro é necessário. O nome dessa erva veio da palavra "dilla" do antigo nórdico que significa "acalmar" ou "abrandar". Os curandeiros no Antigo Egito usavam o endro como remédio para digestão, assim como os antigos chineses usavam frequentemente para crianças. A água de endro era usada para aliviar cólicas em bebês, possuindo propriedades antigases e de sedativo leve. Em antigas culturas grega e romana, o endro era tido como sinal de riqueza, assim como era conhecido por suas propriedades medicinais. Sementes queimadas de endro eram aplicadas a ferimentos de soldados para acelerar a cicatrização por possuírem propriedades antissépticas, afastando bactérias. Folhas de endro também eram usadas nos olhos, auxiliando no sono. Escrituras Talmúdicas mostram que o endro era valioso. Na Era Medieval, o endro era utilizado tanto para bruxaria quanto para proteção contra bruxaria. Um amuleto feito de folhas de endro ou galhos era usado para isso. Beber água do endro também era considerado eficaz para se livrar de encantamentos. Outras histórias incluem adicionar o endro ao vinho para criar paixão e banhar-se em água de endro para se tornar irresistível. O endro foi trazido por colonizadores do Novo Mundo. Eles usavam a água do endro como remédio para cólicas, tosse, indigestão, gases, dores no estômago e insônia. Assim como para hemorroidas e soluços. Crianças mastigavam as sementes do endro para acalmá-las durante longos sermões.

Manjerona

Manjerona e orégano compartilham o gênero "originum", mas eles não são iguais. Embora manjerona seja um tipo específico de orégano, é mais suave. Ele desenvolve um aroma melhor em lugares mais quentes. Um tipo de manjerona que cresce na Jordânia, Líbano e Israel é chamado de "zahtar". As lendas gregas dizem que a manjerona, também conhecida como alegria-da-montanha, desenvolvia esse aroma após ser tocada pela deusa Vênus. Se uma manjerona nascia perto de um túmulo, era dito que o espírito do morto estava em paz e feliz. Para aprender a identificar seu futuro esposo ou esposa, dormia-se com a erva para sonhar com o seu ainda desconhecido amor. Coroas de manjerona eram usadas para coroar recém-casados na antiga Grécia e Roma e para lhes trazer amor, honra e felicidade. Era usada de maneira semelhante na Idade Média, carregadas em casamentos, nos buquês. Também era conhecida por suas propriedades antissépticas e usada em quartos de doentes, sendo por vezes jogada no chão em funerais. Era usada em banhos e na purificação de templos em tempos bíblicos. A manjerona também era um antídoto contra bruxaria. Dizia-se que "aquele que vendeu sua alma ao demônio não suportaria o contato com ela", de acordo com Charles Skinner, em seu livro de 1915 "Myths and Legends of Flowers, Trees, Fruits and Plants". Os usos medicinais dessa planta incluíam bebê-la em forma de chá para preservar e fortalecer a voz, como remédio para veneno de cobra, calmante, para digestão, para dor de dente e para problemas da laringe. Também era considerada boa para prolongar a vida.

Alecrim

O alecrim é nativo do Mediterrâneo, seu nome em latim significa "orvalho do mar". O nome pode ter mais ligação a cor de suas flores do que sua afinidade pelo mar. A lenda mais famosa sobre essa planta é a que as flores do alecrim eram brancas. Elas se tornaram azul após a Virgem Maria colocar seu manto azul sobre um arbusto de alecrim. Acreditava-se que o arbusto não crescia mais que 1 metro, não importando o quão velho, pois ele se recusava a ficar mais alto que Cristo. Outra lenda diz que alecrim apenas cresceriam em jardim de pessoas de bem; outra lenda conta que se o alecrim crescesse com vigor em um jardim, a mulher da casa era mais forte que o homem. A associação com a Virgem Maria também pode ser ligada a tradição de decorar casas e igrejas com a erva no natal. O alecrim é a erva da fidelidade e da memória. "Tens o alecrim para recordar", disse Ofélia em "Hamlet". Com isso em mente, o alecrim tem sido utilizado por muito tempo em casamentos, como um sinal de fidelidade e para lembrar ao novo casal de não esquecer os votos, suas raízes e famílias. Alecrim seco também pode ser usado para promover fidelidade. Como bônus, alecrins embaixo do travesseiro eram conhecidos por espantar não apenas pesadelos, mas também demônios. Alecrins são jogados em caixões como uma promessa de relembrar os falecidos. Mais sobre isso, os antigos estudantes gregos usavam alecrim no cabelo para ajudá-los na memória antes de fazer um teste. Também era prescrito para aliviar sintomas de doenças mentais. O alecrim também era considerado desinfetante, especialmente quando queimado. A igreja queimava alecrim para purificar o ambiente e antigos gregos queimavam-no para afastar maus espíritos e doenças. Os franceses queimavam alecrim em hospitais durante a Idade Média para limpar o ar. Historicamente, o alecrim tem sido usado de diversas maneiras em diversas épocas para tratar ansiedades, melancolia, depressão, dores de cabeça, tonturas, epilepsia, artrite, gota, calvície e até para reduzir varizes.

Outros mitos e lendas de ervas e temperos

Obviamente, há muito mais mitos e lendas no folclore sobre ervas e temperos do que possa ser escrito aqui. Para aqueles que gostariam de aprender mais sobre o assunto, uma boa dica é o livro de Charles Skinner, "Myths and Legends of Flowers, Trees, Fruits and Plants", previamente mencionado.
Mitos e lendas sobre os raios
Mitos e lendas sobre os raiosOs raios e os trovões aparecem com constância nos mitos das civilizações do passado. Profetas, sábios, escribas e feiticeiros os interpretavam como manifestações divinas, considerados principalmente como reação de ira contra as atitudes dos homens.

Nas mãos de heróis mitológicos e de divindades eram utilizados como lanças, martelos, bumerangues, flechas ou setas para castigar e perseguir os homens pecadores.

Bumerangue

Há mais de cinco mil anos, os babilônicos acreditavam que o deus Adad carregava um bumerangue em uma de suas mãos. O objeto lançado provocava o trovão. Na outra mão, empunhava uma lança. Quando arremessada produzia os raios.

Castigo dos deuses

Para os antigos gregos, os raios eram lanças produzidas pelos gigantes Ciclopes, criaturas de um olho só. Elas eram feitas para que Zeus, o rei dos deuses, as atirasse sobre os homens pecadores e arrogantes. Como a mitologia grega foi migrada e adaptada à romana, a interpretação dada aos raios não sofreu muita alteração entre os romanos. O rei dos deuses, Júpiter, também tinha o hábito, como Zeus, de enviar raios(lanças) sobre os homens. Minerva, a deusa da sabedoria, no lugar de Ciclopes, era quem abastecia Júpiter com esta poderosa arma. Entre os nórdicos, que viviam no norte da Europa, Thor era o deus do trovão e dos raios. O som do trovão era provocado pelo movimento das rodas de sua carruagem e os raios podiam ser vistos quando Thor arremessava seu martelo.

Alvo ou proteção?

Acreditava-se que havia árvores que atraíam raios, enquanto outras as repeliam. O grande deus romano, Júpiter, tinha como símbolo o carvalho, árvore alta e majestosa, constantemente atingida por raios. Por outro lado, acreditava-se no poder de proteção do loureiro, arbusto também encontrado na região do Mediterrâneo, cujos ramos e folhagens eram utilizados sobre a cabeça de imperadores e generais romanos. O loureiro era considerado um meio de proteção contra a ira dos deuses da tempestade que,presumia-se, invejavam os generais pelas vitórias e conquistas de seus exércitos.

Sinos contra raios

Outra crença, muito difundida na Europa Medieval,dizia que o badalar dos sinos das igrejas durante as tempestades afastaria os raios. A superstição perdurou por muito tempo. Muitos campanários de igreja foram atingidos e mais de uma centena de tocadores de sino foram mortos acreditando em tal ideia. A superstição perde força somente no início do século XVIII.

Amuletos de proteção

Outra crença popular considerava a pedra-de-raio um talismã para proteção pessoal e de residências entre povos europeus,asiáticos e americanos. No nordeste brasileiro, a pedra-de-raio é conhecida até hoje como pedra-de-corisco, por influência dos portugueses do século XVI. A pedra seria trazida pelo raio, cuja força meteórica a enterraria. A origem de tal superstição está baseada na falsa ideia de que um local não pode ser atingido duas vezes pelo mesmo raio, mas a explicação para a origem destas ideias pode estar relacionada com achados de utensílios e armas de pedra polida de povos mais antigos. Sabe-se que os etruscos e, mais tarde, os romanos da antiguidade usavam a pedra (pontas de flechas e de martelos) em colares como amuleto. Ficavam à mostra no pescoço, mas também eram colocadas nas casas e no telhado com o intuito de ficar a salvo dos raios. Na Bahia, os escravos africanos acreditavam que a pedra-santa-bárbara, como chamavam a pedra-de-raio, desprendia-se da atmosfera durante as tempestades. Ela teria poderes curativos e por isso era utilizada em preparos de remédios para diversas doenças.

Espelho atrai raios?

Não. A crença surgiu na época em que os espelhos tinham grandes molduras metálicas – elas, sim, um grande atrativo para os raios. Não há necessidade de cobrir espelhos durante uma tempestade.

Um raio não atinge duas vezes o mesmo local?

Também é mentira. Uma prova disso é o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, que recebe cerca de seis raios por ano.