Lenda da Princesa de Jericoacoara
A exemplo da Alamoa e das Mães do Ouro espalhadas por todo o Brasil, a Princesa de Jericoacoara é outra criatura da estirpe das princesas encantadas, guardiãs de tesouros em grutas ou cavernas, que tanto sucesso fizeram em Portugal, na versão das mouras encantadas.

Habitante do Ceará, ela tem sua morada na cidade que a imortalizou, Jericoacoara. Por artes de algum feitiço, a princesa, outrora bela e deslumbrante, está agora transformada numa serpente.

Lenda da princesa de Jericoacoara

Felizmente, sua cabeça permanece a mesma dos seus dias de beleza, bem como os seus pés.

Para desencantá-la, é preciso a coragem de um homem de verdade, disposto ao martírio, pois somente com o sacrifício de uma vida humana ela poderá retomar sua antiga forma (que se faça um sinal da cruz no dorso da cobra com o sangue do sacrificado é o que basta para o desmanche do feitiço).

Então estarão abertos, como por mágica, os portões da gruta onde se oculta o palácio esplendoroso da princesa, repleto de todas as riquezas concebíveis deste mundo.

A riqueza, entretanto, será para os outros, não para o herói abnegado, a quem caberá apenas a honra eterna de ter liberado a mais linda das princesas do seu fado infeliz.
A Lenda do Tutu Marambá
Irmão do Bicho-Papão e do Boi da Cara Preta, o Tutu Marambá é uma criatura toda negra, sem ter, porém, forma discernível alguma. (A palavra Tutu, segundo Câmara Cascudo, provém do termo africano quitutu, que significa “ogro” ou “papão”.)

Apesar de não ser tão popular quanto o Bicho-Papão, que chegou a virar termo proverbial, o Tutu marambá é senhor dos terrores noturnos infantis na Bahia, em Pernambuco, no Rio de Janeiro e em Minas Gerais.

A lenda do Tutu
Existem várias modalidades da criatura, das quais a mais singular é a do Tutu-zambê, que, além de não possuir forma, não possui também a cabeça.

Na Bahia, por sua vez, o Tutu marambá deixa de ser uma mera sombra para assumir a forma explícita de um porco-do-mato, graças à semelhança dos termos tutu e caititu. (O caititu, ou queixada, é uma espécie de porco selvagem, montaria predileta do Caipora nortista.)

Segundo a crença, o Tutu marambá persegue as crianças arteiras e, principalmente, aquelas que não querem dormir.

O mito, segundo Câmara Cascudo, é importado da Europa e da África. Nossas mães indígenas, ao contrário, preferiam invocar, numa admirável lição de delicadeza, o auxílio dos pássaros ou animais de sono prolongado, a fim de que o emprestassem a seus indiozinhos insones. (Acatipuru, empresta teu sono / para meu filho dormir... / Iacuturu, empresta teu sono / para meu pequeno filho dormir..., diz, como numa oração, o suave acalanto).

Tutu Marambá - Canção Popular

Tutu Marambá não venhas mais cá

Que o pai do menino te manda matar (repete)

Durma neném, que a Cuca logo vem

Papai está na roça e Mamãezinha em Belém

Tutu Marambá não venhas mais cá

Que o pai do menino te manda matar (repete)
A Lenda do Zumbi
A lenda do Zumbi é outra criação brasileira calcada no tipo universalmente conhecido do morto-vivo, embora aqui ele seja um fantasma incorpóreo, e não um cadáver teleguiado, como estamos acostumados a ver nas recorrentes versões cinematográficas.

Apesar disso, tornou-se quase impossível dissociar a imagem de um e de outro, de tal forma que, na mentalidade popular, os dois personagens tornaram-se sósias.

Na versão brasileira, porém, o Zumbi é mais “elétrico” e gosta de dar susto nas pessoas, enquanto o morto-vivo dos filmes, mesmo quando está empenhado em estraçalhar e matar, o faz mergulhado num estado de apatia catatônica.

A Lenda do Zumbi

Zumbi acabou tornando-se emblema, também, do maior herói negro da nossa nacionalidade, o guerreiro Zumbi dos Palmares, que nada tinha de apático.

Diz a nossa crendice – e este é um traço realmente original do nosso Zumbi – que, quanto mais perto a vítima está dele, mais ele cresce em estatura, inclinando-se para diante de uma forma sinistra.

Graças à origem africana do termo – nzumbi, “fantasma” –, o Zumbi é normalmente visto como um homem negro, mas nada impede que possamos ver passeando pelas nossas matas e cidades versões étnicas mais claras do ser amedrontador.

A fama do Zumbi é mais consistente nos estados da Bahia, do Rio, de Minas e de Sergipe.
A Lenda do Capelobo
O Capelobo é um personagem do folclore brasileiro, que possui aparência de monstro.

A lenda do Capelobo é muito comum na região Norte do Brasil, principalmente nos estados do Maranhão, Amazonas e Pará. Acredita-se que tenha surgido entre os povos indígenas da região.

Características e lenda do Capelobo

De acordo com a lenda, seu corpo é uma mistura de ser humano com animais. Desta forma, possui cabeça e focinho de tamanduá-bandeira (ou de cachorro ou de anta, dependendo da versão), corpo humano forte, patas redondas (formato de fundo de garrafa) com muitos pelos no corpo. É muito rápido e vive correndo pelas matas próximas aos rios e em regiões de várzeas.

De acordo com a lenda, o Capelobo tem uma vida ativa durante a noite e madrugada, quando fica perambulando e rodeando barracões, casas e acampamentos no meio da mata. Emitindo sons assustadores (gritos altos), este monstro se alimenta de cães e gatos, principalmente os que acabaram de nascer. Ataca também os caçadores, matando-os e bebendo o sangue das vítimas.

Para matar essa criatura monstruosa, de acordo com a lenda, só existe uma forma: um tiro certeiro em seu umbigo.

Semelhanças do Capelobo com o Lobisomem

A lenda do CapeloboA lenda do Capelobo possui, como vimos, muitas semelhanças com a do Lobisomem. Por isso, alguns folcloristas dizem que ele é uma espécie de lobisomem da região norte do Brasil.

Em algumas tribos indígenas do região do rio Xingu, acredita-se que alguns índios possuem a capacidade de se transformarem em Capelobo.

Acredita-se que o nome deste personagem folclórico seja de origem indígena, sendo uma mistura de capê (osso quebrado) e lobo.
A lenda do Açaí
A lenda do Açaí
O açaí, fruto do açaizeiro, palmeira comum na Amazônia, é conhecido pelos indígenas como “iça-iça”, a fruta que chora.

A lenda do Açaí, o fruto sagrado do povo de Itaki

Reza a Lenda que há muito tempo atrás, quando ainda não existia a cidade de Belém, vivia neste local uma tribo indígena muito grande.

Os alimentos eram escassos e a vida tornava-se cada dia mais difícil com a necessidade de alimentar todos os índios da tribo.

Foi aí que o cacique da tribo, chamado de Itaki tomou uma decisão muito cruel. Ele resolveu que a partir daquele dia todas as crianças que nascessem seriam sacrificadas para evitar o aumento de índios da sua tribo.

Um dia, no entanto, a filha do cacique, que tinha o nome de IAÇÃ, deu à luz uma linda menina, que também teve de ser sacrificada. IAÇÃ ficou desesperada e todas as noites chorava de saudades de sua filhinha.

Durante vários dias, a filha do cacique não saiu de sua tenda.

Em oração, pediu à Tupã que mostrasse ao seu pai uma outra maneira de ajudar seu povo, sem ter que sacrificar as pobres crianças. Depois disso, numa noite de lua, IAÇÃ ouviu um choro de criança. Aproximou-se da porta de sua oca e viu sua filhinha sorridente, ao pé de uma esbelta palmeira. Ficou espantada com a visão, mas logo depois, lançou-se em direção à filha, abraçando-a. Mas, misteriosamente a menina desapareceu.

IAÇÃ ficou inconsolável e chorou muito até desfalecer.

No dia seguinte seu corpo foi encontrado abraçado ao tronco da palmeira. No rosto de IAÇÃ havia um sorriso de felicidade e seus olhos negros fitavam o alto da palmeira, que estava carregada de frutinhos escuros.

O cacique Itaki então, mandou que apanhassem os frutos em alguidar de madeira, o qual amassaram e obtiveram um vinho avermelhado que foi batizado de AÇAÍ, em homenagem a IAÇÃ (invertido é igual a açai).

Com o açaí, o cacique alimentou seu povo e, a partir deste dia, suspendeu sua ordem de sacrificar as crianças.
A Lenda do Quibungo
Segundo a lenda o Quibungo é uma espécie de Bicho-Papão negro, um visitante africano inesperado que acabou por se domiciliar na Bahia, onde passou a fazer parte do folclore local. Trata-se de uma variação do Tutu e da Cuca, cuja principal função era disciplinar, pelo medo, as crianças rebeldes e relutantes em dormir cedo.

O Quibungo faz parte dos contos romanceados, sempre com um episódio trágico ou feliz, mas sem data que o localize no tempo. É um Velho do Saco para os meninos, um temível devorador de crianças, especialmente as desobedientes. Sem dúvida um meio eficaz de cobrar disciplina pela imposição do medo.

A Lenda do Quibungo
Não há nenhum testemunho ocular de sua existência, mas, em meio ao universo infantil, existe como concreto. Dentro dessas histórias tradicionais, contadas para as crianças inquietas ou teimosas, ele se arrasta como um fantasma faminto, como um feroz devorador de meninos e meninas que distanciam dos seus pais.

É personagem da literatura oral afro-brasileira, com cruel voracidade, enorme feiura, brutalidade e inexistente finalidade moral.

O Quibungo é ao mesmo tempo homem e animal. Espécie de lobo ou velho negro maltrapilho e faminto sujo e esfarrapado, um verdadeiro fantasma residente nos maiores temores infantis.

Não nos é possível determinar se nas estórias africanas o Quibungo conserva a forma e os hábitos do seu similar baiano. O Quibungo africano não tem um ciclo temático igual ao brasileiro. Aqui ele assumiu o mesmo papel já atribuídos ao Tutu-Marambá, ao Bicho-preto, ao Macaco-saruê, ao Bicho-cumunjarim, ao Dom Maracujá e ao próprio Zumbi que muitas vezes é sinônimo de Saci-Pererê. Do africano herdou a boca vertical, do nariz ao umbigo ou no dorso, assim como já é o nosso Mapinguari. Na Bahia o Quibungo reina e governa em sua missão de assombro aos pequenos.

Assim, o Quibungo baiano é só baiano, não existe em outros lugares do Brasil. É um bicho meio homem, meio animal, tendo uma cabeça muito grande e também um buraco no meio das costas, que se abre quando ele abaixa a cabeça e se fecha quando levanta. Engole as crianças abaixando a cabeça, abrindo o buraco e jogando-as para dentro. É também um feiticeiro, demônio, lobisomem, macacão, preto velho. No fundo continua sempre a ser um ente estranho e canibal, que prefere a carne tenra das crianças.

Outro ponto digno de menção sobre o Quibungo é sua completa vulnerabilidade. Pode ser atacado por qualquer meio, arma branca ou de fogo. Morre gritando, espavorido, acovardado, como o mais inocente dos monstros que a imaginação infantil dos povos já criou.

Outras informações sobre o Quibungo

Nomes comuns: Kibungo, Chibungo, Quibungo.

Origem Provável: A influência africana é determinante, mas não influenciou que se espalhasse por outros Estados do Brasil. Negros escravos Bantus se espalharam por toda parte. Em Pernambuco ficaram muitos. Mas a lenda do Quibungo não acompanhou estes, nem em Sergipe, onde ficaram outros tantos.

A versão brasileira é originária da Bahia. Os aspectos do personagem baiano brasileiro, difere do africano. Serviu a África apenas como fonte de inspiração. Apesar de ter origem entre os povos negros Bantus que migraram para a Bahia, não se espalhou para os demais estados, mesmo diante do grande afluxo desse povo para outras regiões do país.

O Quibungo se tornou baiano, e assim ainda continua. Se fosse de origem africana sem dúvida acompanharia seus habitantes para onde quer que estes se deslocassem, o que não ocorreu no Brasil. Ele não é citado nas estórias nem do Nordeste, nem do Norte. Ele foi importado da África como protótipo, mas reestruturado pelos brasileiros baianos com base nas crenças locais já existentes.

Desse modo, ele herda aspectos do "Velho do Saco", do Lobisomem, etc. A referência à sua boca às costas, mais lembra o próprio Velho do Saco, que literalmente engolia as crianças pelas costas, uma vez que depois de ensacá-las, jogava o surrão sobre seu dorso e ia embora.

O Homem do Surrão ou "Velho do Saco" faz parte de estórias portuguesas e está em quase toda Europa. É um homem velho, esfarrapado, sujo, muito feio, que procura agarrar as crianças vadias ou descuidadas e metê-las num grande saco de couro, de abertura larga, pronta para este fim.

Não se sabe como morrem as crianças. Se o homem as devora ou mata-as pelo prazer de matá-las. Cada criança que o Homem segura é sacudida no surrão que se fecha. Para este movimento é preciso que o Homem baixe a cabeça. Então o surrão abre-se. Presa a criança, fechado o saco, o Homem ergue a cabeça. São as mesmas atitudes do nosso Quibungo com sua suposta imensa bocarra. Pela descrição, a boca do Quibungo é um saco.

No mais, é mito local, trabalho conjunto afro-brasileiro, uma silhueta disforme e negra que caminha, não nas florestas como o Mapinguari, mas nos contos populares como as histórias da carochinha.
A lenda da pisadeira
A lenda da pisadeira
Você já ouviu falar da lenda da pisadeira? Trata-se do folclore brasileiro que está bastante presente na região do interior de Minas Gerais e São Paulo.
"Esta é ua muié muito magra, que tem os dedos cumprido e seco cum cada unhão! Tem as perna curta, cabelo desgadeiado, quexo revirado pra riba e nari magro munto arcado; sombranceia cerrado e zóio aceso... Quando a gente caba de ciá e vai durmi logo, deitado de costa, ele desce do teiado e senta no peito da gente, arcano... arcano... a boca do estámo... Purisso nunca se deve dexá as criança durmi de costa." (Cornélio Pires. Conversas ao pé do fogo)
A lenda refere-se à uma mulher que seria conhecida como pisadeira. Ela teria uma aparência assustadora, sendo alta, magra e com unhas enormes em dedos bastante compridos e secos. Além disso, teria olhos vermelhos e arregalados, nariz comprido e queixo grande, sendo de baixa estatura. Seus cabelos brancos também fazem parte da descrição, assim como o olhar maligno que transmite, suas gargalhadas assustadoras e seus dentes verdes.

Segundo essa lenda, a pisadeira, que está sempre de chinelos, anda grande parte do tempo pelos telhados das casas, parando em uma delas e ficando a observar o movimento em seu interior. Quando alguém vai dormir de barriga cheia após o jantar, a pisadeira entra em ação, saindo de seu esconderijo e pisando no peito de sua vítima, que fica em estado de paralisia.

A vítima da pisadeira, no entanto, consegue acompanhar tudo de forma consciente, somente paralisada, o que causa um desespero gigantesco, já que não consegue fazer nada para escapar.

Como surgiu a lenda da pisadeira?

Não se sabe ao certo como exatamente a lenda surgiu, mas está diretamente relacionada aos pesadelos e sono conturbado que as pessoas tem quando vão dormir logo depois de fazer uma refeição pesada.

É mito de origem portuguesa que ocorre em São Paulo e parte de Minas Gerais. Entretanto, a crença que uma intervenção maléfica de um fantasma ou demônio seja a causa do pesadelo é comum a quase todos os povos do planeta desde os tempos da Antiguidade. Em Portugal, é o fradinho da mão furada. No Nordeste brasileiro, os sertanejos acreditam numa velha ou num velho de barba branca que vem lhes arranhar o rosto durante o sono.

Referências bibliográficas:

· Pires, Cornélio. Conversas ao pé do fogo. 3ª ed. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1927, p.152-153